MULTIPLICADOR PELA ÓTICA DA DESPESA, por BILL MITCHELL

Temaseconomia1

Selecção de Júlio Marques Mota. Tradução e revisão de Flávio Nunes e Júlio Marques Mota.

Multiplicador pela Ótica da Despesa[1]

 

Por Bill Mitchell

Publicado a 28 de dezembro de 2009

Parte I

Parece haver muita confusão acerca dos conceitos básicos dos multiplicadores, facto que levou este blog a abordar algumas dessas confusões. Todavia, sublinhe-se, não é uma revisão de literatura suficientemente abrangente e expressivamente técnica.

Teoria do multiplicador

Os alunos, têm inicialmente, o primeiro contato com esta temática assente num modelo muito simples, que na qual se encontra ausente o sector governo ou, o sector externo. Trata-se de uma configuração simples que leva de imediato a desconsiderar a relação fundamental entre o setor governamental  e não-governamental que na verdade impulsiona a dinâmica do sistema monetário, o que está pedagogicamente errado, pois aqui é fundamental a diferença entre o sector privado e público.

Desta forma e por causa desta simplificação, julgo que, é uma tarefa bastante árdua explicar o multiplicador pela ótica da despesa pública (G), ou seja, pela aplicação de impostos (T) e importações (M) introduzidos desde o princípio.

O importante será então, perceber, desde o início,  que elementos dinamizadores da procura agregada geram o aumento de rendimento (Y) (através do pagamento de bens e serviços necessários à produção). Não entraremos aqui em controvérsias se estes bens e serviços produtivos são justamente remunerados ou se o valor do excedente é apropriado pelos detentores dos meios de produção, etc. É uma discussão, no caso em questão, não relevante, embora tenha algum relevo dado que é pertinente para o entendimento da contabilidade e da dinâmica da economia.

Nesse sentido, o que é gasto irá portanto gerar produção, o mesmo é dizer, irá gerar rendimentos, estes, que estão disponíveis para serem gastos. Teremos pois, mais despesa, mais Y, mais T e maior procura de bens importados. Não obstante, considere-se as importações como uma categoria separada (mesmo que estas reflitam o consumo (C), investimento e decisões de G) pois estas são despesas que não têm nenhum impacto sobre a produção nacional, como o têm as despesas em bens nacionais. Posto isto, são assim consideradas “fugas de rendimento” ao sistema, dado que esta despesa (em importações)  é efectuada na compra de bens externos, portanto, dinheiro gasto  fora do  sistema de produção nacional, ou seja, sai do circuito interno, dinheiro que saí, que  “foge” para o estrangeiro.

A título de um simples exemplo numérico, ora, se por cada unidade monetária (u.m.), em euros, dólares, libras, etc., de bens produzidos há então uma unidade monetária de rendimentos distribuídos aos seus produtores  como rendimentos, ou seja  aos seus produtores, empresários e trabalhadores, então,  por hipótese considere-se um valor de 100 u.m como rendimentos distribuídos. Se  na economia se gastasse  20 u.m. em bens importados, restariam apenas 80 u.m. “dentro” do sistema nacional para gastar em períodos subsequentes, excluindo as considerações sobre impostos.

No entanto, existem dois outros tipos de “fugas de rendimento”, que são de origem interna: a poupança (S) e os T. Vejamos a tributação (T). Aquando do recebimento do seu rendimento (rendimento bruto ou ilíquido), as famílias vêm-no ser reduzido  pela tributação governamental (T). Após esta redução, os agentes ficam com o restante (rendimento líquido ou disponível) para fazerem dele o que bem entenderem. É esse rendimento disponível iremos chamar (Yd).

De forma a permanecermos com uma exposição simples, imaginemos que um imposto proporcional de 0,20 por u.m. é aplicado, bom, se se gerarem 100 u.m. em rendimento, então, 20 u.m serão para impostos e os agentes económicos ficaram com um Yd de 80 u.m, ou seja, o rendimento disponível, após tributação de impostos, para gastarem em bens e serviços. Então a T é uma “fuga de rendimento” ao sistema nacional da mesma forma que o são as M.

