Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota
Nota introdutória
Os Estados Unidos, desde o início da agitação na Ucrânia, que estão claramente posicionados contra os pró-russos. Um apoio que tem todos os ares dos tempos da guerra fria, que não tem nada a ver com os interesses dos ucranianos.
O autor Jean-Bernard Pinatel, General e dirigente de empresa, é um perito reconhecido das questões de geopolítica. É autor de Carnet de Guerres et de crises, publicado por éditions Lavauzelle en 2014.
O autor anima igualmente o blog : http://www.geopolitique-géostratégie.fr
Interesses bem claros.
A verdadeira razão pela qual os Estados Unidos estão preocupados tanto com a Ucrânia enquanto se estão completamente nas tintas para os ucranianos
Publicado a 21 Julho de 2014 – Entrevista
Atlantico: Os Estados Unidos desenvolvem muitos esforços para identificar os autores do ataque ao avião da Malásia Airlines e foram muito rápidos a apontar o dedo para os pró-russos . Que interesse têm para utilizar este chapéu ?
Jean-Bernard Pinatel: Desde a queda do muro de Berlim em Novembro de 1989, os estrategas e os políticos americanos sentem uma ameaça: é que uma aproximação e depois uma aliança entre a Europa e a Rússia iria desafiar a supremacia global dos Estados Unidos que lhes permite, com impunidade, interferir nos assuntos internos de um país, ou mesmo de lhe declarar guerra e de lhe impor um direito consistente com os seus interesses conforme se mostrou recentemente com o ocaso do BNP.
Esta incontestável realidade requer um plano de fundo para ser compreendida.
Em 1997, o conselheiro nacional para a segurança dos EUA, Zbigniew Brzezinski, publicou um livro sob o título ” Le grand échiquier ” adoptando os dois conceitos, forjados por Mackinder, Eurásia e “Heartland”. Brzezinski retomava à sua conta a famosa máxima criada por Mackinder: “quem governa a Europa do leste domina o Heartland; Quem governa o Heartland, domina a ilha-mundo; quem governa a ilha mundo domina o mundo. E a partir daí deduzia: “para a América, a principal questão geopolítica é Eurásia.” Numa outra publicação (1), elaborou o seu pensamento: “se a Ucrânia caísse, escreveu, isso reduziria em muito as opções geopolíticas da Rússia. Mesmo sem os Estados bálticos e a Polónia, uma Rússia que mantivesse o controle da Ucrânia poderia sempre aspirar com confiança à direcção de um império da Eurásia. Mas sem a Ucrânia e os seus 52 milhões de irmãos eslavos, qualquer tentativa de por Moscovo de reconstruir o Império eurasiático corre o risco de levar a Rússia para longos conflitos com os não-eslavos por motivos nacionais e religiosos.
Entre 2002 e 2004, para implementar esta estratégia, os Estados Unidos gastaram centenas de milhões de dólares para ajudar a oposição ucraniana pró-ocidental a ganhar o poder. Milhões de dólares vieram também de institutos privados, como a Fundação Soros e dos governos europeus. Este dinheiro não foi directamente para os partidos políticos. Ele transitou através de fundações e organizações não-governamentais, que aconselharam a oposição a equipar-se com os meios técnicos e as ferramentas mais modernas de publicidade. Um fax americano de 5 de Janeiro de 2010, publicado no site Wikileaks (Ref. 10WARSAW7), mostra a participação da Polónia na transição e o esforço democrático dos antigos países do Oriente. O papel das ONG é particularmente exposto (2). As informações de Wikileaks reflectem o esforço constante e a vontade continuada dos Estados Unidos para expandir a sua esfera de influência sobre o leste, como na Ucrânia.
A Ucrânia está numa situação de verdadeira guerra civil. Contudo, ninguém no Ocidente denunciou o ardor com que o governo ucraniano tenta reprimir os separatistas. Qual é o real interesse dos americanos para fechar os olhos a esta realidade e para apoiar o governo ucraniano? O que têm eles a ganhar?
O Estado ucraniano é uma construção de Estaline e existe como Estado independente só desde 1990, no final da separação do bloco soviético. Ele existiu anteriormente apenas entre 1917 e 1921, entre a queda do czarismo em 1917 e a vitória dos bolcheviques que dividiram esse estado emergente em 4 partes. A parte ex-russa de parte da Ucrânia, com Kiev como capital, é berço histórico da civilização e da cultura russa, foi integrado à URSS, enquanto a parte ex-austríaca , com Lviv como cidade principal, é anexada à Polônia.
