VAMOS BEBER UM CAFÉ? –19 –  por José Brandão

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DO BOTEQUIM AO CAFÉ (PEQUENA HISTÓRIA DOS GRANDES CAFÉS DE LISBOA – cont.)

O MARTINHO

O Martinho

 

Junto ao Rossio, o Café Martinho fundado em 1845 por Martinho Bartolomeu Rodrigues é um dos cafés de Lisboa que não deixa infundada a afirmação do conde da outra Banda. Apenas com dois anos, este café lisboeta foi palco de uma monumental cena de pancadaria quando grande número de homens armados afectos ao cabralismo invadiu os seus salões para dar caça alguns combatentes do famoso Batalhão Académico, que se defenderam valorosamente, mas à custa das taças, copos, bandejas, mesas, cadeiras e dos pesados bancos de mogno que voaram que nem uma pena em direcção às cabeças dos cabralistas.

Ao longo de mais de um século o Martinho foi o local preferido de quase todos os nossos escritores ficando famoso como o Martinho Literário. Nas palavras de Júlio Dantas “ali se fizeram e desfizeram ministérios; ali se combinaram pronunciamentos e sedições; durante alguns decénios, o velho café foi o coração político da cidade. De vez em quando rebentava um motim; as pedradas estilhaçavam-lhe os vidros, as balas crivavam-lhe as paredes, voava em pedaços a pedra das mesas, a força pública tornava-o de assalto; mas, no dia seguinte, como se nada tivesse sucedido, o Martinho abria, os frequentadores voltavam, vinha Rafael Bordalo com o seu monóculo faiscante, Marcelino com o seu chapéu á D’Artagnan, Fialho com as suas gravatas de cores, e à porta, como garantia de paz, assomava o nariz do criado Valentim, nariz célebre, que mais do que uma tabuleta, foi uma instituição.”

Foi do Café Martinho que em 1890 saiu o primeiro grito que culminou nas grandes manifestações populares contra o afrontoso ultimato inglês. Foi também neste Martinho que de pé em cima de uma das suas mesas Almada Negreiros gritou o seu célebre Manifesto anti Dantas, entusiasticamente aplaudido pelos seus companheiros do Orpheu.

E já agora, se me é permitida a recordação, foi também das janelas da varanda deste Café Martinho que nos agitados Primeiros de Maio dos anos 60 assisti humildemente às movimentações da Policia de Choque e da PIDE, dado que era para lá que voava quando as coisas começavam a ficar menos amenas na via pública. Até 1968 foi assim. Hoje, o Banco que substitui o famoso Martinho Literário do Largo D. João da Câmara, certamente não me deixaria às tantas da noite refugiar dentro das suas instalações!…

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