APRESENTAÇÃO DE UMA SÉRIE DE TEXTOS SOBRE OS LEOPARDOS QUE QUEREM BEM SERVIR BRUXELAS- DA ITÁLIA, FALE-SE ENTÃO DE UM BOM EXEMPLAR – por JÚLIO MARQUES MOTA

mapa itália

As eleições europeias realizaram-se. Um pano de fundo cobriu os resultados em Portugal, por culpa dos próprios resultados, por culpa de ambições pessoais de alguns, por culpa de free-lancers que obtiveram resultados eleitorais que os dirigentes dos partidos clássicos não esperavam, mas que os cidadãos normais, aqueles que andam a pé, aquele que andam de autocarro, aquele que sabem escutar as suas dores e as dos outros mesmo no silêncio das bocas fechadas que falam, e por vezes de que maneira, sabiam que isso poderiam acontecer. A classe política está muito por baixo, entretida a fazer contas eleitorais em abstracto e a jogar com elas e a não se entender com o zé povinho que caminha na sua solidão, esmagado pelas decisões políticas cuja racionalidade não entende, enquanto o free-lancer do Marinho Pinto o povo soube perceber, mas dizendo também ele o mínimo possível para não ferir mais tarde possíveis acordos não sei com quem. Soube entender, soube falar, soube mesmo mostrar que sabia sentir e ganhou. Ganhou e deu uma vitória brutal à direita porque esta, por seu lado, compreendeu claramente que os seus adversários políticos de referência, o PS, apenas o tinham ultrapassado e por pouco face à hecatombe esperada e temida. O PS vive entretanto em pura dilaceração, porque António Costa publicamente considerou que a responsabilidade da não vitória massiva era da responsabilidade de um homem, António José Seguro, e não de uma ratoeira política em que se vive aterrorizado na Europa, debaixo da pata da senhora Merkel. Coincidência ou não, aconteceu o mesmo em Itália mas antes das eleições. Por um “golpe “ interno o primeiro-ministro em exercício, uma boa rês, diga-se de passagem, foi derrubado e substituído por Matteo Renzi. Que garantidamente não será melhor. A ver vamos.

Sobre este tema disse-se nos media na altura:

“Antes da demissão de Letta, os analistas consideravam que Renzi estava a fazer um jogo muito arriscado porque ao derrubar o Governo e ascender à chefia do executivo por via parlamentar ficava com uma fraca legitimidade. O comentador do La Stampa, Giovanno Orsina (professor de ciência política em Roma), considera que Renzi deveria esperar e passar pelo teste das eleições para chegar ao poder.

“Esta será apenas mais uma vez que o partido tomará decisões potencialmente suicidas. Gostava de os convidar á serenidade antes do momento fatídico. Mas seja qual for a escolha que façam, será má”, comentava ao La Stampa o editorialista Massimo Gramellini.”

Na época publicámos um artigo em se falava que com Renzi era já o terceiro primeiro-ministro sucessivo de Itália não saído directamente das urnas a governar a Itália. Um amigo meu, ficou todo irritado quando falámos de Renzi como o homem de Bruxelas, o homem das reformas neoliberais a aplicar e que era também o homem que se preparava assim para as Europeias. Exagero ou não da nossa parte, a realidade aí está a mostrar o que se passa com Renzi.

Mas entretanto um dado curioso, a propósito de Bruxelas e das manobras políticas, talvez dirigidas a partir desta capital ou pelo menos com o seu apoio. A Espanha como sabemos, do ponto de vista da crise, não estava nada melhor que nós. Porém, no final de Fevereiro de 2014, praticamente em paralelo com a manobra de Renzi e a meses das eleições europeias, eis que Rajoy oferece aos espanhóis uma outra política fiscal, supostamente o inverso da que tinha andado a fazer sob as ordens de Bruxelas e sem que nada tenha mudado, nem os défices públicos diminuíam, nem a dívida descia. Informava o jornal Público de então:

“Rajoy apareceu no Parlamento decidido a dar uma “volta de 180 graus” na percepção negativa que muitos dos votantes que o elegeram Rajoy em 2011 têm sobre a actuação do Governo, escreveu o jornal espanhol Público. E no dia em que a Comissão Europeia reviu em alta as previsões económicas do país para 2014 (um crescimento de 1%) e para 2015 (1,7%), o executivo centrou o discurso na recuperação económica do país.

