QUINHENTOS ANOS DEPOIS
por Carlos Pereira Martins
— Então, Mateus, sabes que dia é hoje?
Mateus levantou os olhos, com a serenidade de quem já não precisava de calendário, relógio ou sequer de memória electrónica para saber que dia era.
— Hoje? É o teu aniversário, pai.
Henrique sorriu.
— Exactamente. E não é um aniversário qualquer. Faço quinhentos anos.
Mateus fez uma pequena vénia, com a solenidade que a ocasião parecia exigir.
— Parabéns, pai. Quinhentos anos não se fazem todos os dias.
— Nem antigamente se faziam todos os séculos — respondeu Henrique, divertido. — Aliás, quando eu nasci, chegar aos cem já era considerado uma proeza quase sobrenatural. A medicina ainda andava a negociar com as bactérias, os vírus faziam o que queriam e os antibióticos, quando funcionavam, eram tratados quase como magia.
— Já ouvi falar desses tempos — disse Mateus. — Eram os tempos em que as pessoas podiam morrer de uma infecção que hoje curamos antes de acabar o pequeno-almoço.
— Não exageres.
— Estou a exagerar?
— Talvez um pouco. Mas não muito.
Henrique encostou-se à cadeira e ficou por momentos em silêncio.
— Sabes, filho, o mais extraordinário não eram apenas as doenças. Era a fragilidade geral. O organismo humano tinha defesas magníficas, naturalmente, mas não conhecia ainda todas as maneiras de as reforçar. O sistema imunitário continuava a ser uma obra-prima da evolução, mas nós ainda não sabíamos ler convenientemente o seu manual de instruções.
— E agora sabemos?
Henrique riu-se.
— Agora sabemos que não sabemos tudo. Foi uma das maiores descobertas dos últimos três séculos.
Mateus sorriu.
— Essa é muito antiga. Os humanos sempre descobriram qualquer coisa e, logo a seguir, descobriram que afinal não sabiam tanto como pensavam.
— Exactamente. É talvez a única tradição humana que sobreviveu intacta.
Henrique levantou-se e caminhou até à janela. Lá fora, a Terra continuava azul, tranquila e extraordinariamente pequena.
— Quando nasci — prosseguiu — ainda se discutia muito a população do planeta, os recursos disponíveis, a alimentação, a água, a energia e o equilíbrio entre aquilo que a humanidade consumia e aquilo que a Terra conseguia regenerar. Durante muito tempo, o crescimento demográfico foi apresentado como uma ameaça inevitável.
— E houve pandemias.
— Houve. E guerras. E fome. E catástrofes naturais. E epidemias que atravessavam fronteiras muito antes de existirem fronteiras capazes de as impedir.
— Mas as guerras não eram uma forma de controlar a população? — perguntou Mateus.
Henrique fez uma expressão de reprovação.
— Cuidado com essa conclusão. A guerra matava pessoas, evidentemente, mas não nasceu como um instrumento racional de demografia. Nasceu, sobretudo, da ambição, do medo, da disputa por território, recursos, poder, identidade e tantas outras coisas que os seres humanos tinham extraordinária habilidade para transformar em motivo de conflito.
— Portanto, morrer gente era uma consequência, não necessariamente o objectivo.
— Exactamente. E foi uma das nossas grandes tragédias termos sido tão eficazes a inventar razões para nos matarmos uns aos outros.
Mateus ficou pensativo.
— E depois chegaram as outras civilizações.
— Sim. “A grande Aproximação” !
Durante séculos, explicou Henrique, a humanidade imaginara que estava sozinha no Universo. Depois descobriu que o Universo não tinha a menor obrigação de satisfazer a sua vaidade.
Primeiro vieram os sinais. Depois as comunicações. Mais tarde, as primeiras formas de contacto físico. E, finalmente, aquilo a que os historiadores chamaram A Grande Partilha: não uma conquista, nem uma colonização, mas a circulação livre de conhecimentos entre mundos.
Biologia, física, medicina, matemática, engenharia, filosofia, linguística, arte e milhares de outras áreas começaram a cruzar-se numa escala que nenhuma universidade terrestre teria conseguido imaginar.
— Foi aí — disse Henrique — que percebemos que aquilo a que chamávamos ciência era apenas uma pequena ilha num oceano de conhecimentos.
— E foi também nessa altura que aprenderam a viajar sem viajar.
— Precisamente.
Mateus abriu os braços.
— Hoje basta pensar num lugar e estamos lá.
— Hoje.
— Não é maravilhoso?
— É muito cómodo.
— Pai, tu consegues transformar uma revolução civilizacional numa questão de comodidade!
— Porque tenho quinhentos anos. Já vi muitas revoluções acabarem em aplicações para telemóvel.
Mateus riu-se.
A verdade é que a antiga viagem interplanetária, feita através de naves, combustíveis, trajectórias orbitais e anos de espera, tinha pertencido a uma humanidade que ainda estava presa à distância como condição física.
A Partilha alterara tudo.
A manipulação controlada da informação quântica, a compreensão mais profunda da estrutura do espaço-tempo e a transmissão de estados físicos complexos permitiram desenvolver formas de deslocação que, para os habitantes do século XXI, pareceriam pura ficção.
Não era exactamente “teletransporte” no sentido infantil da palavra. Era algo muito mais sofisticado: uma combinação de mapeamento físico, transferência de informação, reconstrução material e sincronização espacial que tornava a distância praticamente irrelevante.
— E sem combustível — disse Mateus.
— Sem combustível.
— Sem estradas.
— Sem estradas.
— Sem aeroportos.
— Sem aeroportos.
— Sem filas de segurança.
Henrique olhou-o fixamente.
— Essa foi talvez a maior conquista científica da história da humanidade.
Riram ambos.
