Falei há pouco nos segredos maçónicos que se disseminam misteriosamente na obra de LF.
A esse propósito, e neste breve e incompletíssimo apanhado do muito que dessa obra se poderia decifrar e ficou por dizer, limitar-me-ei, nesta recta final, a referir alguns dos painéis de azulejos a que já tive ocasião de aludir, que LF concebeu e realizou para a Estação do Rossio — os Mitos e Figuras Lendárias de Lisboa, compostos quase no final da sua vida terrena.
Olhai-os sossegadamente em passeio atento, de cada um ao seguinte, e dizei-me depois se vos não tocam, inspirativamente, os deliberados traços e proporções
geométricas, de inequívoca Hierogeometria, reveladora de uma Ciência Sagrada cuja busca do occultus lapis o Mestre Geómetra LF prosseguiu incansavelmente até ao seu último respiro.
Desde logo salta-nos à vista no painel de “S. Vicente em Lisboa” a enorme cruz em X, ou “aspa”, também chamada cruz de Santo André, simbólica do IV grau do R.E.R., o deMestre Escocês de Santo André (M.E.S.A.), alusivo à divina presença da Shekhinah no Templo de Salomão — motivo que se repete no painel dos “Jerónimos”, no canto superior direito; o traçado simbólico nas costas do peixe no painel de “Santo António”, traçado iniciático que evoca a sabedoria Numerológica do santo, inspirada no mistério da Civitas Solis enunciado por Isaías40; as duas colunas salomónicas ladeando as ruínas do Convento do Carmo, no painel do “Santo Condestável”; a filactera que se desenrola ao vento sobre a fachada da igreja da Madre de Deus, no painel de “Santa Auta”, onde se vêem as sibilinas letras R.E.R. que existiam nos balaústres dos ângulos da igreja e que desapareceram por ocasião de um tremor de terra nos anos ’70 do século XX; a simbologia solar, geométrica e cosmográfica do painel de “Camões”; a “Lisboa Imaginada de Francisco de Holanda”, cujas numéricas volumetrias parecem inspirar-se na antevisão do Futuro Templo de Ezequiel41; os misteriosos traçados de “D. Sebastião o Encoberto”, de “Vieira e o V Império”, de “Pessoa e o Caminho da Serpente”, de “O Almada neopitagórico”… Uma senda que ascende os nove degraus iniciáticos em busca da pedra angular, ou pedra de fecho, com que o artista anseia por encerrar o seu alquímico opus magnum sem nunca o dar por concluído. Como disse atrás: um eterno começo, um eterno início — que LF, o grande Mestre Geómetra, tal como Vieira ou Fernando Pessoa, não indissociavam do indecifrável enigma de Portugal.
Remato com esta advertência com que LF já nos alertava com assinalável visão profética num texto escrito em 1986: Quem, como eu, tem lidado de perto com a juventude portuguesa que estuda, sabe bem que o imaginário luso, parte insubstituível do imaginário do Ocidente, desperta, logo que aflorado com alguma seriedade, um interesse profundo que não é mera curiosidade passageira. Que os nossos políticos e governantes possam compreender sem demora o que os portugueses mais argutos e sensíveis já intuíram: a urgência do Imaginário. Antes que seja — possivelmente para todos, mas certamente para eles — demasiado tarde.42

