CONTOS & CRÓNICAS – “De onde conheço o escritor Fialho de Almeida (misteriosas coincidências)” – por Joaquim Palminha Silva

contos2 (2)Como grande parte dos verdadeiros leitores, conheço o escritor alentejano, natural de Vila de Frades, através dos seusImagem1 livros. Em Fialho de Almeida (F. de A.) admirei desde a minha juventude a escrita como arma de combate, que não deve servir apenas nas encruzilhadas da política, mas elevar-se sobre a agitação efémera das opções partidárias, de forma a defender a necessária existência de uma sociedade mais humana e fraterna. Admirei, pois, a sua escrita desassombrada, e fiquei completamente rendido à irreverência do escritor e do homem. E simpatizei com F. de A. desde então…

São diversos os graus de análise que o escritor quis descrever e indicar aos leitores. Existe implícita na sua obra o que poderemos chamar análise de patologia social. Mas não é simplificadora a sua escultura de personagens. Não escamoteia as contradições da alma humana, mesmo na descrição de canalhas há um toque de humanidade. Sem ter sido (que se saiba) um fervoroso cristão, embora talvez fosse crente, há em Fialho de Almeida mais cristianismo do que se pensa, basta ler os seus contos, por exemplo. O facto é que esta cobertura cristã das suas produções, foi para mim mais um motivo de estima e redobrada admiração. Não sei porquê nem como, mas senti durante anos e anos que havia algo de familiar entre mim e este homem, falecido (1911) muito antes de eu nascer.

A sua tragédia intelectual foi nunca ter sido apreciado em vida como um verdadeiro criador, apesar de ter enriquecido a língua, povoando o dicionário de português com bastantes palavras. A generalizada indiferença do mundo político e intelectual do seu tempo, deixou-lhe uma ferida que, até à morte, nunca sarou. O seu drama terminou com os estreitos “jacobinos” do partido republicano, que pensavam tê-lo arregimentado sem lhe pedirem autorização, uma vez alcançado o Poder de Estado de forma violenta, a estranharem que ele não lhes poupasse críticas à sua intolerância e à sua “democracia” tipo “camisa-de-onze-varas”. Este F. de A. foi por mim sobremaneira admirado e lido especialmente, pois senti-o meu orientador de pensamento, como se fosse um mestre vivo, com quem dialogava continuamente.

Passaram-se algumas décadas, mas nunca esqueci o escritor alentejano, voltando à sua leitura de vez em quando, além de procurar inéditos, referências, fotos ou caricaturas que dele fizeram os artistas seus contemporâneos.

Há uns anos, fornecido inesperadamente com uns direitos de autor de que tinha perdido a esperança, aventurei-me num alfarrabista que frequentava para pequenas compras. Além de livros, alguns autografados pelos autores, por motivos estranhos, o cavalheiro também vendia fotos antigas sem identificação, cartões-de-visita de personalidades da 1ª República, de tudo o que havia sido escritor ou jornalista do início do século XX, bilhetes-postais e airosas bengalas do início do século passado.

Adquiri uns quantos livros autografados, e uma airosa bengala de que hoje uso, por uma quantia não avultada e, olhando os vários cartões-de-visita colocados numa vitrina-expositora, consegui identificar um que dizia Cuba e mais palavras que não descortinava de forma clara. Fosse o que fosse, estremeci! Cuba é vila do distrito de Beja, onde viveu e morreu F. de A., recordei. Solicitei ao alfarrabista ver o cartão-de-visita. Confirmei: – Era um cartão-de-visita de Fialho de Almeida!

Mandei embrulhar tudo, paguei, e continuei o meu caminho até ao Cais do Sodré, onde o cacilheiro me levou para Almada, cidade em que habitei como num exílio.

Sozinho na minha pequena sala de trabalho, desfiz o pacote, peguei no cartão-de-visita de F. de A. e finalmente li o que este havia escrito com o seu punho:

«Cuba – 25 DezembroImagem2

1910 – Querido amigo

Boas festas e a todos

os seus. Hoje entre-

guei ao Palminha

os 28.000 reis, dos juros

em debito, correspon-

dentes ao semestre fin-

  1. Saudades F. Almeida ».

Frente e verso do cartão-de-visita de F. de A.

Por instantes a pequena sala oscilou e os alicerces do meu raciocínio vacilaram… Depois voltou-me a calma, cortada por surpresa e indignação! – Então não querem lá ver! Houve um «Palminha» que emprestou dinheiro a juros ao meu estimado escritor!

Passaram-se mais uns anos, sem conseguir apurar quem era esse «Palminha» …

Um dia, numa manhã de Dezembro povoada de espesso nevoeiro, na sequência de um grave acidente de um cacilheiro (que me pôs às portas da morte), entendi que Ele, ao poupar-me, me dava segunda oportunidade, e resolvi mudar o rumo da vida profissional e não só. Abafando de mim para mim os miserere, procurei transferir-me da administração pública central para a local. A ideia era retornar à cidade de origem: – Évora!