Aplaudido nas bancadas do Partido Popular, mais tarde criticado pelos socialistas pelo “discurso apocalíptico, Rajoy disse que o rumo é para manter. ““Sem nenhum tipo de triunfalismo, nem de complacência”, disse.

No debate no Parlamento, Rajoy anunciou ainda medidas de estímulo à contratação e ao investimento. As empresas que contratem trabalhadores por termo incerto terão uma redução de 100 euros por mês das contribuições para a Segurança Social durante dois anos. “Estamos em plena recuperação e o Governo está com os mais débeis. Para isso é necessário potenciar os trabalhadores e, por isso, o Governo aprovará uma estratégia para o emprego este Verão”, prometeu.

Para o secretário-geral do PSOE, Alfredo Pérez Rubalcaba, o presidente do Governo não falou do país real. “Em que país vive, senhor Rajoy?”, desafiou, passando em revista as medidas de austeridade lançadas pelo Governo conservador.” Assim concluía o jornal Público.

E, dizemos nós, Rajoy prometeu então fazer o inverso do que pretende Bruxelas. Prometeu-o antes das eleições europeias e ganhou as eleições europeias, mesmo perdendo milhões de votos. Com o PSOE aconteceu a mesma coisa, a classe política anda muito por baixo, dissemos atrás. Agora, Rajoy apresentou o programa de benefícios fiscais em Junho deste ano, a preparar as próximas eleições legislativas, sem que de Bruxelas se tenha ouvido um único protesto e isto quando os défices ultrapassam e de longe as metas estipuladas. Desse plano, falamos no presente texto.  Quanto ao silêncio de Bruxelas, pudera, os resultados eleitorais assustaram, ou por serem muito à direita ou muito à esquerda. Salutares estas eleições,  é o mínimo que se pode dizer.

Ora com os resultados eleitorais, Renzi teria sido o único líder socialista a ganhar eleições! Fala-se agora de António Costa em Portugal a tomar uma posição equivalente à de Renzi no que se refere ao interior do seu partido. Renzi forçou a demissão de Letta, o golpe interno, para assumir depois e por via da coligação com Berlusconi o poder em Itália. Trata-se de ganhar massivamente as próximas eleições e assim há quem fale assim de António Costa como o Renzi português, a fazer cair Seguro para ganhar depois as eleições próximas, as legislativas, porque esperam que ele ganha internamente e que apareça como o salvador do país. Triste analogia na minha opinião que é feita, triste visão da política em que um partido é, afinal, apenas ou sobretudo um homem.

E para que fique bem claro quem é afinal o homem de Bruxelas em Itália, Matteo Renzi, pensamos assim que será portanto útil mostrar o que representa a pessoa que está à frente do governo de Itália, que políticas propõem, que perspectivas de Europa lhe estão subjacentes e se afinal, o seu discurso e a sua prática é ou não a de servir Bruxelas, mostrando-se para isso como um Leopardo, de maior ou menor qualidade.

Ficamos assim a saber os Leopardos que Bruxelas à la limite pode apoiar e sinceramente ficamos a esperar que o PS não seja sujeito a vitórias deste tipo, uma vez que é dele, Matteo Renzi, que se fala agora como um exemplo. Fiquei espantado com os elogios claramente explícitos à sua vitória como igualmente com os elogios que foram feitos sobre o seu discurso relativamente à Europa quando a Itália assumiu a Presidência. E esses elogios vieram de vários quadrantes à esquerda.

Iniciaremos assim uma série de 21 artigos sobre Itália, retratos de um país prisoneiro de uma zona euro dilacerada pelo imperialismo alemão e pelo mercantilismo de características chinesas. E como nem tudo é mau, ofereço-vos umas aulas de inglês, a partir de Matteo Renzi. Dois links para se ver como fala bem inglês ou de como se esforça e muito para tal, nem que seja à custa de …de…de..de.

A seguir ao trabalho agora apresentado publicaremos um artigo de Il Manifesto, Renzismo alla prova d’Europa, de Lelio Demichelis, onde se compara o populismo de Matteo Renzi com o de Berlusconi e, por fim, terminaremos com um artigo de Stefano Fassina, do Partido democrático, com o título La sinistra che non cambia è destra.

Dessa série, o primeiro artigo, uma montagem de textos de diversos sites reconhecidos pela sua qualidade, sob o tema e com o título E se Renzi escutasse as corujas.

Júlio Marques Mota

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