Como grande parte dos verdadeiros leitores, conheço o escritor alentejano, natural de Vila de Frades, através dos seus
livros. Em Fialho de Almeida (F. de A.) admirei desde a minha juventude a escrita como arma de combate, que não deve servir apenas nas encruzilhadas da política, mas elevar-se sobre a agitação efémera das opções partidárias, de forma a defender a necessária existência de uma sociedade mais humana e fraterna. Admirei, pois, a sua escrita desassombrada, e fiquei completamente rendido à irreverência do escritor e do homem. E simpatizei com F. de A. desde então…
São diversos os graus de análise que o escritor quis descrever e indicar aos leitores. Existe implícita na sua obra o que poderemos chamar análise de patologia social. Mas não é simplificadora a sua escultura de personagens. Não escamoteia as contradições da alma humana, mesmo na descrição de canalhas há um toque de humanidade. Sem ter sido (que se saiba) um fervoroso cristão, embora talvez fosse crente, há em Fialho de Almeida mais cristianismo do que se pensa, basta ler os seus contos, por exemplo. O facto é que esta cobertura cristã das suas produções, foi para mim mais um motivo de estima e redobrada admiração. Não sei porquê nem como, mas senti durante anos e anos que havia algo de familiar entre mim e este homem, falecido (1911) muito antes de eu nascer.
A sua tragédia intelectual foi nunca ter sido apreciado em vida como um verdadeiro criador, apesar de ter enriquecido a língua, povoando o dicionário de português com bastantes palavras. A generalizada indiferença do mundo político e intelectual do seu tempo, deixou-lhe uma ferida que, até à morte, nunca sarou. O seu drama terminou com os estreitos “jacobinos” do partido republicano, que pensavam tê-lo arregimentado sem lhe pedirem autorização, uma vez alcançado o Poder de Estado de forma violenta, a estranharem que ele não lhes poupasse críticas à sua intolerância e à sua “democracia” tipo “camisa-de-onze-varas”. Este F. de A. foi por mim sobremaneira admirado e lido especialmente, pois senti-o meu orientador de pensamento, como se fosse um mestre vivo, com quem dialogava continuamente.
Passaram-se algumas décadas, mas nunca esqueci o escritor alentejano, voltando à sua leitura de vez em quando, além de procurar inéditos, referências, fotos ou caricaturas que dele fizeram os artistas seus contemporâneos.
Há uns anos, fornecido inesperadamente com uns direitos de autor de que tinha perdido a esperança, aventurei-me num alfarrabista que frequentava para pequenas compras. Além de livros, alguns autografados pelos autores, por motivos estranhos, o cavalheiro também vendia fotos antigas sem identificação, cartões-de-visita de personalidades da 1ª República, de tudo o que havia sido escritor ou jornalista do início do século XX, bilhetes-postais e airosas bengalas do início do século passado.
Adquiri uns quantos livros autografados, e uma airosa bengala de que hoje uso, por uma quantia não avultada e, olhando os vários cartões-de-visita colocados numa vitrina-expositora, consegui identificar um que dizia Cuba e mais palavras que não descortinava de forma clara. Fosse o que fosse, estremeci! Cuba é vila do distrito de Beja, onde viveu e morreu F. de A., recordei. Solicitei ao alfarrabista ver o cartão-de-visita. Confirmei: – Era um cartão-de-visita de Fialho de Almeida!
Mandei embrulhar tudo, paguei, e continuei o meu caminho até ao Cais do Sodré, onde o cacilheiro me levou para Almada, cidade em que habitei como num exílio.
Sozinho na minha pequena sala de trabalho, desfiz o pacote, peguei no cartão-de-visita de F. de A. e finalmente li o que este havia escrito com o seu punho:
«Cuba – 25 Dezembro
1910 – Querido amigo
Boas festas e a todos
os seus. Hoje entre-
guei ao Palminha
os 28.000 reis, dos juros
em debito, correspon-
dentes ao semestre fin-
-
Saudades F. Almeida ».

