CONTOS & CRÓNICAS – “O presépio de Laila” – por Adão Cruz

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Lembram-se, com certeza, da Laila, aquela menina de um pequeno conto que anda por aí na net, aquela miúda que procurava, sem que ninguém entendesse bem porquê, viver a vida às avessas.

Aquela moça que nunca fora feliz, que nunca atravessava a rua pela passadeira, que entrava nas portas sempre às arrecuas e não beijava o Senhor na visita do compasso, que puxava o manto do Senhor dos Passos na procissão da Paixão, que não rezava nem comungava e fazia caretas às zeladoras do coração de Jesus, aquela a quem o padre, quando ela era criança, queria pôr, à sua maneira, a alma direita e os sentimentos dentro do corpo.

Pois ela encontrara-o há mais ou menos um ano. Ele subia a rua pelo lado direito em direcção à igreja e ela descia pelo lado esquerdo em direcção ao cemitério. Reconheceu-o, apesar de não levar batina nem cabeção, e pediu-lhe desculpa por descer a rua do lado oposto ao seu. Sentiu no peito um súbito impulso, como que um repelão, atravessou a rua de costas para ele e deu-lhe tamanho apertão na ferramenta que ele gemeu, ao mesmo tempo que lhe desejava Bom Natal.

Para ela o Natal fora sempre uma quadra desenquadrada, uma espécie de buraco negro sem fundo que a arrepiava. Lembrava-se, ainda pequena, que era pelo Natal que ele lhe enfiava a mão pela saia acima e lhe dizia “ai meu menino Jesus!”.

Mas o que lá vai lá vai. Só que não foi nem vai, ficou-lhe de tal modo agarrado à pele, que não há sabão que a lave. Todos os natais ela sente-se a tresandar a virtude e a mofo de sacristia. Só faz xixi em casa e de luz apagada, lava-se a toda a hora e momento, besunta-se de cremes e perfumes e veste sempre um vestido vermelho. O psiquiatra cansara-se de lhe dizer para ela encarar o presépio como uma coisa natural, um sonho bonito cheio de ternura, mas ela sempre cismara em desfazer todos os presépios que encontrasse pela frente.

A Laila tem 20 anos e este Natal arranjou um namorado. O Lauro, da mesma idade, trabalha como ajudante de electricista, habituado a fazer faísca. Mas com Laila a coisa custa a pegar. Comprou-lhe uma fiada de pequeninas lâmpadas de muitas cores e com elas envolveu-lhe o colo e a cintura do vestido vermelho, dizendo que ela era a sua luz e nunca mais a apagaria. Ela nunca ouvira coisa tão linda e pela primeira vez, desde há muitos anos, sorriu. E o moço reparou que ela tinha um sorriso muito bonito e tinha ficado contente.

Mas o Lauro, sempre à espera de alguma descarga, tem-se visto às aranhas para lhe dar a volta, que é como quem diz, inverter a ficha, alternar a corrente, virá-la do avesso, isto é, pô-la definitivamente a viver a vida às direitas. Ele sabe da aversão de Laila pelo Natal e pelo presépio, ele que é tolinho pelas luzes do Natal e tem um jeitão para fazer e iluminar presépios!

Não teve outro remédio senão moldar-se à feição de Laila, pois já o psiquiatra dissera que não havia outra forma de cura. Combinaram então uma vida a meias, entre direito e avesso, entre passado e futuro com o presente no meio, e fazer um presépio a gosto dos dois. Ele encarregava-se da cabana, das luzes e da estrelinha e ela dos bonequinhos. Assim nasceu o presépio de Laila, com o burrinho no lugar do menino, a vaquinha no lugar da mãe e, imaginem, nem Lauro sabe porquê, o Batman no lugar do pai!

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