AS PARTES CONCILIADAS MAS NUNCA CONCILIÁVEIS DO SER HUMANO – PEDRO STRECHT por Clara Castilho

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O livro chama-se “Crianças sem sombra. Arte, Vida e Conflito Emocional”. E é de autoria de Pedro Strecht. O autor é médico de Psiquiatria da Infância e Adolescência, exercendo actualmente na actividade privada e na Cooperativa «A Torre». É, também, Presidente da Direcção do Centro Dr. João dos Santos-Casa da Praia. Coordenou o Projecto de Apoio à Família e à Criança Maltratada (Lisboa), a Equipa de Intervenção Psicossocial do Casal Ventoso, e a Equipa de Intervenção em Crise da Casa Pia de Lisboa.

Foi professor do ensino secundário e superior, na Universidade Católica de Lisboa. Da sua colaboração na imprensa, destaca-se a coluna que manteve na revista Pais & Filhos e no jornal Público. É autor de mais de duas dezenas de livros sobre temas respeitantes à sua área profissional e da literatura infanto-juvenil.

Criancas sem sombra

Acrescento eu, que com ele trabalho, que é uma pessoa muito sensível, perspicaz e com grande intuição face aos sofrimentos que lhe são apresentados. Cada reunião clínica é um momento de aprendizagem.

O prefácio é do livro é do filósofo José Gil e nele se diz:

 «Eis um livro dificilmente classificável. Se bem que o seu terreno disciplinar e o seu objecto sejam bem definidos, o leitor é projectado, desde as primeiras páginas, num espaço diferente, aparentemente não científico, tecido pela poesia, pela arte, pela música e pela filosofia.

A natureza poética dessa escrita nasce das associações, analogias e outras relações que o autor estabelece entre aquelas diversas práticas e entre elas a terapia de crianças e adolescentes com graves perturbações psíquicas.

O livro de Pedro Strecht lê-se com uma avidez crescente em poucas horas. tem um poder de fascínio que envolve o leitor, ao mesmo tempo que lhe levanta inúmeras interrogações.

 […] Pedro Strecht, que se inscreve numa linha que vai de Winnicott e Bion a João dos Santos e André Green, constrói, a partir de um caso clínico, um novo conceito: o de crianças sombra. É permitido pensar, a um leitor não especializado, que a sua definição, explicitação e aplicação a outros casos, mostra a sua originalidade e pertinência científicas.”

Já os últimos livros de Pedro Strecht são um encadear de associações com a pintura, a literatura e a música que, para percebermos totalmente o que nos quer transmitir, teríamos que estar junto a um computador e pesquisar aquilo a que se refere. Neste, em concreto, é partindo de uma análise de obras de pintores, músicos, escritores  e poetas – Malevich, Kandisnsky, Virgínia Wolf, Grindel, Ravel,Miró, Klee, Debussy, Durrell, Mondrian, Appolinaire, Éluard, Mozart, Luís Amorim de Sousa, vai tecendo uma teia que nos leva aos casos clínicos.

E diz:

[..]“ Somos o dia e somos a noite. Artífices do melhor, do puro, do belo e eterno. Autores simultâneos do medo, do horror e da maldade. Partes conciliadas mas nuca conciliáveis, excepto no momento do início e talvez no derradeiro. Dessa comunhão impossível saímos diariamente
, instante a instante, mais forte ou mais condenados”.

[…] “ Aliás, o que de mais revelador existe entre todas estas narrativas de vida criativa – quer seja na pintura, na musica ou na poesia – é o facto de todas demonstrarem não só a fragilidade intrínseca a qualquer existência humana e a contínua luta entre duas possibilidades opostas delhes dar um significado e um simbolismo: parar, bloquear, fugir, adoecer (enlouquecer) e até morrer, por um lado. Por outro, prosseguir, criar, sonhar, transformar, em suma, viver.”

Leiam, não é um livro para especialistas na área. É um livro em que todos nos revemos.

(Nota: este comentário não é “encomendado”… o autor nem sabe que o faço.)

 

 

 

 

 

 

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