Considere-se agora a S. Os agentes económicos decidem em que iram gastar uma parte do seu Yd. A quantidade de cada u.m. que gastarem à margem, isto é, por cada unidade monetária adicional disponível para gastar, é a propensão marginal a consumir (c). Se esta é de 0,80 u.m., significa que se gastam 0,8 por cada unidade de Yd adicional.

Assim, no quadro da hipótese de uma produção de 100 u.m., e face ao exposto, 20 u.m. irá para T e o Yd será de 80 u.m.  sendo que o consumo (C) virá igual à multiplicação de 0,8 (c) por 80 u.m. (o Yd de que dispõem os consumidores), que dará 64 u.m. Já o valor residual, não gasto, será afeto às poupanças, constituindo estas uma outra “fuga de rendimento” ao sistema, dado que, por ser dinheiro recebido e não gasto, não entra no sistema de contabilidade nacional enquanto  despesas (nas contas nacionais).

Face ao apresentado, é fácil constatar  que para cada 100 u.m. de bens e serviços produzidos, o rendimento correspondente divide-se em: 64 u.m. para o C sendo o restante direccionado para as já mencionadas “fugas de rendimento”, que se repartem em 16 u.m. para  a S e 20 u.m. para os T.

Note-se, no entanto, para que o rendimento permaneça nos 100 u.m. no próximo período, às 36 u.m. (S+T) têm que se fazer, aquilo que os economistas chamam de “injeções”, o que no presente  modelo é composto pela soma dos investimentos (I), dos G e das exportações (X) que aparecem assim a comprar o que as famílias não compraram. Dito de outra forma, por cada unidade monetária (u.m.) de bens e serviços, uma vez que está vendida, foi gasta, foi comprada, em parte pelos consumidores finais em bens de consumo, pelos empresários em bens de investimentos e pelo estrangeiro em bens por nós exportados ou pelas despesas do Estado. As “injecções” são encaradas como algo vindo de “fora” do processo de criação de produção e Y, as chamadas variáveis exógenas ou variáveis autónoma da despesa.

Deve-se sublinhar que o investimento depende das expectativas de receitas futuras e dos custos dos empréstimos. Já  G são claramente um reflexo das escolhas políticas governamentais. Quanto às X, estas são determinadas pelos rendimentos do exterior, das taxas de câmbio reais, etc.

Para que o PIB seja estável e equilibrado, as “injecções” têm de ser iguais às “fugas de rendimento”, ou seja, as compras feitas como exógenas tem que ser igual ao que os outros não gastaram (para o mesmo efeito, isto pode ser convertido em termos de crescimento). No plano interno e em termos de princípios de contabilidade nacional, isto significa que o défice (excedente) do sector público = ao excedente (défice) do sector não-governamental. Este pode ainda ser decomposto em setor externo e privado dessas relações, ou seja, as posições dos dois conjuntos, privado e público, são simétricas.

Imagine-se um certo nível de rendimento a ser produzido (o seu valor é aqui indiferente). Considere-se que o banco central não prevê nenhum risco de inflação, logo, simplificando, as taxas de juros são estáveis como o são, aqui por hipótese, as taxas de câmbio.

Posto isto, surge  aqui uma questão pertinente: o que aconteceria se o governo aumentasse a despesa no valor de, digamos, 100 u.m.? Este é o terreno do “multiplicador”, se um aumento na procura agregada gera um aumento de Y, então a questão a saber é de quanto é o aumento gerado.

O multiplicador, pela ótica da despesa, é definido como uma mudança no rendimento real que resulta da variação de uma unidade na procura agregada autónoma ou exógena (por unidade de variação em G, I ou X). Poderíamos complicar o modelo se quiséssemos introduzir uma outra componente autónoma, como por exemplo, o consumo autónomo, mas o princípio não é alterado.

(continua)

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[1] Tradução  e Revisão de Flávio Nunes e Júlio Mota

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