EDITORIAL – Palavras e imagens

logo editorialHoje não falaremos da Palestina de onde continuam a chegar notícias, palavras e imagens, que dilaceram a esperança que se possa ter na humanização da humanidade, no entendimento humano. As imagens de corpos despedaçados de crianças e as palavras dos assassinos que, com a força que a impunidade lhes dá e num registo de determinação e de heroicidade, afirmam que continuarão a assassinar – imagens e palavras que começam a banalizar o horror. A dentada de Luis Suárez em Chiellini faz esquecer o míssil israelita que mata uma dezena de pessoas. Mas hoje não queremos falar da Palestina. Hoje, vamos abordar um tema diferente – o da semiótica.

Atribuída a Confúcio a afirmação de que uma imagem vale por mil palavras, foi o conceito adoptado e transformado em lugar-comum. Se a imagem for de um grande fotógrafo ou de um mestre da pintura e as palavras de um mau escrevedor, claro que sim. E as palavras de um mestre da escrita não valerão mais do que as de um qualquer pinta-monos?

Eduardo Galeano falou sobre o poder, a força da palavra. Paul Éluard descreve como par le pouvoir d’un mot a realidade se transforma. E um bardo persa do primeiro milénio foi ao ponto de afirmar que tudo o que não é registado em palavras é como se não tivesse acontecido. Julio Cortázar alertou-nos sobre a manipulação da palavra.

E é sobre esse passe de prestidigitação que coloca um vocábulo a significar o seu contrário que incide a nossa reflexão. Terrorismo e «operação de limpeza», são coisas diferentes – o terrorismo é hediondo, enquanto que higienizar é sempre louvável – mesmo que o terrorismo mate uma pessoa e a operação de higiene vitime cem. Hoje, raios nos partam, não falaremos da Palestina. Infelizmente, não porque o tema tenha deixado de estar na ordem do dia, mas porque nos temos de preparar para continuar a assistir a este horror e porque as palavras se gastam, se banalizam e perdem força de tanto serem usadas – temos de as poupar, de as usar com parcimónia. E as imagens que mostram uma realidade inimaginável são das que dão razão a Confúcio. A semiótica estuda imagens, palavras, e todos os fenómenos culturais, desde um concerto de Beethoven a um poema de Éluard ou a um vídeo acabado de chegar da faixa de Gaza –  e nesta disciplina onde confluem  os sistemas sígnicos – palavras, cores, sons – esfuma-se a dicotomia palavra-imagem.  A semiótica ocupa teóricos de nomeada – Roland Barthes, Umberto Eco… – é uma ciência em cuja linhagem surgem trabalhos como os de John Locke que, em 1690, publicou Ensaio acerca do Entendimento Humano (An Essay Concerning Human Understanding. Nele, Locke afirma que todas as pessoas nascem sem saber absolutamente nada, como se fosse uma “folha em branco”. Locke não sabia que séculos depois iriam aparecer crianças que nascem culpadas por túneis e por foguetes que perturbam a sesta de gente que pertence a um «povo eleito» e perante o qual a humanidade contraiu um dívida tão grande que esse povo tem um crédito ilimitado, uma espécie de gold card que lhe permite exterminar quem se lhe atravesse no caminho.

E lá conseguimos escrever um editorial que não falasse na Palestina.

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