OLGA SAVARY
( 1933 )
GUME
O que conquisto em tempo
é tua distração, meu alimento:
o passado gosto das coisas gastas.
Nem sei se entendes quando falo
pois sempre o que ouviste foi silêncio
que acentuava tua algaravia.
Daí dizer dos dedos perderem tempo,
a boca perdendo a vida sem tua seiva,
amor rendido, flagrado nas entranhas.
Amar perdidamente é ter só uma saída:
oferecer-se ao gume das coisas
cada vez mais perdida.
(de “Poesia em Lisboa/2000”)
Poetisa, ensaísta, tradutora e jornalista brasileira. Membro da Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da ABI. Foi a primeira mulher presidente do Sindicato de Escritores do Estado de Rio de Janeiro, em 1997-1998. Da sua obra poética destacamos: “Espelho provisório” (1970), “Magma” (1982), “Morte de Moema” (1996). A sua poesia foi reunida no vol. “Repertório Selvagem” (1998).

