Minha Mãe, Saudades!
por Carlos Pereira Martins
Há saudades que o tempo não leva. Apenas aprende a habitar em nós de uma maneira diferente. A saudade de uma mãe é uma dessas: não desaparece, não envelhece, não se resigna. Vai-se tornando mais silenciosa, talvez, mas permanece inteira, como uma presença que a ausência nunca conseguiu apagar.
Hoje, 11 de Setembro, passam 19 anos desde que a minha mãe partiu. Dezanove anos — uma medida de tempo que parece enorme quando a contamos em calendários, mas que se torna quase nada quando a contamos pelo coração. Porque há pessoas que continuam tão próximas de nós que a distância entre o último abraço e o dia de hoje parece caber num segundo..
Penso nela e dou por mim a procurá-la nas pequenas coisas. Num gesto, numa palavra, numa lembrança inesperada, num modo de olhar a vida. Há memórias que não precisam de ser chamadas: chegam sozinhas, discretamente, e sentam-se ao nosso lado. E, por momentos, parece que o tempo recua e que ela ainda está ali, com a sua voz, o seu carinho, as suas preocupações e aquela presença que, enquanto existe, julgamos que existirá para sempre.
Talvez seja essa uma das maiores crueldades da vida: só compreendemos plenamente o lugar que alguém ocupa em nós quando já não podemos bater à sua porta, ouvir-lhe a voz ou simplesmente dizer-lhe: « Minha Mãe, estou aqui.»
O autor e a sua Mãe
Tenho saudades dela. Muitas. E tenho saudades não apenas da mãe que foi, mas também de tudo aquilo que a sua existência significava. Da segurança de saber que havia alguém no mundo para quem eu continuaria sempre a ser filho. Porque uma mãe pode envelhecer, pode partir, pode deixar de estar ao nosso lado — mas há uma espécie de infância que fica para sempre guardada no coração de um filho.
Dezanove anos depois, a vida continuou, como inevitavelmente continua. Vieram outros dias, outras alegrias, outras preocupações, outras pessoas, outros afectos. Veio um filho, netos, momentos felizes, ausências e novas saudades. A vida foi construindo o seu caminho. Mas há lugares dentro de nós que não são ocupados por mais ninguém.
O lugar da minha mãe continua a ser dela.
E talvez seja isso que significa verdadeiramente recordar alguém que amámos: não viver prisioneiro da tristeza, mas transportar connosco aquilo que essa pessoa nos deixou. O amor, os ensinamentos, os gestos, a memória, até as pequenas coisas que na altura pareciam insignificantes e que hoje ganham uma importância imensa.
A morte levou-a da minha presença, mas não conseguiu levá-la da minha vida.
Por isso, neste 11 de Setembro, não quero apenas dizer que passaram 19 anos desde que morreu. Oiço a sua voz pelas 19 horas telefonando-me para o aeroporto de Bruxelas a desejar boa viagem para Lisboa e a assinalar que é o 11 de Setembro, lembrando o ataque às torres Gémeas. Foi a última vez que a ouvi, preocupada por isso mesmo. Quando cheguei a Lisboa, tinha quem me esperasse para seguirmos para Viseu. Quero dizer que passaram 19 anos sem que tivesse passado um único dia em que ela deixasse completamente de estar comigo.
Minha Mãe, onde quer que a memória encontre morada, fica esta palavra que talvez nunca seja suficiente:
Tenho saudades suas.
E terei sempre.
Porque há amores que o tempo não diminui.
Apenas os torna eternos.


