A IDEIA – UMA ARTE HERMÉTICA EM BUSCA DO SEU ARTISTA (2) – por António de Macedo

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Auscultemos os anais da história: em 1960 o poeta, romancista e ensaísta Louis Pauwels (1920-1997) e o cientista e ensaísta Jacques Bergier (1912-1978)Imagem1 publicaram um livro que fez sensação na época e inaugurou uma diferente maneira de olhar o enigmático universo que nos rodeia: Le matin des magiciens. A tradução portuguesa intitulava-se O Despertar dos Mágicos, a que o editor acrescentou o subtítulo: Introdução ao Realismo Fantástico.

Vale a pena transcrever algumas linhas do prefácio deste livro, onde Pauwels define um autêntico programa após referir-se criticamente às deambulações oníricas dos surrealistas: Mas, ao contrário deles [surrealistas], as nossas buscas não se centraram nas zonas do sonho e da infraconsciência. Fomos para a outra extremidade: a da ultraconsciência e da vigília superior. Baptizámos e escola em que nos empenhámos como escola do realismo fantástico. Não tem nada a ver com o gosto pelo insólito, o exotismo intelectual, o barroco, o pitoresco. […] Define-se geralmente o fantástico como uma violação das leis naturais, como a aparição do impossível. Para nós, o fantástico não é nada disso. É antes uma manifestação das leis naturais, um efeito do contacto com a realidade quando é percebida directamente e não filtrada pelo véu do sono intelectual, e muito menos pelos hábitos, pelos preconceitos, pelos conformismos.9 Entre os artistas plásticos prezados por esta escola deparamos — como não podia deixar de ser — com Escher, Gourmelin, Marguerite Leenhardt, Marcel Delmotte, Leonor Fini…

Mas LF serve-se deste realismo fantástico apenas como trampolim para saltar mais longe, é uma etapa na sua obra que lhe abre caminho para transgredir o real e captar os mistérios que irrompem pelos interstícios do sonho e da realidade, e, mais ainda, para explorar o esoterismo iniciático enraizado nas grandes correntes tradicionais, desde o hermetismo neo-alexandrino até ao rosicrucismo e aos mitologemas o Portugal arquetípico e quinto-imperial: A arte de Lima de Freitas tornou-se pois, sobretudo a partir dos anos ’60, numa arte gnósica dos arquétipos, ou seja, numa arte dos tipos e dos princípios sagrados e tradicionais, como via para o conhecimento de uma meta-realidade, de uma realidade trans- ou mesmo sobrenatural, revivificada por uma inventividade torrencial […].

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