(continuação)
4 – Causa remota
Pinço, quase ao acaso, alguns exemplos que demonstram a familiaridade e o afeto de nosso autor com o país vizinho. Esse convívio íntimo se deu na mais tenra idade, sustentado pelas frequentes viagens realizadas pela família Borges a este país do Prata – pai, mãe e irmã – especialmente no verão, época de férias do pai. Periodicidade, a rigor, jamais interrompida. Penso, já, nas palavras com que o escritor abre sua autobiografia: “Não posso precisar se minhas primeiras lembranças remontam à margem oriental ou ocidental do turvo e lento rio da Prata; se me vem de Montevidéu, onde passávamos longas e ociosas férias na chácara de meu tio Francisco Haedo, ou de Buenos Aires”[1]. Também me ocorre a intensa e comovente dedicatória a Leonor Acevedo de Borges, na qual o filho lhe agradece, entre outros bens recebidos, “as manhãs del Paso del Molino”, antigo bairro montevideano. Eis aí a causa remota do complexo e imprevisível concurso de circunstâncias que o trouxe até a nossa cidade e o fez testemunha acidental da morte de um homem.
No livro Borges, sus días y su tiempo, o escritor, respondendo à pergunta sobre suas primeiras lembranças da irmã Norah, confidencia:
Não sei à qual margem do grande rio barrento, que um excelente escritor a quem todos queremos batizou com o nome de rio imóvel, posso atribuir as minhas primeiras lembranças de minha irmã. Se correspondem à margem direita, que é a de Buenos Aires, devo pensar em uns pátios de ladrilho vermelho, num jardim com uma palmeira e com corticeiras e em um bairro modesto; se pertencem à margem esquerda, a de Montevidéu, na grande quinta de meu tio, Francisco Haedo, inesgotável e profunda, com um mirante de cristais de diversas cores, com muitas árvores, com um tanque sombreado, com um arroio, quase secreto, com dois caramanchões e dois bancos de alvenaria no calçamento. Utilizávamos esses lugares para fins cênicos. (…) Ali representávamos as ficções de Wells, de Verne, das Mil e uma noites, de Poe; como somente éramos dois (salvo em Montevidéu, onde nos acompanhava minha prima Esther) multiplicávamos os papéis e éramos, de um momento a outro, personagens mutáveis da fabulação. (Vázquez, 1984, p.41)
No arroio secreto da quinta de seu tio Francisco – na detalhada e terna descrição feita anos depois à amiga Maria Esther – o menino Borges aprendeu a dar suas primeiras braçadas. Mais tarde, se lançou a nadar na praia montevideana de Pocitos. A natação foi o único esporte que praticou, e com gosto, tendo chegado mesmo a ser um bom nadador.
Ao responder a Cezar Fernández Moreno pelas lembranças da infância, em Farto dos labirintos[2], diz:
As primeiras lembranças que tenho são lembranças de um jardim, de uma grade, de um arco-íris que não sei de que lado do rio fica. Podem ser do bairro Palermo, podem ser de uma chácara de Adrogué, ou pode ser de outra chácara de um tio meu, Francisco Haedo, no Paso del Molino, em Montevidéu. (…) e não sei em qual margem do Rio da Prata situá-los: no lado oriental ou ocidental. (Monegal, 1987, p.152)
Fernández Moreno insiste: “Me impressionou isso que você disse no começo sobre não saber diferenciar bem entre os dois lados, oriental e ocidental, do Rio da Prata.” Ao que Borges responde: “Isso também corresponde ao meu sangue, também por meu avô [3]… Além disso, vejo os dois [lados] tão unidos”.
O interlocutor prossegue: “Poderia distinguir na sua personalidade elementos uruguaios e argentinos, elementos orientais e ocidentais? São muito parecidos? Você não encontra nenhum matiz de diferença?”
Borges, entre sério e brincalhão, responde:
Quero ficar mal com os orientais. Acho que nós, os argentinos, produzimos melhor literatura. (…) Mas o que é estranho é que no Uruguai há um grande fervor literário e um respeito pela poesia. (Monegal, 1987, p. 165)
Na mesma entrevista, Fernández faz notar ao escritor que, certa vez, ele havia dito que o Paisano Aguilar de Enrique Amorim era melhor que Don Segundo Sombra, de Ricardo Güiraldes.
