CONTOS & CRÓNICAS – A reencarnação de Luís de Camões (ou o desacerto de uma parelha) – III – por Manuela Degerine

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Tradução do texto de Somerset Maugham, “The Narrow Corner”, ed. The Vanguard Library, Londres, 1955, pp. 141-143.

“ Pensei que aqui houvesse tempo para dar, gastar e estragar”, disse o médico.

“Não chega para o que eu quero. Passei os últimos quatro anos a traduzir “Os Lusíadas” em versos métricos. Sabe, Camões… Gostava de lhe ler um ou dois cantos. Não há na ilha quem tenha discernimento crítico. Christessen é dinamarquês por isso não me fio no ouvido dele.”

“Não foi traduzido antes?”

“Foi. Por Burton, entre outros. Pobre Burton: não era poeta. A versão dele é execrável. As grandes obras universais devem ser traduzidas por cada geração. O meu objetivo é não só exprimir o sentido mas igualmente o ritmo e música e qualidades líricas do original.”

“Lembrou-se de Camões porquê?”

“É o último grande épico. No fim de contas o livro sobre o “Vedanta” só há de atrair um público especializado e raro. Senti-me na obrigação de deixar à minha filha uma obra mais popular. Não tenho qualquer fortuna. Esta propriedade pertence ao velho Swan. A minha tradução será o dote dela. Deixo-lhe cada cêntimo que venha a ganhar. Mas há mais; o dinheiro não é o mais importante. Quero que se orgulhe do pai e não creio que doravante o meu nome fique obscuro: a minha fama também é um dote.”

O doutor Saunders não replicou. Parecia-lhe prodigioso que aquele homem esperasse ganhar fama e proveito traduzindo um poema português que menos de cem pessoas quereriam ler.

“É estranho como as coisas acontecem,” prosseguiu Frith fitando-o com um rosto gordo e sério. Custa-me a acreditar que assumi a tarefa por mero acaso. Sabe decerto que Camões, não só poeta mas também soldado, esteve nesta ilha; e muita vez viu o mar deste forte de onde também o tenho visto. Por razão eu havia de cá chegar? Era professor. Quando saí de Cambridge agarrei a oportunidade de partir para o oriente. Desde criança representava para mim um sonho. Mas não suportei as obrigações do trabalho docente; tinha dificuldade em lidar com pessoas e a tal era obrigado. Encontrava-me nos Estados Malaios e pensei experimentar em Bornéu. Não foi melhor. Também não dei conta do recado. Demiti-me. Durante algum tempo estive num escritório em Calcutá. Depois abri uma livraria em Singapura. Mas não paguei. Tomei conta de um hotel em Bali, mas sem estar preparado e não pude aguentá-lo. Finalmente vim aqui parar. É estranho que a minha mulher se chamasse Catarina por ser o nome da mulher que Camões amou; foi para quem ele escreveu a obra-prima. Se há algo de que não duvido é a doutrina da transmigração que os hinduístas designam por “samsara”. Por vezes interrogo-me se a centelha que constituiu o espírito de Camões não é a mesma que constitui o meu. Por isso tanta vez, quando estou a ler “Os Lusíadas”, encontro versos dos quais me recordo tão precisamente que não é possível tê-los lido há pouco pela primeira vez. Pedro de Alcáçova disse que “Os Lusíadas” só têm um defeito: não são tão curtos que de cor os possamos aprender nem tão compridos que nunca se acabem.”

Esboçou um sorriso embaraçado como homem a quem fizessem um elogio extravagante.

(Continua)

 

 

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