Poisou um anjo branco no velho banco do jardim. Estremeceu na dureza das arestas, tão velhas, manchada a madeira do tempo e dos anos, do sol e da chuva, miúda, graúda, em bolas de saraiva ou de neve derretida.
Em volta, um torvelinho de imagens, o tanque grande, o tanque pequeno, os esteios de pedra ou de pau, os canteiros de todas as flores, os troncos das árvores de outrora, longínqua infância, a aspereza da casca das videiras.
Poisou um anjo branco no banco do jardim.
Um misterioso e sonâmbulo sussurro de conversas junto à ombreira, no silêncio cálido da tarde. O ladrar de um cão lá para o Aido-Baixo, ou mais ao longe, lá para o Barbeito ou Cabril. O fim do dia no mítico cantar das cigarras e dos grilos. A sinfonia nupcial das aves na copa dos ciprestes. O voo furtivo e rasante dos melros, o grito agudo e desgarrado de pegas e gaios.
Poisou um anjo branco no banco do jardim. Vem de branco, inundando a memória do banco do jardim, com os milheirais ao fundo. A memória dos velhos irmãos relojoeiros, da sineta de Coelhosa, que ali passaram tardes a criar sonhos de tão ingénua virtualidade.
Já no lusco-fusco, passam nos olhos gerações inteiras em imagens de beleza e ternura, enlaçando os anos e os séculos no ferro ferrugento que abraça as traves de madeira.
Senta-se uma criança ao lado do anjo. A conversa é tranquila e o pensamento sereno liga o presente e o passado como braços da eternidade. A conversa é natural como as ervas.
Tão velho o banco do jardim, sempre à espera de um anjo branco que acenda a frágil ilusão do tempo!