VAMOS BEBER UM CAFÉ? – 17 –  por José Brandão

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DO BOTEQUIM AO CAFÉ (PEQUENA HISTÓRIA DOS GRANDES CAFÉS DE LISBOA – cont.)

café - XXVII

E se para Bulhão Pato o Marrare “era o centro da mocidade e dos homens feitos, em 1848,” e “tornara-se o ponto de reunião de todos os elegantes e homens superiores de Lisboa”, para Luis Augusto Palmeirim o caso era visto assim: “Sem a consagração do Marrare do Polimento, não havia talentos nesta terra, nem artistas que prestassem, nem governos sólidos, nem mulheres bonitas, nem touradas excepcionais…”

Enfim! “Lisboa era o Chiado; o Chiado era o Marrare; e o Marrare ditava a lei. Ser frequentador do Marrare era a suprema elegância para os elegantes; frequentar o Marrare era como para os romanos ir a Atenas; imprimia carácter.” – Júlio Castilho – “O Marrare era um dos sustentáculos do país, como o Parlamento, como o Poder moderador; ninguém então imaginaria viver sem aquele botequim célebre”.

A verdade é que as casas do sonolento italiano António Marrare faziam por dar jus ao melhor que delas se dizia. Enquanto noutros locais o café sabia a fel de vaca, favas, tremoços ou a casca de piorno, nos cafés do Marrare só se vendia do puro Moka, servido em bandejas de prata, com cafeteira, leiteira, açucareiros e colheres, tudo de prata; em vez dos toscos tabuleiros de pau com chávenas de pé de pedra e açucareiros de vidro azul, vulgarmente utilizados pela concorrência.

No Marrare do Polimento fazia-se história em todas as suas alíneas. Teve luz do gás muito antes do Rossio ou do S. Carlos. Foi o primeiro a ter um espaço para no Verão as senhoras tornarem o seu geladito de neve conforme era conhecido o sorvete. Foi também o primeiro onde uma mulher conseguiu transpor a porta de um café lisboeta e juntar-se aos homens a jogar bilhar. É certo que a extravagante Miss Júlia Wilson teve de vestir-se à homem, com sobrecasaca, pantalonas a cavaleira, bengala e chapéu à patuleia, mas entrou no machíssimo Marrare do Polimento e talvez vestisse de acordo com os seus gostos mais íntimos.

Mas não seria propriamente pela ousadia atrevida inglesa das calças que o Café Marrare do Polimento chegaria aos píncaros a que chegou. Se de tudo o que era mais significativo na vida da época passou pelas mesas deste café, nada o fez com tanto enlevo como a política e todo o emaranhado de teias que a acompanham. O Marrare do Chiado nunca deixou de ser abrigo de reuniões políticas, e algumas bem vincadas na nossa História maior. Foi lá que em 1 de Agosto de 1833 e para festejar a implantação do regime constitucional o banqueiro espanhol Mendizabal ofereceu um sumptuoso banquete a que assistiram os duques de Palmela e da Terceira, o almirante Parker, Agostinho José Freire, o conde de Ficalho e muitas outras figuras do constitucionalismo português. Foi também lá que se preparou e celebrou a Regeneração que baldearia de cima a baixo todo o País. Era lá que Passos Manuel propagandeava os ideais da Maçonaria; que José Estevão e Oliveira Marreca conspiravam contra os Cabrais; que Garrett, Herculano e Castilho formavam uma autêntica academia das letras. Latino Coelho, Andrade Corvo, Silva Túlio, Mendes Leal, Casal Ribeiro…

1 Comment

  1. Olá, gostaria de saber se tens mais informações que possas compartilhar sobre a Miss Julia Wilson. Desde já agradeço sua colaboração.

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