EDITORIAL – Países ricos e países pobres

logo editorialPortugal é um país sem grandes recursos naturais, nomeadamente sem recursos energéticos tais como o petróleo (embora seja rico em energia eólica). A falta de recursos  naturais tem sido uma explicação recorrente para a pobreza. Apesar dessa escassez, o nosso país tem muito mais recursos naturais do que a Suíça. Porque é então a Suíça um país com índices económicos muito superiores?

Na verdade, a riqueza dos países não está directamente relacionada com os recursos naturais, dependendo dos recursos humanos. Os índices de cultura,esses sim, relacionam-se com a riqueza. Henrique Meirelles, presidente do Banco Central do Brasil entre 2003 a 2010 nos dois governos de Lula da Silva, explicou como é que um país rico em recursos pode ter uma maioria de cidadãos pobres. A sua fórmula, que faria o PIB crescer em dois pontos – não se baseia no desenvolvimento da infra-estrutura nem no aumento das importações e investimentos. Trata-se de melhorar o “nível educacional” do país. Num artigo publicado há dias no Folha de São Paulo, “Ensinando a ser rico”, Meirelles argumenta com um estudo recente do Banco Mundial que acompanhou 50 países ao longo de 40 anos, estudo que demonstra a relação directa entre nível educacional, a produtividade e o nível de rendimento.

A frequência escolar é massiça e, no entanto, isso por si só não pode fazer do Brasil um país rico. O que criará riqueza e aumento da rendimento será o crescimento de nível geral da aprendizagem, medido por padrões internacionais.Este é há muitos anos o grande desafio das autoridades do país, onde 60% da população com mais de 50 anos é considerada analfabeta funcional.

Meirelles, não pede uma “renovação” do ensino no país e chega a propor uma “mudança revolucionária” na prática. Para ele, para que os brasileiros adquiram um nível de conhecimento escolar que lhes permita aumentar a sua riqueza, o ensino actual, que já se sabe que não funciona, deve mudar. O ensino deve “abandonar as práticas excessivamente teóricas. O modo de ensino teórico, repetitivo e baseado na memória deve ser completamente substituído por um ensino interactivo, em consonância com os hábitos dos jovens de hoje. Um ensino que faça uso de técnicas que favoreçam o entendimento da matemática, das ciências e da linguagem.” O Brasil deve transformar a velha maneira de ensinar. Hoje é mais fácil alfabetizar uma criança com um computador do que com o quadro-negro clássico e frio. Ou ensinar matemática usando a Internet. Contudo, isso supõe um grande esforço do governo, que deve investir massivamente em equipamentos modernos como computadores, laboratórios e bibliotecas virtuais e na preparação urgente do exército de um milhão e meio de professores, mal pagos e, eles próprios, pouco escolarizados. E em algo fundamental de que o Brasil carece gravemente: o tempo de permanência dos alunos do ensino fundamental na escola. A percentagem alcança o máximo de 65% nas regiões mais desenvolvidas e em outras não chega a 50%, ao passo que a média mundial é de 88%.. A essência do seu artigo é que para que o país se converta num país de ricos, a revolução educativa significa que o “grande salto da produtividade do Brasil, capaz de gerar riqueza e reduzir a desigualdade atual passa não só pelos investimentos em infraestrutura e pelas reformas políticas, mas principalmente pelo aumento da eficácia do processo educativo”.

Portugal está numa situação diferente, mas muito do que Meirelles preconiza para o seu país, se aplicaria aqui. Sobretudo o ensino superior precisava de uma reforma radical – Em larga percentagem, destina-se a produzir licenciados, mestres, doutores, sem que isso constitua qualquer vantagem para o país. É o que se chama “trabalhar para a estatísticas”.

 

 

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