O FESTIVAL VILAR DOS MOUROS DE 1971 – SUA IMPORTÂNCIA PARA OS JOVENS DE ENTÃO por Clara Castilho

Já passou. A edição deste ano do Festival Vilar de Mouros ocorreu seis anos depois última edição, 43 depois da primeira, o histórico festival Vilar de Mouros, em 1971, desta vez organizado por uma Instituição Particular de Solidariedade Social, a AMA – Associação de Amigos do Autismo, em colaboração com a Câmara Municipal de Caminha e com a Junta de Freguesia de Vilar de Mouros, naquilo que se chamou  “o primeiro grande evento de Economia Social”.

vilar de mouros

 O músico português José Cid fez a ponte entre o primeiro e este festival. Em 1971 teve um formato até então impensável para a época. Pode dizer-se que havia liberdade de expressão e de estar, impensável, até então, noutros locais do país. Entre as 30.000 pessoas que assistiram ao festival muitos eram os hippies oriundos de vários pontos da Europa. É considerado pela crítica nacional e internacional como o Woodstock português.

A PIDE esteve presente, assim como um pelotão de 45 homens da GNR do Porto, mas mantiveram uma atitude discreta. Na altura não soubemos mas agora tivemos acesso ao Relatório da PIDE/DGS sobre este Festival, pois foi publicado pela revista Sábado, da qual transcrevemos partes.

 ‹‹Informação nº 226-C.I.(I)

Assunto: Festival de música “Pop” em Vilar de Mouros

 “Dias antes do festival, foram distribuídos, nas estradas do País e nas estradas espanholas de passagem de França para Portugal, panfletos pedindo aos automobilistas que dessem boleias aos indivíduos que iam ver o festival.

[…] Um dos cantores, Elton John, causou desde o começo má impressão, com os seus modos soberbos e as suas exigências: carro de luxo para as deslocações, quartos de luxo para os acompanhantes e guarda-costas, etc. O recinto do festival era uma clareira cercada de eucaliptos, com um taipal à volta e uma grade de arame do lado do ribeiro.

Na noite de 7 estavam muitos milhares de pessoas e muita gente dormiu ali mesmo, embrulhada em cobertores e na maior promiscuidade. Entre outros havia: crianças de olhar parado indiferentes a tudo; grupos de homens, de mão na mão, a dançar de roda; um rapaz deitado, com as calças abaixadas no traseiro; um sujeito tão drogado que teve de ser levado em braços, com rigidez nos músculos; relações sexuais entre 2 pares, todos debaixo do mesmo cobertor na zona mais iluminada; sujeitos que corriam aos gritos para todos os lados; bichas enormes a comprar laranjadas e esperando a vez nas retretes (havia 7 ou 8 provisórias) mas apesar disso, houve quem se aliviasse no recinto do espectáculo; porcaria de todo o género no chão (restos de comida, lama, urina) e pessoas deitadas nas proximidades.

[…] A população da aldeia, e de toda a região, até Viana do Castelo, a uns 30 km de distância, estava revoltada contra os “cabeludos” e alguns até gritavam de longe ao passar “vai trabalhar”.

[…] Houve gritos de Angola é… (qualquer coisa) durante a actuação do conjunto Manfred Mann (de que faz parte um comunista declarado, crê-se que chamado Hugg).

[…] Toda aquela multidão de famintos, sem recursos para adquirir géneros alimentícios indispensáveis, como se de uma praga de gafanhotos se tratasse, se lançou sobre as hortas próximas colhendo batatas e outros produtos hortícolas, causando assim, grandes contrariedades aos seus proprietários, muitos deles de débeis recursos económicos”.

Não terá sido só a PIDE-DGS a pensar desta forma. Por essa altura, muitos destes comportamentos não eram aceites. Agora, nos múltiplos festivais que vão ocorrendo, poder-se-ia escrever quase o mesmo que o relatório da PIDE, retirando-lhe o tom reprovatório.

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