A FRONTEIRA ONDE BORGES ENCONTRA O BRASIL – 4 – por Carmen Maria Serralta

(continuação)

2 – Causa próxima

            Na verdade, como comentei há pouco, Borges viera de carro desde a cidade de Salto, acompanhando seu anfitrião que tinha assuntos particulares a tratar na vizinha Rivera onde ficaram ambos hospedados por uns dias. Esther, além de prima, foi a única companheira a participar dos jogos e brincadeiras de infância de Norah, irmã do escritor, e do menino Borges. E foi para Amorim que nosso autor dedicou seu primeiro conto: Hombre de la esquina rosada, publicado no suplemento literário do jornal Crítica, em 1934 e, no ano seguinte, na Historia Universal de la Infamia. Um dado adicional curioso é o de que fora por intermédio desse romancista uruguaio que a Sociedade Argentina de Escritores (SADE) criou (como desagravo por ter-lhe sido negado, em 1942, o Prêmio Nacional de Literatura) o Grande Prêmio de Honra[1] que recebeu no ano de 1944, com Ficciones. Vale a transcrição parcial de dois prólogos para as edições de 35 e 54 por indicarem o gênero de literatura que manejava Borges na época, bem como uma discreta, mas ao mesmo tempo reveladora confissão de seus sentimentos quando escreveu a

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Historia Universal de la Infamia, omitida na primeira edição. Pois, como se sabe, quando a ferida sangra é difícil falar nela, ainda mais em se tratando de um homem tímido e recatado. No prólogo para a edição de 35, escreve: “Os exercícios de prosa narrativa que integram este livro foram executados de 1933 a 1934. (…) Abusam de alguns procedimentos: as enumerações díspares, a brusca solução de continuidade, a redução da vida inteira de um homem a duas ou três cenas. (Esse propósito visual rege também o contoHombre de la Esquina Rosada”). Não são, não tratam de ser, psicológicos”. No prólogo à reedição de 1954, afirma: “Já o excessivo título destas páginas proclama sua natureza barroca. Atenuá-las equivaleria a destruí-las; por isso prefiro, desta vez, invocar a sentença quod scripsi, scripsi (João, 19, 22) e reimprimi-las, ao cabo de vinte anos, tal qual. São o irresponsável jogo de um tímido que não se animou a escrever contos e que se distraiu em falsear e alterar, algumas vezes sem justificação estética, histórias alheias. Desses ambíguos exercícios passou à laboriosa composição de um conto direto – “Hombre de la Esquina Rosada” (…) O homem que o executou era bastante infeliz, mas se entreteve escrevendo-o; tomara que algum reflexo daquele prazer alcance alguns leitores”.

            Convém lembrar que Borges, em 1934, com trinta e poucos anos – época em que visitava com assiduidade seus parentes no Uruguai -, estava longe da consagração mundial que conheceu nos anos sessenta e do mito que se tornaria lá por 1970. Longe, portanto, dos compromissos impostos pela fama que dele fizeram o que os antropólogos definem como herói cultural – aquela figura mítica ou real que representa uma entidade muito importante para sua comunidade. No caso, é evidente, a comunidade intelectual ocidental.

            O que eventualmente poderá instigar a curiosidade das pessoas que desconhecem o elo mantido desde sempre pela família Borges com esse país do Prata, e também dos que ignoram a situação particular de simbiose existente entre as cidades de Santana do Livramento e Rivera, é o fato de o escritor, tão aclamado internacionalmente, ter  “escolhido” um recanto do Rio Grande do Sul, rural, fronteiriço e interiorano como porta de entrada para o Brasil. Na realidade, mais parece ter sido ele “escolhido” pelas circunstâncias do que o contrário. Sua vinda foi: casual. O motivo: banal (acompanhar o amigo). Sua visita: aleatória.

Borges - VII

Borges - VIII

               Mais duas vezes veio o escritor argentino ao nosso país, passagens rápidas e, a meu ver, menos significativas do que aquela primeira de 1934, como atesta o grande número de comentários concedidos pelo próprio Borges a amigos e entrevistadores de todo canto do mundo e ao longo de toda sua vida – em que somente faz, até onde sei, referência à vinda a Santana do Livramento. A segunda visita ao Brasil aconteceu em 1970, quando recebeu em São Paulo, o prêmio Matarazzo Sobrinho oferecido pela Fundação Bienal. E a terceira foi assim comentada: “Da segunda passagem (grifo meu) pelo Brasil, em 1984, restou um belo livro-homenagem Borges no Brasil, organizado por Jorge Schwartz, no qual o leitor pode encontrar vários cruzamentos que a literatura brasileira estabeleceu com um dos maiores escritores do século XX”  [2]. Se em lugar de Brasil tivesse sido nomeada a cidade de São Paulo, nada haveria a acrescentar quanto ao registro do número de estadas do famoso autor no país. Pelo visto, parte da intelligentsia brasileira desconhece a vinda de Borges ao sul do Brasil. Exceção feita a uma matéria publicada na revista Piauí[3], “Três encontros com Borges”,[4] de autoria de Pedro Correia do Lago. Ao longo da conversa com o escritor argentino, aponta Lago: “[Borges] Repetiu-me o que vim a ler mais tarde em muitas outras entrevistas concedidas a brasileiros: lera e admirava Os Sertões, de Euclides da Cunha, e fora em Santana do Livramento que vira pela primeira vez matar um homem (grifo meu). Perguntei-lhe por que em seus contos as más notícias frequentemente vinham do Brasil. Não adiantou: ele só falou do que queria”.

            Uma provável resposta à pergunta formulada pelo entrevistador poderia, quem sabe, ser encontrada nas impressões experimentadas e descritas posteriormente pelo autor na travessia pelos campos da fronteira uruguaia com o Brasil e também no fato surpreendente e insólito de haver ele assistido num café em nossa Santana do Livramento ao assassinato de um homem. Aliás, esse foi um acontecimento inesquecível tanto para o ficcionista quanto para a sua pessoa, para os dois Borges, a saber, o homem comum, pessoa do cotidiano [o eu] e o outro, a persona poética, o eu poético, imaginário e imaginante. A esse duplo que ele mesmo nomeia em página antológica de 1960, Borges e eu.

(continua)

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[1] Jurado, 1980, p. 49. Renard, 1986, p.15.

[2] Entre Livros, junho de 2006, p. 42.

[3] Piauí, número 14, novembro de 2007.

[4] Ocorrido em 1978.

 

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