Eu continuo pensando isso. Além disso, Amorim está muito mais perto dos paisanos e dos gaúchos do que Lugones. Lembro que estive com Amorim perto da fronteira uruguaia com o Brasil. Fomos a umas carreiras e eu vi duzentos ou trezentos homens endomingados para as carreiras. Então, eu, como portenho, disse ingenuamente a Amorim: “Puxa! que é isto?! Duzentos gaúchos!” Palavra que no campo também não teriam usado, teriam dito paisanos ou peões. E aí já se via o homem de letras, no pior sentido da palavra. E então Amorim me olhou com certa matreirice de homem do campo e me disse: “Mas ver duzentos peões aqui e assombrar-se é como se assombrar de ver em Buenos Aires duzentos empregados de Gath y Chavez (Borges ri sonoramente)”. (Monegal, p.170, 1987.)
Em um encontro organizado por Orlando Barone entre Jorge Luis Borges e Ernesto Sabato, no livro Diálogos, a certa altura, este diz: “Todos os países são mais ou menos imaginários. Quem sabe seu Uruguai, Borges”. Borges assente e parece buscar algo com seus olhos, faz uma longa pausa e diz: “Está feito de lembranças minhas da infância. Sim, é um Uruguai imaginário. Mas também meu Buenos Aires. Apenas terei percorrido uma vez ou outra, três ou quatro bairros.”[4]
No livro Genio y Figura de Jorge Luis Borges, de Alicia Jurado, amiga, escritora e parceira em Que es el budismo, estão, mais uma vez, narradas suas vivências da infância:
Iam todos os verões a Adrogué, ao Hotel Las Delicias, que há anos foi demolido. Em fevereiro, mês das férias do pai, visitavam uns primos da mãe de sobrenome Haedo, na sua quinta de Montevidéu, num lugar chamado Paso del Molino. Lá brincavam os três, Norah, Georgie,[5] e uma prima, Esther Haedo (depois casada com o escritor Enrique Amorim); havia um mirante com uma escadinha de caracol e vidros coloridos de onde, sem dúvida, saíram os losangos vermelhos e verdes de “Triste-le-Roy”, em A morte e a bússola. Nesse lugar solitário, os meninos formaram a Sociedade das Três Cruzes, criada para defender o menino de um inimigo imaginário que o queria matar. (…) O tema do perseguidor e o perseguido já procurava expressão nos jogos do menino, como o faria mais tarde, repetidas vezes, nos contos do homem que haveria de chegar. Um verão inteiro eles viveram aterrorizados pelo produto de sua imaginação, que se fez vívida até o ponto em que os três, um dia, na hora da sesta, viram o assassino refletido em um desses terríveis espelhos de guarda-roupas. Era, assegura Norah, pouco nítido e de cor verde (Jurado, 1980, p.36).
Na vida adulta, à época da ditadura do general Perón, em momentos difíceis para o cidadão e o escritor, o Uruguai desempenhou um papel, no mínimo, solidário. Em 1946, destituído pelo peronismo do cargo de bibliotecário municipal de Buenos Aires, tendo sido nomeado para o ofensivo posto de inspetor de aves e coelhos nas feiras e mercados e, em outras versões, para a escola de apicultura, Borges renuncia imediatamente à aviltante indicação. Começou a partir daí a viver uma nova fase em sua vida. Desempregado, aos quarenta e sete anos teve de aceitar convites para proferir palestras e conferências. Sendo ele tímido, não lhe foi tarefa fácil. Ouçamo-lo em entrevista a Roberto Alifano:
Deram-me dois meses de folga para preparar os temas; dois meses de pânico. Lembro que fui para Montevidéu. Estava alojado no Hotel Cervantes e às vezes acordava às duas ou três da manhã e pensava: dentro de trinta e tantos dias – levava a conta – vou ter de falar em público. E depois não podia mais dormir. (…) Viajei ao longo da Argentina e Uruguai falando sobre Swendenborg, Blake, os místicos persas e chineses, o Budismo, a Cabala, a Poesia Gauchesca, as Mil e Uma Noites, Heine, Dante, o Expressionismo e Cervantes (Alifano, 1988, p.108-109).
