PRAÇA DA REVOLTA – A hora de agir – 1 – por Carlos Loures

Eugène Delacroix - La Liberté guidant le peuple

O Ocidente, na ânsia de resolver a «questão hebraica», escavou no anverso da verdade histórica um túnel bem mais sinistro do que os do Hamas. Foi em 1917, pela Declaração de Balfour, que a Grã-Bretanha, assumindo perante a comunidade judaica e sionista o compromisso de criar na Palestina o «lar judaico», consumou um crime absurdo – dar uma terra que tinha donos a um credo religioso. Actualmente, os Estados Unidos, que são a verdadeira “Terra Prometida” para os judeus, mantêm com o seu poder económico e militar, uma realidade baseada na ficção de lendas religiosas que, segundo se sabe, não têm qualquer respaldo científico.

 No entanto, ao fundo desse túnel, vislumbra-se uma luz ténue. Uma consciência da realidade parece irromper em muitas cabeças israelitas e essa maneira de interpretar a história e de assumir a condição judaica é, na minha opinião, uma réstia de esperança. Essa consciência nova assenta na compreensão de que a guerra só tem dois desenlaces possíveis – ou os israelitas exterminam os palestinianos atá ao último ou, mais tarde ou mais cedo, o Estado de Israel será pulverizado, riscado do mapa.

 Tenho aqui falado sobre algumas dessas vozes que se têm vindo a erguer no interior do país – a voz de Hannah Arendt, que nos ensinou que o mal pode ser banalizado e de que os seres humanos se habituam a considerar normal o que é absurdo; a tese de Idith Zertal, segundo a qual os judeus consideram que o Holocausto lhes confere ad eternam o direito de dizimar tudo e todos que se oponham à sua louca ficção; a investigação de Shlomo Sand que concluiu que o povo judeu é uma invenção – o judaísmo não tem qualquer raiz étnica – é apenas uma religião. O professor Daniel Aarão Reis, num artigo que há dias aqui publicámos, falou-nos de “Novos judeus”, de Helena Salem, um livro sobre a tragédia dos palestinianos depois da Segunda Guerra Mundial. Uma judia solidária com o sofrimento e a repressão a que os palestinianos têm sido submetidos. Todos os requintes nazis têm sido usados pelos que fazem do Holocausto o principal crédito da sua acção criminosa.

 A estas vozes corajosas, junto nesta pequena série de artigos, a do escritor Nir Baram,  e a da professora universitária Nurit Peled.  Amanhã falarei sobre Nir Baram e sobre a sua convicção de que chegou o momento de agir.

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