O BANQUEIRO – DE PESSOA, PASSANDO POR GALEANO, ATÉ CRAIG-JAMES MONCUR por Clara Castilho

livrolivros2Um texto pertinente, explendorosamente dito pelo actor Mike Daviot, anda correndo as redes sociais. Chama-se O Banqueiro, é um poema de Craig-James Moncur, que, para além de o escrever, também o  realizou e produziu. Não pude deixar de o associar a dois escritores, um português, outro uruguaio. Refiro ao Banqueiro Anarquista, escrito por Fernando Pessoa em 1922 e O livro dos abraços de Eduardo Galeano, publicado em 2005.

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Diz o Banqueiro Anarquista, à conversa com Pessoa:

[…] “Não havendo maneira de determinar ao certo, temos que pender para o lado da maior probabilidade; e a maior probabilidade está na segunda hipótese. É mais natural supor que a longuíssima permanência da humanidade em ficções sociais criadoras de tirania faça cada homem nascer já com as suas qualidade naturais pervertidas no sentido de tiranizar, do que supor que qualidades naturais podem ser naturalmente pervertidas, o que, de certo modo, representa uma contradição. Por isso o pensador decide-se, como eu me decidi, com uma quase absoluta segurança, pela segunda hipótese.”

[…] O processo dá em resultado eu enriquecer; portanto, compensação egoísta. O processo visa ao conseguimento da liberdade; ora eu, tornando-me superior à força do dinheiro, isto é, libertando-me dela, consigo liberdade. Consigo liberdade só para mim, é certo; mas é que como já lhe provei, a liberdade para todos só pode vir com a destruição das ficções sociais, pela revolução social. O ponto concreto é este: viso liberdade, consigo liberdade: consigo a liberdade que posso…”[…]

 Escreve Eduardo Galeano em O livro dos abraçosA vida profissional/3

“Os banqueiros da grande bancaria do mundo, que praticam o terrorismo do dinheiro, podem mais que os reis e os marechais e mais que o próprio Papa de Roma. Eles jamais sujam as mãos. Não matam ninguém: se limitam a aplaudir o espetáculo.

Seus funcionários, os tecnocratas internacionais, mandam em nossos países: eles não são presidentes, nem ministros, nem foram eleitos em nenhuma eleição, mas decidem o nível dos salários e do gasto público, os investimentos e desinvestimentos, os preços, os impostos, os lucros, os subsídios, a hora do nascer do sol e a freqüência das chuvas.

Não cuidam, em troca, dos cárceres, nem das câmaras de tormento, nem dos campos de concentração, nem dos centros de extermínio, embora nesses lugares ocorram as inevitáveis conseqüências de seus atos.

Os tecnocratas reivindicam o privilégio da irresponsabilidade:

— Somos neutros — dizem”.

 

 

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