A pequena Ucrânia dos Cárpatos votou a sua ligação à Checoslováquia e quanto a Bucovina, a sua minoria ucraniana resignou-se na sua ligação com a Roménia.
Mas a Ucrânia não é contudo e com isso uma nação. Os ucranianos não têm nenhuma história comum. Muito pelo contrário. Durante a segunda guerra mundial, quando no verão de 1941, a Ucrânia é invadida pelos exércitos do Reich, os alemães foram recebidos como libertadores por parte da população ucraniana. Pelo contrário, a leste do país, os nazis encontraram forte resistência por parte da população local, que se continuou até 1944. Em retaliação, os alemães massacram as milícias e queimam centenas de vilas e aldeias. Em Abril de 1943, uma divisão SS Galiza foi formada por voluntários ucranianos, cujos descendentes foram o ferro de lança dos revolucionários da Praça Maidan (3). Esta divisão SS foi utilizada, nomeadamente, pelos alemães na Eslováquia para reprimir o movimento nacional eslovaco. Mas os ucranianos pró-ocidentais e os americanos tudo fizeram, no final da guerra, para lançar um véu sobre as atrocidades cometidas por essa divisão e de fazer lembrar a sua luta anti-soviética. No entanto, os historiadores estimam que mais de 220 000 ucranianos se juntaram às forças alemãs durante a segunda guerra mundial para lutar contra o regime soviético.
Este pano de fundo ajuda a compreender as razões pelas quais a guerra civil é possível e porque é que a parte das forças ucranianas, constituídas de tropas do Ocidente podem usar tanques e aviões contra os separatistas no Oriente.
O presidente da Ucrânia com a cumplicidade do silêncio da maioria dos políticos e dos meios de comunicação ocidentais, trava uma guerra real contra uma parte da sua população com a mesma violência que é utilizada pelo ditador da Síria contra o povo sírio e contra a qual se protesta tanto . Além disso, as forças armadas ucranianas têm como conselheiros forças especiais e mercenários americanos.
Os Estados Unidos e Obama querem provocar uma reacção brutal da Rússia que poderia reviver uma guerra fria entre o Ocidente e o Oriente. Putin compreendeu bem a armadilha montada pelo Presidente Obama, um “Nobel da Paz”. Depois de terem desencorajado os separatistas ucranianos de fazerem um referendo, não tem reconhecido os seus resultados (4) enquanto que estes demonstram uma moderação que surpreendeu todos os observadores independentes, com e os tanques e os aviões a atacarem a sua população russófona.
Em que é que a Ucrânia impede a criação de um bloco Europa-Rússia? Porque é que os Estados Unidos querem evitá-lo?
Os americanos continuaram a pressionar os europeus para integrarem a Ucrânia e a Geórgia na OTAN, o que seria uma provocação inaceitável para a Rússia.
Felizmente, os líderes europeus não se vergaram à vontade de Washington que só serviria os interesses americanos. Da mesma forma, se Putin cedesse à pressão dos seus ultra-nacionalistas e abertamente interferisse na Ucrânia, os Estados Unidos teriam alcançado os seus objectivos estratégicos e a guerra fria reinstalar-se-ia na Europa à custa dos nossos interesses fundamentais.
Porque é que a Europa iria cumprir? Ela realmente tem interesse em subscrever a estratégia americana?
Muitos líderes europeus foram formados nos Estados Unidos. Eles são membros de Think-Tanks americanos ou transatlântica “ou das fundações como a Fundação Americana” que em grande parte financia as suas viagens e as suas prestações. O atlantismo é, certamente, fabricado pela consciência de que nós partilhamos os mesmos valores democráticos com a nação americana, mas também pela multiplicidade de interesses pessoais de muitos dirigentes europeus cujo nível de vida depende da sua submissão de fato aos interesses do Estado americano.
No entanto, há cada vez mais europeus a começarem a ter consciência da diferença entre o Estado americano que é, de facto, liderado por lobbies, cuja maioria é importante o lobby militar-industrial (5) e a própria nação americana, cujos valores e dinamismo económico e cultural têm um inegável poder de atracção e que permanece para os jovens europeus uma magnífica escola de vida profissional.
