Dashiel Hammett veio impor um novo paradigma de detective privado. E logo nos ocorre a comparação com Agatha Christie e com o seu Hércule Poirot e a sua Miss Marple – detectives perspicazes, que vão registando pequenos pormenores (que a autora sempre facultou aos leitores) e, geralmente no último capítulo, tudo desvendam deixando-nos de boca aberta, pois o assassino é sempre a menos suspeita das personagens.
A minha preferência vai para os detectives como Sam Spade, Philip Marlowe, Pepe Carvalho … Vão acumulando equívocos e é de equívoco em equívoco que chegam à conclusão final. São homens comuns, sem as celulazinhas cinzentas de Poirot ou o grande poder de observação e a memória fotográfica de Miss Marple. Aliás, Hammett, Chandler ou Vázquez Montalbán, não construíam os seus livros com base na engenhosidade do mistério – podemos logo na primeira página saber quem é o criminoso, sem que isso retire um grama de interesse ao romance. São dois tipos de romance policial diferentes – o de Agatha Christie arquitectado de forma clássica, na linha de Conan Doyle – Hércule Poirot é um Sherlock Holmes do século XX com um toque de exotismo – por ser um belga – o Dr, Watson, o palhaço pobre da dupla, é substituído pelo capitão Arthur Hastings.
De notar que, comparando datas, Agatha Christie foi contemporânea de Dashiel Hammett e de Raymond Chandler, tendo-lhes sobrevivido. Não se pode falar de épocas diferentes, mas de opções diferentes – a escritora inglesa optou por seguir a linha sherlockiana. Fê-lo de uma forma magistral e com um êxito fabuloso – nas diferentes línguas em que os seus 80 livros foram publicados, o número de cópias atinge os quatro mil milhões de exemplares. Este número apenas é ultrapassado pela Bíblia e pelas obras de Shakespeare.
Quando digo que prefiro Sam Spade, Marlowe ou Pepe Carvalho a Hércule Poirot, não significa tal preferência que não leia e releia os livros de Christie. Anos atrás, no El Corte Inglés de Badajoz, onde parei vindo de Madrid, comprei em saldo uma edição encadernada das obras completas – os 80 romances em 27 volumes compactos, volumosos, digamos. E não descansei enquanto não os li de enfiada, embora quase todos os tivesse já lido na Colecção Vampiro.
Tinha trinta anos quando conseguiu publicar seu livro de estreia, O Misterioso caso de Styles ( The Mysterious Affair at Styles,1921). 55 anos depois escreveu o último Cai o pano (Curtain). Pelo meio ficam dezenas de obras-primas. Entre esses 78 romances do meio, há dois que prefiro – Morte no Nilo (Death on the Nile ,1937) e O Crime noExpresso Oriente. (Murder on the Orient Express, 1934) Numa viagem ao Egipto, num cruzeiro entre Assuão e Luxor, tive oportunidade de percorrer os cenários do livro e do filme Morte no Nilo, realizado em 1978 por John Guillermin com Peter Ustinov, David Niven, Mia Farrow e Bette Davis. Acho que o filme não esteve à altura do livro. Digo quase sempre o mesmo. Terei razão? Ou será que uma palavra vale por um milhão de imagens?
E vale lembrar, Carlos Loures, o originalíssimo “detetive” Padre Brown, criado por G.K.Chesterton,, que decifrava os crimes a partir de uma interpretação psicológica do assassino. E era pura compreensão e
bondade,no que se parecia com a adorável Miss Marple, da Christie. . É pena que nesse,ninguém mais fale.
Acredito que valeria a pena republicá-lo também.
abraço,
Rachel Gutiérrez
E vale lembrar, Carlos Loures, o originalíssimo “detetive” Padre Brown, criado por G.K.Chesterton,, que decifrava os crimes a partir de uma interpretação psicológica do assassino. E era pura compreensão e
bondade,no que se parecia com a adorável Miss Marple, da Christie. . É pena que nesse,ninguém mais fale.
Acredito que valeria a pena republicá-lo também.
abraço,
Rachel Gutiérrez