Pois cá estou outra vez a escrever-lhe. Descanse que, desta vez, não vou aborrecê-lo com mais partidas da Maria Antónia. Só lhe digo que naquela noite, lá fui ao quarto andar e que correu tudo muito agradavelmente. Imagine que a Henriqueta quase não ressonou no tempo todo que lá estive. E a Toninha esteve sempre muito bem disposta. Enfim correu tudo de feição. E como as horas felizes não dão boas histórias (não sei se isto é verdade, houve alguém famoso que disse qualquer coisa parecida, mas não me lembro de quem foi), fico por aqui. Até porque me sucedeu outra coisa, muito preocupante, que preciso de lhe contar.
Calcule que ontem, domingo, logo de manhã, estávamos em casa, seriam umas dez horas, eu ainda na cama a pensar se havia de me levantar para fazer a barba, eis que a Heloísa aparece à porta do quarto e sai-se com uma proposta inesperada:
– E se fossemos passear a Cascais? Apetece-me ir ver a Boca do Inferno…
Olhei para ela, um pouco surpreendido. Não foi a primeira vez que a minha mãe manifestou um desejo repentino de dar um passeio. E também é verdade que, a maior parte das vezes, o destino pretendido é Cascais. Contudo, neste domingo, apanhou-me um tanto de surpresa. Também é verdade que me sentia um pouco fatigado depois da noite animada que tinha tido. Contudo, a perspectiva de um domingo diferente, longe das complicações que tenho tido ultimamente, animou-me. Respondi:
– É uma boa ideia. Queres ir já?
– Daqui a pouco. Levamos um farnel, e comemos lá ao pé.
Levantei-me imediatamente e fiz os meus preparativos. Contudo surgiu uma complicação inesperada. A minha mãe resolveu convidar a Henriqueta e a Maria Antónia para irem connosco.
– Coitada da Henriqueta, que nunca sai de casa. E a Toninha é tão simpática…
– Achas que a Henriqueta aguenta a pé da estação até à Boca do Inferno… Ainda é um bocado – tentei eu, a ver se passava um dia sem mais complicações.
– Sim. Vamos devagar. Não está muito calor. E vamos parando pelo caminho.
Só lhe conto que antes da uma hora da tarde estávamos em Cascais. Não estava realmente muito calor, e pouco depois contemplávamos o mar da subida para a Cidadela. A seguir sentámo-nos no jardim, a descansar e a tomar o nosso primeiro refresco. Foi então que a Henriqueta fez uma pergunta:
– Heloísa, gostas muito de Cascais, não é?
– Sim… – respondeu a minha mãe, com um ar distante.
– Já cá viveste alguma vez?
A minha mãe olhou para ela, e depois para mim. Suspirou. Depois observou a Maria Antónia, que de pé, virada para nós, observava o forte. Suspirou novamente, e depois de olhar para mim, respondeu:
– Sim. Há muitos anos. Nasci aqui.
A Henriqueta, que é muito amiga dela, olhou-a um pouco surpreendida. Calou-se. Eu também não disse nada. Até este domingo, nunca me tinha preocupado em saber ao certo em que terra a minha mãe nasceu. Mas ontem, ao fim de quase cinquenta anos de vida, tive um vislumbre de que talvez fosse importante preocupar-me em conhecer melhor o assunto. Mas não me atrevi a abrir a boca. Assim calei-me também. E, pouco depois, continuámos o nosso passeio rumo à Boca do Inferno, muito serenamente, pelo menos na aparência.
Conversávamos desprendidamente quando chegámos ao nosso destino. Quem nos observasse não deixaria de nos achar a todos de excelente disposição. Estava imensa gente, pelo que optámos por avançar mais um pouco, até encontrarmos uma sombra, onde ficámos a comer o nosso farnel. A Maria Antónia ria por tudo e por nada, contava anedotas, e mantinha o ambiente animado. A Heloísa e a Henriqueta riam-se, e eu também tentava fazer boa figura.
Já passavam das quatro quando resolvemos encetar o regresso. A minha mãe sugeriu então que tomássemos à volta um caminho diferente do da ida. Concordámos todos sem hesitar. Atravessámos a estrada e, depois de várias voltas, tomámos por uma rua de vivendas, algumas aparentando já terem bastante tempo de vida, outras com ar mais recente. Observei a minha mãe, que olhava à volta com um ar estranho. A Henriqueta e a Maria Antónia iam à frente, continuando a dizer gracinhas. Eu seguia no fim, carregando duas cestas, atrasando-me para poder observar.
A certa altura passámos em frente de uma casa relativamente grande, com um jardim atrás. Íamos lentamente, como é próprio de quem encetou uma caminhada que ainda vai ser longa, numa tarde de verão. De repente, a porta da casa abriu-se e um homem de idade, alto, mas muito curvado, saiu, desceu o degrau de entrada e avançou para atravessar a rua. Então, deu de caras com a Heloísa, que ia chocando com ele. Corou violentamente, baixou a cabeça, e precipitou-se a seguir o seu caminho. Atravessou a rua e meteu-se num carro estacionado do outro lado. Sentou-se ao lado do motorista, que percebi ser na realidade uma motorista, uma senhora loura, de óculos escuros. Olhei para a Heloísa. Estava branca como a cal. Num impulso, abracei-a. Não aguentei e perguntei-lhe:
– O que foi, mãe? Conheces aquele sujeito?
Ela olhou-me a direito, depois encostou a cabeça ao meu braço, estremeceu e respondeu:
– Vamos… Preciso de me sentar…
Desculpe, tenho de interromper, só lhe posso contar o resto amanhã. A minha mãe está a chamar-me para o almoço.
11 de Agosto de 2014

