“DEBAIXO DE ALGUM CÉU” DE NUNO CAMARNEIRO – “A EXPLORAÇÃO DA IDEIA DE PURGATÓRIO” por Clara Castilho

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Ainda há pouco tempo falei sobre um cientista que anda a escrever romances (João Maqueijo). Hoje, encontrei-me com outro. Nuno Camarneiro é engenheiro físico nuclear; muito próximo do anterior? Que tem a física nuclear que leva os seus investigadores a “terem” que escrever?nuno camarneiro

Nuno Camarneiro, nascido na Figueira da Foz, é investigador e professor. . Em Portugal trabalha na área da Física e Química, fazendo simulação computacional de moléculas e dando ainda aulas aos alunos de Restauro da Universidade Portucalense, de Ciências Aplicadas aos Bens Culturais. Foi membro do GEFAC (Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra) e do grupo musical Diabo a Sete, tendo ainda integrado a companhia teatral Bonifrates. Trabalhou no CERN (Organização Europeia para a Investigação Nuclear) em Genebra e concluiu o doutoramento em Ciência Aplicada ao Património Cultural em Florença.

Há dois anos ganhou a 5ª edição o Prémio Leya ( que pode ser também dado a autores estrangeiros), sendo o 2ª vez que foi alcançado por um português, com o livro Debaixo de Algum Céu, no valor de 100 mil euros.

Definem o romance como “urbano”, pois a acção se passa à volta de um prédio de apartamentos à beira-mar.  Segundo o seu autor é uma “exploração da ideia de purgatório” .

O júri do Prémio LeYa 2012, presidido por Manuel Alegre, é ainda constituído pelos escritores Nuno Júdice, Pepetela e José Castello, por José Carlos Seabra Pereira, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Lourenço do Rosário, reitor do Instituto Superior Politécnico e Universitário de Maputo, e Rita Chaves, crítica literária e professora da Universidade de São Paulo.

Fiquemos com uma passagem:

“O tempo é uma merda. O tempo é uma merda porque corre sem mim mas eu estou sempre nele, e isso é uma merda. Há coisas que devo fazer e não faço, que ainda não fiz. Não quer dizer que não as vá fazer, só que ainda não as fiz porque o tempo passou antes que me apetecesse ou me convencesse a fazê-las. Há dias certos para certas coisas e é preciso saber disso, esperar por eles, ter atenção ao ritmo das coisas, como uma dança com alguém, sim, isso, dançar com as coisas.

Às vezes durmo e sonho com o que me atormenta e me pressiona, ascoisas chamam-me e pedem-me que pegue nelas e lhes dê caminho, deveres, tarefas, estudo, um telefonema, uma mensagem urgente que devo mandar. Depois acordo num dia adverso, de chuva ou de calor, um dia lento ou de recordar outros, e não posso fazer nada, porque não está certo, porque não estou certa, porque não.

Se calhar a preguiça é como a consciência, uma voz sumida mas certa no que diz e que não adianta contrariar. Um ritmo que é de gente, um impulso ou a falta dele, como ir à casa de banho, comer ou dar um beijo numa boca. Mas eu não sei de beijos, só ideias, algum desejo e nada mais. (pag. 107)”.

Nuno quer continuar a escrever, assim como continuar a fazer ciência. Força! Precisamos das duas coisas.

É o autor do blogue www.acordarumdia.blogspot.pt.

 

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