POESIA AO AMANHECER – 492 – por Manuel Simões

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                                   CEES NOOTEBOOM

                                              ( 1933 )

 

            PODIA TER SIDO ASSIM

            Podia ter sido assim:

            uma coisa imunda uma coisa suja para a manhã,

 

            a rosa pintada

            quer entrar na obra-prima.

 

            O pequeno quer para o caminho

            algo mais pequeno ainda,

            o grande faz as compras

            em coisas gigantescas.

 

            É difícil uma pessoa defender-se.

            Vê a borboleta, já maior que uma mão,

 

            vê como as flores remexem a terra,

            a minhoca parece uma serpente.

 

            Eis o peso

            que rebenta com a casca.

 

            Ter existido em tudo isto

            com o tempo a fazer de cabeleira,

            qual deus de um universo efémero,

 

            isto, caro amigo, é a vida.

            E ela foi o que é.

 

            (de “Poesia em Lisboa/2000”)

Poeta, jornalista e escritor holandês. A sua estreia como poeta verificou-se em 1956 com “De doden zoeken een huuis” (Os mortos buscam uma casa). Dos seus livros de poesia destacam-se: “Het gezicht van het oog” (O rosto do olho”, 1989), “Zo kon het zijn” (Podia ter sido assim, 1998). Traduzido para português na antologia “Um mundo claro, um dia escuro. Oito poetas holandeses” (1988).

 

 

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