FRATERNIZAR – Os bispos – por Mário de Oliveira

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Os bispos, sobretudo, os bispos católicos romanos, são, tal como os párocos, seus subalternos e funcionários eclesiásticos, uma espécie em vias de extinção. Não que haja uma crise de vocações para bispo. Não há. Pelo contrário. Pelo andar da carruagem eclesiástica, em breve, haverá tantos bispos quantos párocos. Porque para párocos, sim, há mais que manifesta crise de vocações. Decididamente, os jovens deste início de terceiro milénio já não vão – e que bem eles fazem! – nesse tipo de coisas, de profissão. Têm dignidade bastante e preferem o desemprego e a emigração, a serem párocos de 4, 5, 6 ou mais paróquias, para cúmulo, condenados ao celibato obrigatório, coisa mais absurda e inumana, mas, pelos vistos, muito cristã católica romana e muito paulina. O ódio ao corpo e ao sexo, bem como aos afectos partilhados, é uma das principais virtudes do cristianismo católico romano. Escrevo-o assim, sem aspas, virtudes, e sem que a voz me trema. Porque leis como a do celibato obrigatório – outro, muito outro, é o celibato opcional, sempre com afectos partilhados na gratuidade, segundo a consciência de cada mulher, de cada homem, sobretudo, quando há grandes Causas que exigem dedicação a tempo integral, ou grandes Causas de alto risco em prol da humanidade – não são para acatar e respeitar. São para desrespeitar e repudiar em absoluto. Não o fazer, já é pecado, porque será consentir que a lei do celibato se sobreponha ao ser humano que a acata e cumpre, apesar da sua natureza e da sua consciência lhe pedirem outra opção que não o celibato.

O perspicaz olhar de menina, de menino que todas, todos devemos ter no dia a dia, quando se fixa no ser-viver dos bispos católicos romanos, vê de imediato que, na generalidade, eles são o exemplo acabado de altos funcionários eclesiásticos, no mínimo, estéreis. O que fazem e o que dizem, não passa de decoração, de infantilidades, de ridicularias. Mas fossem eles apenas estéreis e, do mal, o menos. Mas não. São muito pior que estéreis. São um estorvo, uma espécie de abcesso na sociedade, que, onde está, causa embaraço e obriga a protocolos estúpidos. Têm aspecto humano, mas são paus-mandados da Cúria romana e do papa monarca absoluto. Vivem acima dos demais e é de cima que olham para os demais. Têm-se na conta de santos e de modelos de virtudes. Fazem-se rodear de comitivas de subalternos e exigem palácios e catedrais à altura das suas funções episcopais. Tudo neles é privilégio. Têm um território por conta e pensam nas populações que residem nas múltiplas paróquias, como outros tantos rebanhos deles. Quando se aproximam delas, é o poder episcopal que se aproxima. E as populações, habituadas,para seu mal, a respeitar/ temer o poder, desfazem-se em mesuras e aplausos, semeiam tapetes de flores para eles passarem, mostram-se alegres e ficam extaziadas perante as vestes exóticas e bordadas a ouro com que eles se apresentam vestidos, com destaque para o báculo, a mitra, o anel e a cruz peitoral.

O que os bispos fazem e dizem, não interessa a ninguém. Mas eles continuam a fazer e a dizer. São actividades mais do que dispensáveis, geralmente, dispendiosas, de todo inúteis, quando não prejudiciais. Têm o condão de arrastar as populações para coisas que não têm nada a ver com as suas vidas quotidianas, nem sequer ao nível do que se poderá chamar momentos de lazer e de recreação. É tudo demasiado sério, com aquela áurea de sagrado, a rondar o imbecil, como tudo o que é sagrado e ritual, faz-de-conta, por isso, não humano. Onde chegam, roubam a voz e a vez às populações. Até aos párocos, seus subalternos e funcionários eclesiásticos. Reduzem todas as pessoas, inclusive, as constituídas em poder local e autárquico, em seus vassalos. E lá estão elas a recebê-los, quando eles vão de visita oficial às paróquias. O próprio Crisma que lhes está reservado e a que eles presidem, como um teatro infantil, nos templos paroquais, é o que há de mais inútil e de mais mentira. Oficialmente, é um “sacramento” que confirma na fé quem o recebe. Na realidade, é o dia do abandono definitivo da fé eclesiástica e da paróquia. Se calha de um ou outro permanecer a frequentar a paróquia, depois de o receber, é apenas para umas quantas actividades que poderiam e deveriam ser realizadas fora dali, sem necessidade de quaisquer intermediários.

Os bispos católicos romanos são, então, uma espécie de seres que renunciaram de vez à sua condição de filhos de mulher, para serem, até morrer, filhos do poder. Tudo o que fazem e dizem é, no mínimo, estéril e inútil. A sociedade será bem mais autónoma e bem mais recíproca, quando dispensar de vez os bispos e respectivos párocos, funcionários eclesiásticos dos bispos, aos quais devem “obediência e reverência”, sob pena de perderem a função e, com ela, o emprego eclesiástico. Para o que uma mãe cria um filho! Tenham dó!

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