A IDEIA – A PALAVRA REENCONTRADA DO MESTRE GEÓMETRA — O URGENTE IMAGINÁRIO – por António de Macedo

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Falei há pouco nos segredos maçónicos que se disseminam misteriosamente na obra  de LF.
A esse propósito, e neste breve e incompletíssimo apanhado do muito que dessa obra  se poderia decifrar e ficou por dizer, limitar-me-ei, nesta recta final, a referir alguns dos  painéis de azulejos a que já tive ocasião de aludir, que LF concebeu e realizou para a  Estação do Rossio — os Mitos e Figuras Lendárias de Lisboa, compostos quase no final  da sua vida terrena.
Olhai-os sossegadamente em passeio atento, de cada um ao seguinte, e dizei-me  depois se vos não tocam, inspirativamente, os deliberados traços e proporções
geométricas, de inequívoca Hierogeometria, reveladora de uma Ciência Sagrada cuja  busca do occultus lapis o Mestre Geómetra LF prosseguiu incansavelmente até ao seu   último respiro.

Imagem5Desde logo salta-nos à vista no painel de “S. Vicente em Lisboa” a enorme cruz em X, ou “aspa”, também chamada cruz de Santo André, simbólica do IV grau do R.E.R., o deMestre Escocês de Santo André (M.E.S.A.), alusivo à divina presença da Shekhinah no Templo de Salomão — motivo que se repete no painel dos “Jerónimos”, no canto superior direito; o traçado simbólico nas costas do peixe no painel de “Santo António”, traçado  iniciático que evoca a sabedoria Numerológica do santo, inspirada no mistério da Civitas  Solis enunciado por Isaías40; as duas colunas salomónicas ladeando as ruínas do  Convento do Carmo, no painel do “Santo Condestável”; a filactera que se desenrola ao  vento sobre a fachada da igreja da Madre de Deus, no painel de “Santa Auta”, onde se  vêem as sibilinas letras R.E.R. que existiam nos balaústres dos ângulos da igreja e que  desapareceram por ocasião de um tremor de terra nos anos ’70 do século XX; a  simbologia solar, geométrica e cosmográfica do painel de “Camões”; a “Lisboa Imaginada  de Francisco de Holanda”, cujas numéricas volumetrias parecem inspirar-se na antevisão do Futuro Templo de Ezequiel41; os misteriosos traçados de “D. Sebastião o Encoberto”, de  “Vieira e o V Império”, de “Pessoa e o Caminho da Serpente”, de “O Almada  neopitagórico”… Uma senda que ascende os nove degraus iniciáticos em busca da pedra  angular, ou pedra de fecho, com que o artista anseia por encerrar o seu alquímico opus  magnum sem nunca o dar por concluído. Como disse atrás: um eterno começo, um eterno  início — que LF, o grande Mestre Geómetra, tal como Vieira ou Fernando Pessoa, não  indissociavam do indecifrável enigma de Portugal.
Remato com esta advertência com que LF já nos alertava com assinalável visão  profética num texto escrito em 1986: Quem, como eu, tem lidado de perto com a juventude  portuguesa que estuda, sabe bem que o imaginário luso, parte insubstituível do imaginário  do Ocidente, desperta, logo que aflorado com alguma seriedade, um interesse profundo  que não é mera curiosidade passageira. Que os nossos políticos e governantes possam  compreender sem demora o que os portugueses mais argutos e sensíveis já intuíram: a  urgência do Imaginário. Antes que seja — possivelmente para todos, mas certamente para  eles — demasiado tarde.42

 

Na fotografia, da esq. para a direita:  Helder Macedo, Edmundo  Bettencourt e António Salvado

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NOTAS

38 António Telmo, A Aventura Maçónica: Viagens à Volta de um Tapete. Sintra: Zéfiro
Edições, 2011; pág. 11.
39 António Telmo (op. cit.); pág. 51.
40 Isaías 19, 18.
41 Ezequiel, caps. 40 a 48.
42 Lima de Freitas, Porto do Graal. Lisboa: Ésquilo Edições e Multimédia, 2006; pág. 316.

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