Carta do Rio – 8 – por Rachel Gutiérrez

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Cronistas costumam às vezes se queixar de falta de assunto, mas pode também ocorrer o que os franceses chamam de l’embarras du choix , a dificuldade de escolher, entre muitos, o assunto mais importante.

Durante a semana, além do choro dos jogadores e da torcida brasileira, a televisão também mostrou o choro, principalmente de mulheres e crianças, diante de suas casas destruídas pela polícia num vilarejo da África. Lá, como aqui, os abandonados da terra, não tendo onde morar, constroem seus casebres miseráveis em encostas perigosas. E quando são desalojados, sem ter para onde ir, só lhes resta chorar. Para onde serão levados? Quanto tempo hão de ficar amontoados em abrigos? E tem-se vontade de chorar por essa gente de destino trágico como o dos imigrantes que se arriscam na tentativa de chegar à costa da Itália e morrem às centenas pelo meio do caminho. Também já os vimos chorar. E nos últimos dias, vemos os palestinos chorando pelos seus entes queridos assassinados pelas bombas de Israel. Sim, o Hamas também tem lançado mísseis, mas a desproporção entre as baixas, principalmente de civis, mulheres e crianças de um lado e do outro é gritante. E podemos imaginar a aflição do diretor geral da Ong Paz Agora, Yariv Oppenheimer, o pacifista de Israel que tanto tem lutado e ainda acredita em criar uma alternativa não só para o conflito atual, mas para toda a região. “ O que espero é que as pessoas entendam que a política da direita só vai levar a mais embates como esses.” Só vai levar, tudo indica, ao injusto massacre de um povo inteiro que, como aqueles africanos, não têm para onde ir.

E eu volto a pensar em Daniel Barenboim porque julgo oportuno citar este trecho do seu corajoso discurso ao receber o prêmio Wolf em 2004, em Tel Aviv: “Hoje pergunto, com profunda aflição, podemos nós, apesar de nossas conquistas, ignorar a intolerável brecha entre o que a declaração da independência prometia” ( prometia Paz e boa vizinhança) “ e o que cumpriu, a brecha entre a ideia e as realidades de Israel? Ajusta-se a condição de ocupação e dominação sobre outro povo à declaração de independência? Existe algum sentido na independência de uns às expensas dos direitos fundamentais de outros?”

Voltemos, porém, ao choro provocado pela derrota humilhante da seleção brasileira. Esse foi o choro pelas ilusões perdidas. Tudo se passou como se tivéssemos vivido longas semanas de grande euforia e pura ficção. E como afirmam antropólogos, filósofos e cientistas políticos, passamos facilmente de um ufanismo exacerbado para o sentimento de baixa autoestima. Mas também podemos pensar que estamos vivendo um momento privilegiado muito propício à reflexão sobre o que somos e queremos ser. Com seu brilho habitual, o meu amigo José Miguel Wisnik escreveu: “ Polarizado pelo passado e por um futuro de miragem, o presente contém o buraco negro em que colapsa inconscientemente a seleção, quando fracassa o seu papel messiânico”.

E é possível acrescentar que o nome seleção pode ser substituído por equipe ( ou coletivo) assim como na política devemos lutar por uma democracia verdadeira e participativa na qual a voz dos menos favorecidos pode ser ouvida.

1 Comment

  1. Embora a política seja como a batata porca e suja ,sem forma concordo com a frase :” na política devemos lutar por uma democracia verdadeira e participativa na qual a voz dos menos favorecidos pode ser ouvida.”Maria

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