PRAÇA DA REVOLTA – Cristãos novos e novos judeus – 2 – por Carlos Loures

Eugène Delacroix - La Liberté guidant le peuple

A posição de quem defende o terrorismo de Estado que os políticos e militares israelitas estão a levar a cabo na Faixa de Gaza é tão inaceitável quanto a dos que negam a realidade histórica do Holocausto. Os jovens skinheads, embrutecidos pela propaganda neonazi e os sionistas apoiantes do genocídio contra os palestinianos, usam o mesmo tipo de argumentos, incluindo o de pôr em causa testemunhos insuspeitos e o de contestarem a veracidade das imagens que os noticiários televisivos nos fazem chegar em catadupas.

Quem assume posição tão vergonhosa, é gente incapaz de suportar que a realidade não se ajuste à noção que dela têm. E do mesmo modo que a escumalha neonazi procura justificar a «solução final» exibindo os clichés antijudaicos, os sionistas tentam contrapor ao crime hediondo que as forças militares israelitas estão a consumar na Faixa de Gaza, o terrorismo do Hamás – basta ver o total de vítimas de um e de outro lado para compreender.

Felizmente, a esperança de que naquela martirizada terra a humanidade prevaleça sobre o ódio, nem os tanques israelitas nem os foguetes do Hamás extinguem. Esperança que os novos judeus reforçam. Temos reproduzido com frequência posições de judeus não sionistas – Hannah Arendt, Idith Zertalou de Shlomo Sand. Há dias, lendo a edição online do Globo deparei com um excelente artigo de Daniel Aarão Reis, professor de História Contemporânea na Universidade Federal Fluminense, intitulado precisamente Os novos judeus. Transcrevemos alguns excertos:«“Novos judeus”. Foi assim que, há pouco mais de 30 anos, Helena Salem intitulou um livro sobre a tragédia dos palestinos depois da Segunda Guerra Mundial. Judia, teve que se haver com a crítica — às vezes, insultuosa — de judeus no Brasil e no mundo. Corajosa, recusou-se à autocensura. É trágico que sejam os próprios judeus, trucidados em guetos durante a Segunda Guerra Mundial, os responsáveis por fazer reviver, agora, a maldita experiência.[…] Os palestinos não querem piedade. Por destemidos, dela não carecem. Às vezes, como disse o doutor Gilbert, médico norueguês, no hospital de Al-Shifa, em Gaza, “a gente só tem vontade de chorar e apertar num abraço as crianças cobertas de sangue”. Mas as lágrimas de dor, de raiva ou de medo não são bem-vindas. Nem honrariam a capacidade de resistência e a resolução que, nas piores condições, demonstram os palestinos.

Eles precisam é de solidariedade ativa. Das gentes, nas ruas do mundo, manifestando apoio, obrigando os respectivos governos a agirem, através de pressões políticas e diplomáticas.[…] O mundo não pode assistir de braços cruzados e em silêncio ao massacre de um povo, agredido por uma força maior e mais poderosa. É preciso impedir que os judeus fabriquem novos judeus. Como disse Eric Goldstein, do Observatório dos Direitos Humanos, “Israel precisa fazer mais do que tentar explicar ataques ilegais. Precisa parar com eles”. Para o bem dos palestinos, da humanidade e dos próprios judeus.»

Recomendo a leitura do texto integral deste artigo do Professor Daniel Aarão Reis, um amigo que conheci em Lisboa e que comigo colaborou em diversos projectos editoriais. Um amigo cuja lucidez felicito.

Leave a Reply