VAMOS BEBER UM CAFÉ? – 22 –  por José Brandão

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DO BOTEQUIM AO CAFÉ (PEQUENA HISTÓRIA DOS GRANDES CAFÉS DE LISBOA – cont.)

Pela mesma altura, Mário Domingues assinava no diário sindicalista A Batalha uma crónica com esta passagem: “Creio que todas as cidades possuem cafés, porque em todas elas há ociosos, políticos, jornalistas e estróinas. Não conheço os cafés das capitais estrangeiras; não sei quais são os seus defeitos, os seus caracteres distintos e as suas vantagens, mas conheço os de Lisboa, e não é pouco. Tenho corrido quase todos os cafés lisboetas. Conheço os da Mouraria, escuros e sujos, onde por vezes ao som dum piano desafinado, guisalhante, se passam tragédias sanguinolentas; conheço o Marcial e o Cinco de Outubro, onde a polícia faz farta colheita de elementos sociais e dissolventes; já andei pelos do Bairro Alto, os das prostitutas de faces salpicadas de manchas sifiliticas, disfarçadas no pó de arroz; fui assíduo frequentador dos Irmãos Unidos, aquele que ostenta guitarras para prazer nosso, ali às Portas de Santo Antão; (…) Combinei entrevistas para o Gelo, onde se junta rapaziada nova das belas e más artes; encherem-se-me os ouvidos de frases patrióticas na Brasileira do Rossio, vi por lá representar muita pantomina democrática e colhi grande número de boatos falsos que rne eram desmentidos no Chave d’Ouro, o café dos que têm ouro nas correntes e nos anéis. Tenho dito muita banalidade, com ar de quem fala de coisas importantes e profundas, na Brasileira do Chiado, a verdadeira casa dos jornalistas; e gastei já algumas horas no Martinho a observar os pobres de espírito e ricos de bons sapatos ingleses, admiráveis gabardinas e reluzentes monóculos de vidraça.

Tenho visto quase todos os cafés; os que já nomeei e os que não me ocorrem agora.”

“Conheço bem os cafés, e quem os estuda avalia por eles uma civilização inteira. “

A partir de 1920, a Brasileira tornou-se de tal forma frequentada que se dizia que no Porto e em Coimbra se trabalhava e estudava e em Lisboa se conversava e faziam revoluções. Os restos da Carbonária numa mesa, os integralistas noutra, os artistas, como Fernando Pessoa ou Almada Negreiros, à volta doutra.

Final - I

O Café A Brasileira do Rossio desapareceu em 1961, um ano depois de ter acontecido o mesmo ao Chave d’Ouro, o maior café da praça e onde, em 1958, na inauguração da sua espectacular campanha eleitoral o general Humberto Delgado, repondendo à pergunta sobre que destino daria ao dr. Oliveira Salazar caso ganhasse as eleições, proferiria a histórica frase:

“Obviamente, demito-o!”

Final - II

Não demorou muitos meses para o Café Chave d’Ouro ver-se de portas fechadas. A política de então preferia ter lá o Banco Nacional Ultramarino.

Final - III

Tempo ainda para falar de outro famoso café do Rossio. O Café Gelo que os surrealistas tanto apreciavam. A tertúlia de Mário Cesariny teve lá poiso certo. Pelo menos até a PIDE entender “aconselhar” a gerência do café a evitar certo tipo de clientes, como se verificou a partir das manifestações e confrontos do 1 de Maio de 1962. Já não existe…

Final - IV

Nem existe o Café Portugal, na mesma praça. Como não existe o Café Central, das Conferências do Casino, na Trindade, o Palladium, junto ao Elevador da Glória, o Café Lisboa, ao lado do Parque Mayer. E o Café Monte Carlo, pegado ao Café Monumental todo ele extinto, e perto da ex-Colombo, na Avenida da República. Uns são bancos, outros são centros comerciais, outros vendem hamburgers, outros já não são nada. Não existem mais na toponímia da cidade. Existem cada vez menos na memória dos lisboetas. Foram os grandes Cafés de Lisboa. São ainda alguns grandes cafés de Lisboa. Até quando?

Vão responder as Mac Donald”s, os bancos da Biscaia e Bilbau, os drugstores. Os Pic-Niques do velho Rossio, ou os VáVás das Novas Avenidas? Vão ser frias como as novas casas sem qualquer canto que se veja? Ou acabarão tão quentes como a velha leitaria A Camponesa, na Rua dos Sapateiros, com os cantos que saltam bem á vista quando se lá passa, ou ainda, como a Ferrari, a fogo?

O passado dos cafés de Lisboa foi glorioso e coberto da mais viva história contemporânea. Ainda vivem. Ainda resistem. Ontem foram história, hoje são passado, amanhã serão o que forem.

Em 1843 Almeida Garrett escrevia: “A sociedade já não é o que foi, não pode tornar a ser o que era; mas muito menos ainda pode ser o que é.”

Referia-se ao país em geral. Mas assenta bem com o que hoje verifica em relação ao passado, presente e futuro dos cafés de Lisboa.

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