
A Espera

Pedro dirige-se para uma das cadeiras mais afastadas da porta. Senta-se, acomoda-se, reajusta-se para uma posição mais confortável e olha à sua volta.
Como sempre, prefere estar afastado dos lugares de maior aglomeração de pessoas e numa posição que lhe permite observar tudo. Tudo menos a parede e a janela que tem atrás de si.
Consulta pela terceira vez o relógio de pulso que usa no braço direito, e olha repetidamente o papel que segura na mão.
Há pouca gente. Não mais de uma dúzia de almas. A sala, ampla e solene, tem mais de trinta cadeiras perfiladas em quatro filas, todas viradas para o mesmo lado e devidamente espaçadas. Duas mesas de apoio, com espelhos de moldura lavrada por cima de cada uma e jarrões ornamentais, ladeiam o espaço. Num dos cantos da sala habita um relógio de pé, com um som surdo e espaçado; tic tac, tic tac. As paredes forradas a madeira escura ostentam apliques de bronze e, no tecto alto, pende um imponente candelabro. Alinhada a meia altura, uma galeria de retratos exibe fotografias antigas de homens de porte distinto, barbas brancas e olhar severo. Apenas um, visivelmente mais recente, surgia de cara rapada.
O silêncio é sepulcral. Ninguém se mexe, com receio de violar aquela quietude densa.
Ouve-se ao longe, vindo de parte incerta, um toque … terriiim, terriiimmm! Baixinho, quase tímido, mas mesmo assim suficiente para perturbar o silêncio.
A senhora do puxo acinzentado estremeceu, segurando com um pouco mais de força o saco plástico que tinha no regaço. O senhor corpulento e com calvície acentuada que estava quase a seu lado, olhou para o tecto enquanto revirava os olhos com impaciência. A criança de óculos olhou para o local de onde teria vindo o toque e ensaiou umas palavras, mas a mãe silenciou-a com um gesto autoritário e um olhar incisivo, regressando à postura anterior, com ombros descaídos e queixo colado ao peito. Junto à porta, a mulher ajeitou a postura e alisou com ternura a barriga proeminente de uma gravidez já perto do fim. O casal mais idoso trocou um olhar cúmplice e sorriu candidamente. A outra criança, de cabelo louro e comprido, agarrou a mão do pai enquanto disfarçava um risinho. O adolescente de ar desalinhado, com os olhos cravados no ecrã do telemóvel, nem pestanejou. E o senhor de fato e gravata, de costas hirtas e postura grave, tirou do bolso um lenço imaculadamente branco e tossicou discretamente para ele.
O som parou ao terceiro toque, deixando atrás de si um eco ainda mais pesado. Pedro desviou os olhos do senhor do lenço e fixou-os nas próprias mãos, húmidas, repousadas sobre os joelhos. Sentia o roçar frio do vento nos vidros das janelas atrás de si, o único murmúrio do mundo exterior que conseguia ultrapassar a barreira daquela madeira nobre.
Olhou de relance para o relógio de pé, cujos ponteiros pareciam arrastar-se com uma lentidão deliberada. Por que razão toda a gente guardava aquele decoro quase religioso? Naquela sala havia um luxo contido, um asseio excessivo onde cada um aguardava, medindo o tempo pelo compasso arrastado dos ponteiros do relógio.
Pedro observou o homem do lenço. Pela postura rígida e pelo vinco da calça, deduziu que seria um advogado habituado a ditar sentenças. Um homem habituado a ser servido e obedecido, agora ali encolhido e reduzido à mesma impotência dos outros, obrigado a aguardar o veredicto de outrem enquanto tenta segurar a dignidade pela dobragem impecável do lenço.
E a senhora do puxo? Observando a maneira como se encolhe na cadeira, poderia ser alguém que passara a vida em salas de espera, de repartições públicas ou hospitais, habituada a ser invisível e a pedir desculpa por existir.
E a mulher grávida? Tão jovem, a proteger o ventre com as duas mãos como se a sala fosse um lugar perigoso. Seria uma consulta de rotina ou a urgência de quem procura uma resposta que não quer ouvir?
E a indiferença do jovem adolescente? Apertava o telemóvel de tal forma e com tanta força, que os nós dos dedos tinham perdido a cor. Seria desrespeito ou um refúgio para esconder algum receio do que pudesse vir a passar-se do outro lado da porta? Ou estaria só a jogar?
Ah, e o casal de idosos? Os olhares calados e os sorrisos cândidos. Pedro julga ver que não estão ali por um deles, mas como um só. Se um cair, o outro vai a seguir, e sorriem.
Ninguém fala com o vizinho do lado. Ninguém sorri quando os olhares se cruzam. Ninguém pergunta seja o que for.
De repente, o ranger da madeira da porta ao fundo fez com que todas as cabeças, excepto a do rapaz do telemóvel, se voltassem em simultâneo. Um homem apareceu no limiar, com uma pasta de cabedal debaixo do braço.
– Senhor Pedro Bettencourt? – chamou, com uma voz desprovida de tom.
Pedro levantou-se.
Por um momento sentiu o olhar de toda a sala cravar-se nele. Todos pareciam respirar outra vez.
Era o primeiro!