— Mas sabes o que me lembro mais dos antigos tempos? — perguntou Henrique.
— O quê?
— Dos acidentes de viação.
Mateus franziu o sobrolho.
— Acidentes?
— Sim. Pessoas que se deslocavam dentro de máquinas chamadas automóveis. Havia milhões delas. Corriam umas contra as outras, contra muros, árvores, postes e, ocasionalmente, contra aquilo que os próprios condutores chamavam “a realidade”.
— E morria gente?
— Muita.
— E não havia um sistema de prevenção?
— Havia. Chamava-se código da estrada.
— Funcionava?
Henrique hesitou.
— Funcionava melhor do que nada.
— E os hospitais?
— Havia hospitais, ambulâncias, equipas médicas, bombeiros, polícia, seguros, oficinas, reboques, semáforos, estradas, portagens, parques de estacionamento…
Mateus arregalou os olhos.
— Tudo isso para as pessoas poderem ir de um lugar para outro?
— Exactamente.
— Meu Deus!
— E ainda havia quem demorasse duas horas a encontrar estacionamento.
Mateus levou as mãos à cabeça.
— Como é que sobreviveram?
— Com muita paciência. E muito café.
Henrique voltou a sentar-se.
— Mas não foram apenas as viagens que mudaram. A própria mente humana começou a ser compreendida de outra maneira.
Há muito tempo, existiam relatos de pessoas capazes de influenciar outras através de formas extraordinárias de comunicação mental. Eram fenómenos raros, muitas vezes mal compreendidos, e frequentemente misturados com crenças, ilusões, sugestão psicológica ou interpretações que a ciência não conseguia confirmar.
— E depois descobriram que era possível?
— Descobriram que o cérebro é, simultaneamente, muito mais complexo e muito menos misterioso do que imaginávamos. A comunicação entre cérebros tornou-se possível através de interfaces neurobiológicas extremamente avançadas. Primeiro transmitiam-se sinais simples. Depois palavras. Imagens. Sensações. Mais tarde, padrões emocionais e estruturas complexas de pensamento.
— Portanto, agora consigo saber o que estás a pensar?
Henrique levantou uma sobrancelha.
— Nem penses.
— Porquê?
— Porque sou teu pai. Há limites que nenhuma tecnologia deve ultrapassar.
Mateus riu-se.
A chamada revolução da partilha mental não significou que cada indivíduo tivesse deixado de possuir uma consciência própria. Pelo contrário. A grande conquista fora aprender a comunicar profundamente sem destruir a individualidade.
A humanidade descobrira, finalmente, que partilhar não é desaparecer dentro do outro.
E talvez essa tenha sido a mais difícil de todas as aprendizagens.
Henrique olhou para o filho.
— Dentro de alguns dias vamos a Plutão.
— Ao Oriente Eterno?
— Exactamente.
Mateus sorriu.
O Oriente Eterno não era, evidentemente, um lugar geográfico no sentido antigo da palavra. Era o nome dado àquela extraordinária instituição onde se conservavam memórias, pensamentos, obras, personalidades e estruturas de consciência daqueles que já não habitavam fisicamente o Universo.
— Vamos visitar a mãe — disse Henrique.
Por um instante, desapareceu-lhe o sorriso.
— Ela morreu muito nova. O corpo terminou, como terminam todos os corpos. Mas aquilo que dela era informação, memória, personalidade e presença consciente pôde ser preservado.
— Ela estará lá?
Henrique olhou demoradamente para o filho.
— Estará aquilo que foi possível preservar dela.
E talvez essa distinção fosse a mais importante.
Porque, mesmo cinco séculos depois, a ciência continuava a não possuir respostas definitivas para todas as perguntas que os homens faziam quando a matéria deixava de responder.
A consciência continuava a ser um dos maiores mistérios do Universo.
Podia-se reproduzir uma memória. Podia-se reconstruir uma voz. Podia-se modelar uma personalidade. Podia-se preservar uma arquitectura neural. Podia-se, até, criar uma representação extraordinariamente fiel de uma pessoa.
Mas seria essa pessoa?
Ou seria apenas uma continuação suficientemente perfeita para que ninguém sentisse a diferença?
Henrique não sabia.
Nem Mateus.
Talvez ninguém soubesse.
— A mãe gosta que a visitemos? — perguntou Mateus.
— Gosta.
— Como sabes?
Henrique sorriu.
— Porque sempre gostou de visitas.
Mateus riu-se.
— Isso é uma resposta científica?
— Não. É uma resposta de marido.
Ficaram os dois em silêncio.
Lá fora, a Terra girava lentamente sobre si própria, como sempre fizera.
Cinco séculos tinham passado.
A humanidade aprendera a atravessar os planetas sem estradas, a comunicar através das mentes sem palavras, a combater doenças que outrora pareciam sentenças de morte e a conservar, de algum modo, fragmentos daquilo que chamava alma.
Tinha resolvido muitos dos problemas que pareciam insolúveis.
Mas não todos.
Porque, no fundo, apesar de quinhentos anos de ciência, milhares de civilizações e uma extraordinária partilha universal de conhecimentos, continuava a existir uma pergunta para a qual nenhum planeta tinha ainda encontrado resposta:
o que é, exactamente, aquilo que faz de nós aquilo que somos?
Henrique levantou-se.
— Vamos?
— Para Plutão?
— Sim.
— Quanto tempo demora?
Henrique sorriu.
— O mesmo que demora a pensares que queres lá estar.
Mateus fechou os olhos.
E, por um instante, pai e filho desapareceram da Terra.
Do outro lado do Sistema Solar, no lugar que um dia os homens baptizaram com o nome do deus romano dos mortos, alguém os esperava.
E talvez, cinco séculos depois, até a morte tivesse aprendido a receber visitas.