Mas circunstâncias conjugadas (vá lá saber-se como e por quem!) empurraram-me para Cuba. Tinha aí conhecidos, uns familiares fixaram-se na vila, etc.. Enfim, conheci o presidente da Câmara Municipal, excelente pessoa e, veja-se só, admirador de F. de A. e amigo do escritor Manuel da Fonseca, que havia produzido antologia de Fialho de Almeida, editada pela Autarquia. Consegui, pois, transferir-me do Ministério dos Negócios Estrangeiros para a Câmara Municipal de Cuba, colocando-me o seu presidente no desamparado Pelouro da Cultura. Como se vê, não poderia ser melhor!

Novamente, a visão do cartão-de-visita de F. de A. e o tal «Palminha», começaram a mover-se dentro do meu espírito como seara agitada ao vento. Passando sorrateiramente pelos complexos tecidos da vida, que força era aquela que me havia empurrado para Cuba? Tudo me parecia intencional, mas soberanamente obscuro.

Em vez de me abandonar voluptuosamente a uma verdadeira orgia fúnebre e espírita, como tinha mais que fazer, deixei para Dia de S. Nunca à Tarde a ideia de investigar as origens do mistério desse «Palminha». Mas ainda houve quem me sugerisse a consulta de um(a) médium em Beja e, mediante sessão espirita de mesa pé de galo e cabelos arrepiados, dado o rosário de medos que dizem isso provoca, assim convocar F. de A. a explicar-se e identificar esse «Palminha». Entendi que não valia a pena “incomodar” F. de A., a pretexto de uma coscuvilhice destas, e amolgar a sua memória com truques pitorescos. Além disso, agarrado ao trabalho, tive ocasião de verificar como se encontrava o espólio que F. de A. havia deixado, e a Câmara Municipal guardava, sem grandes exigências. Entretanto, passaram anos…

Um dia, pessoa minha conhecida avisou-se que havia encontrado o «Palminha» do cartão-de-visita do Fialho de Almeida. Segundo ele, vivia depositado numa obra de Alberto Pimentel. Esgrimindo a referência, corri os alfarrabistas de Lisboa, até que encontrei o livro: Figuras Humanas, Alberto Pimentel, colecção A. Mª. Pereira, Lisboa, 1905.

Imagem4

Em letras garrafais, o «Palminha» abre mesmo o capítulo X da obrinha! Afinal, o homem chamava-se José Umbelino da Palma, era redactor-em-chefe (talvez proprietário) do jornal O Bejense. Alberto Pimentel explica-nos como o nome lhe foi dado: «Era fácil de perceber a razão da alcunha. O Palminha não tinha maior altura que o Rodrigues Cordeiro.». Suponho que a estatura deste último deveria ser algo próximo de anão!

Sobre a personalidade do homem, Alberto Pimentel descreve-nos um personagem simpático, prazenteiro mesmo: «Falava pelos cotovelos, com vivacidade infatigável, e gostava de saber tudo o que se passava, não só em Lisboa, mas no mundo inteiro.». Citado isto, entro na matéria novamente: – Este «Palminha» não poderia ter emprestado dinheiro a F. de A., dado que o livro de Alberto Pimentel, editado em 1905, fala-nos do falecimento do «Palminha» em Beja, enquanto o cartão-de-visita de F. de A. tem a data de 1910…

Fiquei coberto com uma nuance de azedume… Afinal este «Palminha» não era o misterioso «Palminha» que eu procurava… Pensei que a alcunha houvesse passado para o nome civil dos seus descendentes… E terá sido a um descendente (filho?) que F. de A. pediu dinheiro emprestado… A ideia pareceu-me razoável, mas não tinha nem tenho provas.

Depois destas descrições e transcrições, devo recordar que meu avô materno (natural do Concelho de Beja, 1894-1959) me falava às vezes que o seu nome, José «Palminha» Lança, derivava de alcunha, tendo existido em Beja um parente seu (tio?) assim denominado pela sua baixa estatura, que escrevia e era proprietário de um jornal.

De resto, este avô materno foi personagem de «colecção familiar». Tendo-se radicado em Évora muito jovem, tipógrafo compositor (especialidade das artes gráficas caída em desuso), nesta cidade fundou jornais e foi um dos pioneiros da introdução do futebol na prática desportiva da juventude eborense.

Afastado de Cuba, já residindo em Évora, anos depois fui convidado pelo presidente da Autarquia da vila alentejana a participar no centenário (2011) do falecimento de Fialho de Almeida. Acompanhado de outras pessoas muito mais abalizadas que eu em termos literários, senti que amplificavam os meus méritos, em relação ao conhecimento do escritor e sua obra.

Na manhã da romagem ao cemitério da vila, junto ao inédito jazigo do escritor, fui incumbido de ler um pequeno in memoriam a Fialho de Almeida, após leitura de texto do escritor pela grande senhora do teatro português, Eunice Muñoz.

O momento em que li o meu curto texto, dirigindo-me de forma directa a F. de A., nunca mais o esquecerei: – Esses minutos, que foram quase nada, guardo-os como uma das emoções mais delicadas da minha vida!

No momento em que JPS lia o in memoriam junto ao jazigo de Fialho de Almeida no cemitério de Cuba, em Março de 2011.

 

Não sei explicar como, mas comecei a imaginar F. de A. a sorrir-me do fundo do passado! Creio que, não sendo eu de certeza absoluta o tal «Palminha», apenas seu remoto descendente, o escritor estava grato a este… Joaquim Palminha Silva.

Leave a Reply