EDITORIAL – ALJUBARROTA

logo editorialA ideia de uma Península unida ou subjugada a um poder centralizado, vem de há muito tempo – os romanos conseguiram-no e depois disso têm-se sucedido as tentativas de concretizar esse objectivo. A maior parte delas, correspondeu à ânsia castelhana de hegemonizar todo o espaço peninsular, mas houve também iniciativas portuguesas com o mesmo propósito. Não vamos aqui apresentar a tábua cronológica das formas que têm sido tentadas – hoje, 14 de Agosto assinala-se a efeméride da Batalha de Aljubarrota que, em 1385, ditou o fracasso de mais uma tentativa de absorção. Muitas outras se seguiriam e numa delas, em 1580, por via das leis da sucessão dinástica, um castelhano sentar-se-ia no trono de Portugal e, durante 60 anos, embora formalmente independente, Portugal esteve subordinado ao poder central de um império que dominava não só a Península como também parte substancial da Europa. Recuperando a independência após uma cruenta guerra que se prolongou por 28 anos, Portugal tem-se mantido independente e tem escapado a múltiplas arremetidas. Há meia-dúzia de anos, a questão voltou a ser agitada – talvez seja teoria da conspiração, mas não será que Madrid, aproximando-se a turbulência catalã, não quereria demonstrar a bondade da ideia de uma Hispânia «una, grande y libre»?

José Saramago numa das suas mais infelizes intervenções públicas, dizia numa entrevista concedida ao Diário de Notícias em Julho de 2007: «Não vale a pena armar-me em profeta, mas acho que acabaremos por integrar-nos», dizendo depois que não seria uma integração cultural e dando o exemplo da Catalunha: «A Catalunha tem a sua própria cultura, que é ao mesmo tempo comum ao resto de Espanha, tal como a dos bascos e a galega, nós não nos converteríamos em espanhóis.» Quando o jornalista perguntou se Portugal seria uma província de Espanha, respondeu: «Seria isso. Já temos a Andaluzia, a Catalunha, o País Basco, a Galiza, Castilla-La Mancha e tínhamos Portugal. Provavelmente (Espanha) teria de mudar de nome e passar a chamar-se Ibéria.» E os portugueses aceitariam a integração?: «Acho que sim, desde que isso fosse explicado».

Em entrevista concedida à agência Lusa , em Novembro de 2008, o escritor murciano Arturo Pérez-Reverte defendeu a existência de uma Ibéria – país único, sem fronteiras, pois, na sua opinião, é «um absurdo» que os dois países vivam «tão desconhecidos um do outro». […] «há uma Ibéria indiscutível que está entre os Pirenéus e o estreito de Gibraltar, com comida, raça, costumes, história em comum e as fronteiras são completamente artificiais”, Para Pérez-Reverte, o maior erro histórico de Filipe II, no século XVI, foi não ter escolhido Lisboa como capital do império: “Teria sido mais justo haver uma Ibéria, e a história do mundo teria sido diferente”. O escritor disse ainda que essa Ibéria não existe hoje administrativamente, mas “qualquer espanhol que venha a Portugal sente-se em casa e qualquer português que vá a Espanha sente o mesmo”. “Houve dificuldades históricas que nos separaram, mas a Ibéria existe. Não é um mito de Saramago, nem dos historiadores romanos. É uma realidade incontestável” que precisa de um empurrão social e não político para concretizar o projecto, […] O mundo de hoje é um lugar de grandes mudanças sociais”. […] “Esse Ocidente pacífico, sereno, poderoso, com uma certa coerência cultural e social do século XX não poderá continuar. O Ocidente como o entendemos está na sua etapa final”,

Quem veio, também numa entrevista, apoiar a ideia da integração de Portugal em Espanha? – Ricardo Salgado. E explicou as razões, ou melhor, a razão. Se o estado fosse o mesmo, o BES teria grandes possibilidades de expansão nas áreas metropolitanas de Madrid e Barcelona.

Do que o «Reyno» se livrou!

1 Comment

  1. A Ibéria nunca existiu. Ibéria era um pequeno território que bordejava o Iber – depois Ebro – e assim designado pela ocupação, aliás, minúscula dos gregos. Os romanos mandaram reconhecer a periferia de toda a Península e, depois disso, passaram a designá-la por Hispânia. Todos quantos nela nasceram e nascem são Hispânicos porém. acentue-se, nenhum é espanhol. Espanha é, apenas, o disfarce mal feito do imperialismo castelhano que, com toda a ilegitimidade, prossegue sem respeitar as nacionalidades que essas, sim, com toda a legitimidade, têm o direito a constituir-se como estados independentes com lugar cativo na Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas.CLV

Leave a Reply to Carlos A P M Leça da VeigaCancel reply