CONTOS & CRÓNICAS – Um anjo branco no banco do jardim – por Eva Cruz

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Poisou um anjo branco no velho banco do jardim. Estremeceu na dureza das arestas, tão velhas, manchada a madeira do tempo e dos anos, do sol e da chuva, miúda, graúda, em bolas de saraiva ou de neve derretida.

 Em volta, um torvelinho de imagens, o tanque grande, o tanque pequeno, os esteios de pedra ou de pau, os canteiros de todas as flores, os troncos das árvores de outrora, longínqua infância, a aspereza da casca das videiras.

 Poisou um anjo branco no banco do jardim.

 Um misterioso e sonâmbulo sussurro de conversas junto à ombreira, no silêncio cálido da tarde. O ladrar de um cão lá para o Aido-Baixo, ou mais ao longe, lá para o Barbeito ou Cabril. O fim do dia no mítico cantar das cigarras e dos grilos. A sinfonia nupcial das aves na copa dos ciprestes. O voo furtivo e rasante dos melros, o grito agudo e desgarrado de pegas e gaios.

 Poisou um anjo branco no banco do jardim. Vem de branco, inundando a memória do banco do jardim, com os milheirais ao fundo. A memória dos velhos irmãos relojoeiros, da sineta de Coelhosa, que ali passaram tardes a criar sonhos de tão ingénua virtualidade.

 Já no lusco-fusco, passam nos olhos gerações inteiras em imagens de beleza e ternura, enlaçando os anos e os séculos no ferro ferrugento que abraça as traves de madeira.

 Senta-se uma criança ao lado do anjo. A conversa é tranquila e o pensamento sereno liga o presente e o passado como braços da eternidade. A conversa é natural como as ervas.

 Tão velho o banco do jardim, sempre à espera de um anjo branco que acenda a frágil ilusão do tempo!

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