Há dois anos, no dia 10 de Agosto, por ocasião do 100º aniversário do grande romancista baiano, o nosso blogue dedicou-lhe uma edição especial dirigida pelo saudoso Sílvio Castro, amigo de Amado. Nélida Piñon, também ela uma famosa ficcionista, colaborou com o texto «O terno Jorge Amado»:
O TERNO JORGE AMADO – por Nélida Piñon
O sobrenome de Jorge, Amado, desde o berço emitiu sinais de que viria a ser amado pelo seu povo. Aquele homem, que tinha a cara de árabe, mas de jeito baiano, estava destinado a criar uma obra que deitaria raízes no imaginário do seu povo.
Tudo nele apontava para esta configuração brilhante, particular e universal. Distinguia-se, onde estivesse. E não porque falasse alto, ditasse regras, adotasse atitudes canônicas. Seduzia devagar, com os olhos vagando pela paredes da sala e do mundo. Andava, porém, com firmeza, diria mesmo com sutil leveza. Seu corpo falava, tudo nele dizia que era alguém sabendo por onde pisava. Certo do seu percurso.
Embora se sentisse a gosto em Paris, em Barcelona, em Lisboa, em diversas cidades do mundo, onde casualmente estivemos juntos, ostentava com naturalidade sua condição de brasileiro. Às vezes, usando camisas tropicais, outras vezes, em especial nos últimos anos, envergando um terno nunca convencional, ou mesmo com o fardão da Academia Brasileira de Letras, de que era membro. Mas sempre um cidadão da Bahia que converteu o seu cosmopolitismo em matéria brasileira.
Comovia-me vê-lo ao lado de Zélia Gatai, companheira inseparável de cinqüenta e tantos anos, um amparando o outro, cada qual se vendo no olhar que partilhavam. Quantas vezes, entre amigos, entretido com uma conversa alimentada de peripécias, era comum vê-lo esquecer-se de algum detalhe rigorosamente insignificante. Nestas horas, porém, sem sofrer por não se lembrar algo que bem poderia substituir pelos recursos da invenção, aprazia-o recorrer a Zélia. Seu alter-ego, sua mulher amada, cabia a ela, então, completar o que lhe estava faltando, de modo a continuar a sua narrativa oral.
Zélia Gattai, então, dona de uma memória a serviço de Jorge Amado, provia-o imediatamente com receitas culinárias, com letras de bolero ou de tango, com evocações miúdas, o que enfim lhe fizesse falta. Tudo que ele próprio, grande romancista, não dera aparente atenção, mas que estava certamente incorporado à sua matriz de criação, capaz portanto, a qualquer momento, de gerar preciosos elementos para as suas construções ficcionais.
Este homem, sempre generoso, conquanto cercado de admiradores, de aplausos, jamais deixava de olhar em torno em busca do rosto amigo, na ânsia de incorporá-lo à sua glória, à sua história pessoal. Valorizava a amizade, os gestos imorredouros, a lealdade. Dava contínuas e explícitas provas da existência do próximo.
Foi meu leitor, nos idos de 60, antes mesmo da minha estréia literária, sem eu lhe ter pedido. Confessou, então, haver gostado do livro. Suspeito, porém, que seu julgamento estético obedecera a um rasgo de generosidade. Quem sabe enternecido com uma jovem que também elegera a literatura como forma de viver. Em quem via igual paixão pelo romance que ele, com sua obra, demonstrava publicamente.
Recordo o jantar que o compositor do musical Dom Quixote, grande sucesso então na Broadway, ofereceu-lhe em 1978, no restaurante Four Seasons, em Nova York, por motivo de Jorge e Zélia Amado haverem legalizado naqueles dias uma união conjugal iniciada em 1945.
Com que alegria os noivos, em meio aos amigos, entre os quais se destacava o grande editor Alfredo Machado, outro brasileiro cosmopolita, assopraram as velas do bolo de vários andares, celebrando os filhos Paloma e João Jorge, os netos, que haviam ficado na Bahia.
Ainda nesta semana, celebramos na casa de campo de Alfred Knopf, fundador da mítica editora americana, seus oitenta anos. Tive, então, perfeita noção de estar presenciando o singular encontro entre duas grandes personalidades do mundo da cultura, enquanto bebíamos aquele champagne americano que Nixon bebera com Mao Tse-Tung, em Pequim, por motivo do reatamento diplomático entre a China e a USA. Nesta ocasião, registrei a naturalidade com que Jorge, sem esmorecer, sem americanizar-se, ou deixar de ser o baiano, sabia bater à porta do mundo, ostentando a chave de quem tinha uma casa simbólica a que retornar.
Sempre amei sua brasilidade. Como sabia identificar os utensílios, os sentimentos, o corpo místico da nação. Como captava os ruídos populares, traduzindo-os através dos lamentos amorosos de seus personagens, para alcançar assim a rara façanha de associar a sua esplêndida imaginação, povoada das captações humanas, com o próprio instinto narrativo do povo brasileiro.
Foi sempre um escritor que, a golpes imaginativos, misturou-se com a vida. Entre ele e a intriga não havia qualquer distância. Esta matéria humana, fornecida diariamente pelos homens, lhe era familiar. Sua extensa e notável obra novelesca soube abolir os empecilhos que pudessem apartá-lo do povo que aspirava representar.
Inventou para tanto uma nação chamada Bahia. Um território ficcional com personagens emblemáticos, arquétipos, voltados para a aventura humana, a compaixão, as causas populares. E no afã de dar-lhes vida, tomou de sua pena mágica e a lambuzou de emoções, sentimentos, sortilégios. Criou, enfim, histórias nascidas da inadiável necessidade que temos de ver nossas histórias contadas.
Estou convencida de que Jorge Amado e sua obra instalaram-se para sempre no coração brasileiro. Não concebo o meu país sem as suas invenções narrativas. Sem ele mesmo ter existido, para nos engrandecer.
*Sempre admirei Jorge Amado -um brasileiro bem brasileiro -Maria *