A roda da fortuna, por ironia da sorte, girou no sentido contrário ao pretendido castigo imposto ao escritor. O ato de destituição da biblioteca lhe apontou um novo caminho mais emocionante que o anterior. Passou não apenas a ganhar mais como conferencista, como também a usufruir do novo trabalho, sentindo-se justificado, segundo confessa para a revista The New Yorker. Caprichos do destino, diz o lugar-comum; no entanto, destino é outro grande tema borgiano. Na História Universal da Infâmia está escrito: “O destino, tal é o nome que aplicamos à infinita operação incessante de milhares de causas emaranhadas, não o resolveu assim”. (Borges, 1967, p.40)
Curioso rumo dos acontecimentos: a observação feita na narrativa ficcional poderia, anos depois, ser aplicada ao dia a dia de nosso autor, particularmente à injuriosa destituição experimentada naquele momento. Ironia da vida exposta antes na ficção. Essa mescla entre o real e o fictício é um traço peculiar do escritor Borges. Mais um sugestivo exemplo do jogo das coincidências e das conexões que, de um modo especial, sempre chamou sua atenção. É bom lembrar que, a par da ideia de destino, corre a de seu reverso: a do acaso. Constituem duas noções formando uma combinação: a do predeterminado e a do imprevisível. Duas faces da mesma moeda. Na introdução aos Nueve ensayos dantescos, lê-se: “O acaso (salvo que não há acaso, o que chamamos acaso é nossa ignorância da complexa maquinaria da causalidade) me fez encontrar três pequenos volumes na livraria Mitchell’s…” (Vázquez, 1996, p. 316).
Para encerrar, transcrevo um poema, em português, de uma entrevista concedida pelo poeta a Alessandro Porro. Pergunta o jornalista a Borges se naquele momento estava ele escrevendo. “Sim, muito, e com pressa. Tenho pouco tempo. (…) E, além disso, poesia, muita poesia, antes que ‘Ela’ a morte, chegue. ‘Ela’ agora está perto.” A longevidade não é coisa rara em sua família, diz Porro. Sua mãe morreu aos 99 anos. Faz alguns meses, o senhor disse que estava escrevendo um poema pensando nessa chegada. Ao que Borges responde: “Sim, e ficou muito bom. Uma bela página, escute”:
Em qual de minhas cidades terei de morrer? Em Genebra, onde recebi a revelação – não certamente de Calvino – senão de Virgílio e de Tácito? Em Montevidéu, onde Luis Melián Lafinur[6] cego e carregado de anos, morreu entre os arquivos daquela imparcial história do Uruguai que nunca escreveu? Em Nara, onde num albergue japonês dormi no piso e sonhei com a terrível imagem de Buda que eu havia tocado sem ver, mas que vi sonhando? Em Buenos Aires, onde sou quase um forasteiro? Em Austin, Texas, onde minha mãe e eu, no outono de 61, descobrimos a América? Em que idioma terei de morrer? No castelhano, que usaram meus antepassados para comandar uma carga ou para jogar truco? No inglês daquela Bíblia que minha avó lia diante do deserto? E que horas serão? As do crepúsculo da pomba, quando não existem cores, ou as do crepúsculo do corvo, quando a noite simplifica e abstrai as coisas visíveis? Ou numa hora trivial, às duas da tarde? Estas perguntas não são digressões do medo, mas da esperança impaciente. São parte da trama fatal de causas e de efeitos que nenhum homem pode prever e nenhum deus. (Revista Veja, 17 de setembro, 1980).
Entre as lembranças da infância e o que exprime o poeta aos 81 anos, passaram-se muitos anos, quase todas as idades… e Montevidéu perdurou em Borges como uma de suas cidades. Uma leitura, agora, de outro poema seu em Luna de Enfrente (segundo livro de poesias datado de 1923) pode ser, nesse sentido, ilustrativa. Transcrevo o poema no original por não me atrever, sem dúvida sabiamente, a traduzir poesia. Não haverá, estou certa, qualquer impedimento à sua leitura em espanhol, uma vez que todo o público aqui presente – gente da nossa fronteira tão singular – a domina ou com ela tem grande familiaridade. Escutemos o jovem poeta então com 24 anos:
Montevideo
Resbalo por tu tarde como el cansancio por la piedad de un declive.
La noche nueva es como un ala sobre tus azoteas.
Eres el Buenos Aires que tuvimos, el que en los años se alejó quietamente.
Eres nuestra y fiestera, como la estrella que duplicará las aguas.
Puerta falsa en el tiempo, tus calles miran al pasado más leve.
Claror de donde la mañana nos llega, sobre las dulces aguas turbias.
Antes de iluminar mi celosía tu bajo sol bienaventura tus quintas.
Ciudad que se oye como un verso.
Calles con luz de patio.
(Borges, 1974, p. 63)
(continua)
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