“A MÚSICA E OS DIAS: INSTRUMENTOS POPULARES PORTUGUESES – MUSEU DE ETNOLOGIA, Av. ILHA DA MADEIRA, LISBOA.

A exposição permanente do Museu de Etnologia, em Lisboa, é composta de 7 núcleos. Falaremos hoje de um deles. Pretende a direcção lembra os principais protagonistas que, desde a origem deste museu, definiram as suas linhas de ação e nele cruzam os seus percursos, os investigadores do museu ou a ele associados que no terreno adquiriram e documentaram coleções e os coletores que, por venda ou doação, aumentaram o acervo com as suas recolhas. Procura-se do que os objectos nos podem dizer e que novos diálogos nos permitem despertar, para dinamizar o museu, tornando-o num território vibrante, de pesquisa, actual e futura.

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A coleção dos instrumentos musicais populares resultou da recolha sistemática, promovida pela Fundação Calouste Gulbenkian, sob proposta de Jorge Dias, conduzida no terreno por Ernesto Veiga de Oliveira e Benjamim Pereira entre os anos de 1960 e 1965, altura em que o museu estava a ser pensado e nasceria. O levantamento foi iniciado com base num questionário enviado a professores primários, párocos e interlocutores já conhecidos pelos membros da equipa do Centro de Estudos de Etnologia, mas foi sobretudo no contacto directo que ele se concretizou. Aliava-se à aquisição dos instrumentos localmente em uso, a preocupação de perceber as condições e situações da sua utilização, ajudando  a pensar o país na sua diversidade.   Descobriram-se  músicos de relevo que se tornaram igualmente protagonistas dessa aventura. O sistema de classificação dos instrumentos, a sua inscrição nos tempos do calendário, a sua distribuição no país, são os principais eixos do livro de Ernesto Veiga de Oliveira, Instrumentos Musicais Populares Portugueses, publicado em 1966, e que logo se tornou na obra de referência não apenas para o conhecimento deste universo em Portugal, mas também nos estudos comparados em contexto europeu. As re-edições de 1982 e 2000, são a expressão do interesse e procura que despoletou, sendo a última um momento de grande alcance simbólico, pois com ela se celebrou a oferta ao Museu Nacional de Etnologia da coleção propriedade da Fundação Calouste Gulbenkian que aqui se encontrava em depósito. Nesta última edição, Benjamim Pereira conta a história desses anos de caminhadas pelo país, dos encontros com tocadores e comissões de festas e todos aqueles que foram interlocutores desse significativo percurso na produção de um conhecimento etnológico e de revelação do que somos. O que de mais importante se possa dizer sobre os instrumentos musicais é nesse livro que se encontra.

A Música e o Calendário

a musica

A música e, de forma mais geral, as sonoridades, participam da construção do tempo e do modo como nele nos inscrevemos e apoiamos memórias e afectos. Os instrumentos, os sons que produzem, as gestualidades que lhes estão associadas, os contextos performativos onde se manifestam, as sociabilidades que entretecem e ligam indivíduos e grupos, são parte da matéria mais densa e expressiva na construção dos colectivos. Certos instrumentos só se ouvem em determinados períodos ou dias do ano. São marcadores do tempo, das cadências e ritmos do calendário. Muitos deles preenchem ritualidade do Inverno. São quase todos idiofones. É o maior número dos que aqui mostramos. Outros emergem noutras circunstâncias ou estações do ano.
Do complexo festivo dos Impérios do EspÍrito Santo, os instrumentos das folias, como o tambor, o pandeiro e os testos, revelam também essa associação exclusiva. É então que se ouvem e nos ouvimos neles. Instrumentos como a flauta e o tamboril, vieram a ter na raia do Alentejo uma evidente expressão cerimonial pela sua relação com determinada festa: a Festa. Também existem casos de absoluta singularidade como a genebres que se toca na Lousa, arrastando a asa às raparigas na Festa da Senhora dos Altos Céus.

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