CONTOS & CRÓNICAS – A CARTA DE HOJE DE MAURÍCIO VILAR – por João Machado

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Desculpe vir maçá-lo mais uma vez. Já não lhe escrevia há algum tempo. Desta vez até tenho boas notícias para si. Imagine que consegui fazer a cadeira que andava a preparar na companhia da minha colega Maria da Luz. Foi óptimo. Imagine que tive um catorze! Foi a nota mais alta do dia. A Maria da Luz ficou tão contente que me levou para casa dela e fez-me um almoço óptimo. Fiquei um bocado atrapalhado porque tinha dito à minha mãe que ia almoçar a casa, mas não consegui resistir a tanto entusiasmo da minha colega. Fiquei lá toda a tarde. Telefonei quatro vezes à minha mãe. É verdade que só atendeu duas das minhas chamadas. Devia estar a dormir quando fiz as outras duas. Gostou muito que eu tivesse telefonado. Disse-lhe que tinha ficado na faculdade para tentar falar com o professor, e agradecer-lhe a boa nota. A Heloísa achou muito bem, e pediu-me que o cumprimentasse da parte dela. Garanti-lhe que o faria. Enfim!

Contudo, meu amigo, nem tudo são rosas na minha vida. Infelizmente, não! E deixe-me dizer-lhe que me sinto merecedor de melhor sorte. Faço tudo para agradar à minha mãe, não me caso, não trabalho, não acabo o curso (aqui, deixe-me dizer-lhe que talvez consiga fazer as duas cadeiras que me faltam nossa próximos dois anos. Com a ajuda da Maria da Luz, claro!). Tudo para estar perto da minha mãe. Sei que os vizinhos murmuram, e que na faculdade me apontam a dedo. Chamam-me calão, e outras coisas piores, grandes injustiças. Não compreendem que faço tudo para manter feliz a minha mãe, que não passa sem mim!

Pois hoje, voltava eu a casa, vindo de estar com a Maria da Luz, sentindo-me contente, sem preocupações, quando tive um encontro inesperado. Virava já a esquina para subir a rua de Santo Ambrósio, quando oiço atrás de mim a voz da Maria Antónia. Caiu-me logo a alma aos pés:

– Olhem o malandreco! Não liga nada aqui à Toninha! Tem medo que a mamã descubra que ele anda a gastar o dinheirinho nas meninas!

Virei-me, abespinhado, encarei-a, e respondi com a voz mais solene que consegui:

– Senhora D. Maria Antónia, porte-se como deve ser! Eu sou uma pessoa séria. E trato a minha mãe com todo o respeito. Exijo-lhe que faça o mesmo. Ela não é para aqui chamada.

– Olhem para o janota! Armado em fino! Querem ver que já não liga a quem lhe coçou o pêlo? – A Maria Antónia entesava-se toda para mim, a falar alto, mesmo ali à esquina da rua onde moramos (ela agora está sempre em casa da D. Henriqueta). Eu já olhava em volta a ver se alguém reparava em nós. Felizmente, parecia que ninguém nos prestava atenção. Resolvi amaciar a conversa.

– Maria Antónia, por favor! Gosto muito de si. Mas bem vê que tenho de fingir que não a conheço. A minha mãe se vem a saber de alguma coisa, pode ter um ataque. Ela não suporta a ideia de que eu me relacione com mulheres. Tem medo que algum dia deixe de viver com ela.

– Pois, pois, é muito bonito tudo o que diz. O que não é bonito é fingir que não conhece cá a pequena, que tão bem tratou dele. – Ao dizer isto punha um ar de desdém.

– É só por causa da minha mãe. Imagine que nem namorada posso ter!

– Você sabe muito. Mas uns encontros às escondidas já podem ser, não é?

– Faço tudo para não magoar a minha mãe. Ela não sabe nada da minha vida. Procuro não fazer nada que a incomode.

– Mas não a incomoda que fale comigo, pois não? E a propósito, porque nunca mais voltou à D. Generosa? Ela viu-o no café, há tempos, e perguntou logo porque tem andado fugido. Se arranjou alguma companhia lá pelas faculdades… A sua mãe no café conta que agora tudo lhe está a correr bem. Que ainda vai conseguir ser doutor.

– Estou esperançado, é verdade. Mas preciso muito que me ajudem…

– Sei de uma ajuda que deve precisar. Porque não vai ter comigo, esta noite, a casa da D. Henriqueta?

– Que diz? – Senti-me aterrado. Chegámos entretanto à porta do nosso prédio.

– Não se faça de parvo. A D. Henriqueta adormece sempre às 10 horas em ponto, e dorme e ressona toda a noite, até de manhã. Às 10.30 bata à nossa porta ao de leve. Vai ficar só encostada. Não falhe, se não amanhã, no café, faço queixa à sua mãe. Digo-lhe que se meteu comigo…

– Por favor, Maria Antónia, aqui no prédio, não. Se a D. Henriqueta descobre o que faz, despede-a logo.

– Ora, ora. Não se arme em santinho. Então não sabe que ela é irmã da D. Generosa? Claro que não quero que ela saiba que o vou “atender” lá em casa. Masela nãovai dar por nada.

Tínhamos chegado ao meu andar. A Maria Antónia ferrou-me um beijo na cara, e arrancou escada acima. Eu estava sem respiração. Tirei a chave do bolso e abri a porta da minha casa com todo o cuidado. A minha mãe estava na cozinha. Disse-lhe olá do corredor e fui logo para o meu quarto, e a seguir, à casa de banho, para deixar passar o tempo suficiente para me acalmar. Quando entrei na cozinha, a minha mãe olhou para mim, desconfiada, e perguntou:

– Estás bem? Demoraste. Deste os meus cumprimentos ao professor?

– Claro. Ele retribuiu. Diz que gostava de te conhecer.

– Eu também. Um dia tens de me levar lá à faculdade.

– Com certeza.

Jantámos. Às 9 em ponto ela dormia profundamente em frente à televisão. Vim escrever-lhe. São 10 horas. O que hei de fazer? Nunca pensei ter tanto medo antes de um encontro com uma mulher.

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