Angela Merkel e os alemães estão na vanguarda dessa consciência porque eles ainda não aceitaram a espionagem industrial permanente a que a Agência NSA os quer submeter . Além disso, a revelação das escutas sobre os portáteis de Angela Merkel chocou fortemente o país. O Der Spiegel de 3 Novembro de 2013 exigia mesmo em grande título que fosse concedido asilo político a Edward Snowden: “Asil Für Snowden. Os principais jornais europeus, entre os quais o Le Monde publicaram extensivos extractos das suas revelações.
No dia 10 de Julho de 2014, o governo alemão anunciou a expulsão do chefe dos serviços secretos dos EUA para a Alemanha, no quadro de um caso de espionagem por funcionários alemães a favor de Washington, um caso sem precedentes entre os aliados da NATO. ” Foi pedido ao representante dos serviços secretos dos EUA na embaixada dos Estados Unidos da América para sair da Alemanha,” declarou o porta-voz do governo, Steffen Seibert, num comunicado. A expulsão resulta ” por falta de cooperação constatada durante muito tempo para esclarecer” a actividade dos agentes da inteligência americana na Alemanha, disse um deputado alemão, Clemens Pavi, presidente da Comissão de fiscalização Parlamentar das Actividades de Informações que se reuniu na quinta-feira em Berlim.
Em França, o antigo primeiro-ministro Michel Rocard, o sociólogo Edgar Morin, os antigos ministros Luc Ferry e Jack Lang ou até mesmo o ex-deputado Daniel Cohn – Bendit lançaram uma petição na qual eles pedem ao presidente François Hollande, ao seu primeiro-ministro, Manuel Valls e ao ministro Laurent Fabius, para receberem Edward Snowden “sem demora, sob o estatuto de refugiado político”.
Infelizmente para a França e a Europa, François Hollande, que permanece, como uma parte da intelectualidade francesa, fascinado por Obama e Laurent Fabius, que durante muito tem recebido subsídios de fundações americanas ainda não tomaram consciência que eles estavam assim a colocar em causa os interesses estratégicos da França e da Europa.
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(1) Traduit de : Zbigniew Brzezinski: « Die einzige Weltmacht – Amerikas Strategie der Vorherrschaft », Fischer Taschenbuch Verlag, pp.15/16.
(2) Le National Endowment for Democracy (NED) (em português, Fundação Nacional para a Democracia ) é uma fundação privada sem fins lucrativos dos Estados Unidos, cujo objectivo declarado é o reforço e o avanço das instituições democráticas em todo o mundo. A maior parte do seu financiamento vem do Departamento de Estado dos Estados Unidos, com a aprovação do Congresso. O antigo director da CIA, William Colby, em 1982, declarava ao Washington Post sobre o programa de NED: “não é necessário recorrer à utilização de métodos clandestinos. Muitos programas que […] foram realizados em segredo, agora pode ser expostos à plena luz do dia e consequentemente sem nenhuma controvérsia. William I. Robinson, Promoting Polyarchy: Globalization, US Intervention, and Hegemony [archive], Cambridge university Press, 1996, 466 p., pp. 87-88.
(3) Não nos esqueçamos que os manifestantes na Praça de Maidan forçaram um Presidente pró-russo democraticamente eleito em 2012 a deixar o poder . Foi expulso da sua capital por manifestantes onde vimos misturarem-se grupos paramilitares ultranacionalistas a mostrarem os símbolos nazis e que recusam a Europa, mas também os cidadãos de classe média (professores, alunos, líderes de PME) que desejam fazer parte da União Europeia…
(4) aprovado por 89% dos votantes
(5) Em 2013, o orçamento de Defesa americano representava US $ 640 mil milhões. Isto representa o orçamento dos seguinte spaíses em conjunto: China 188, Rússia 88, Arábia Saudita, 67, França 61, Grã-Bretanha 58, Alemanha 49, Japão 49, Índia 48, Coreia do Sul 33 .Source SIPRI
Fonte: Jean-Bernard Pinatel, La véritable raison pour laquelle les États-Unis se préoccupent tant de l’Ukraine tout en se foutant éperdument des Ukrainiens. Paris, 21 de Julho de 2914. Texto disponível em :
http://www.atlantico.fr/decryptage/veritable-raison-pour-laquelle-etats-unis-se-preoccupent-tant-ukraine-tout-en-se-foutant-eperdument-ukrainiens-jean-bernard-1673075.html#LdiU2XGPAsvvhq2p.99

