Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Marco Buti versus Renzi, ou não?
Marco Buti vs. Renzi, o no?, por Claudio Gnesutta
Sbilanciamoci.info, 4 de Julho de 2014
O renzismo à prova /o Director dos assuntos económicos da Comissão Europeia recomenda que se olhe para a Alemanha, que conseguiu reduzir o desemprego, mesmo durante a crise. Mas o semestre italiano pode ser uma oportunidade para esclarecer se a visão renziana da sociedade é diferente, como e de quanto, dos nossos tecnocratas europeus.
Numa entrevista ao jornal República, no primeiro dia de Junho passado, questionaram Marco Buti, Director-geral dos Assuntos Económicos e financeiros da Comissão Europeia, se a Europa insiste na exigência feita à Itália de uma compressão orçamental na presença de um desemprego ‘estrutural’ de 11 por cento. Insistirá, foi a resposta pois que, ao contrário de Espanha, na Itália, as estimativas da Comissão ‘ são basicamente corretas, é só o desemprego estrutural, ou quase somente ele e que, se o desemprego fosse cair abaixo desse nível, criaria pressões inflacionistas «não imediatamente quando se iniciasse a retoma mas a médio prazo, isso sim.»
O que significa que, enquanto o desemprego permanece a estes níveis, o governo italiano será forçado a reduzir o défice público e a deprimir ainda mais a procura (que, como se sabe, não tem para a Comissão qualquer efeito significativo). A justificar esta política, o economista recomenda que se olhe para a Alemanha que reduziu o desemprego durante a crise; e, em face da perplexidade do entrevistador que observa que é difícil chamar emprego a uma ocupação ‘ de 7 milhões de mini-jobs, quase um quinto dos empregados, a 450 euros por mês “, a resposta de Buti foi ” Beh, é bem melhor do que nada”.
Uma entrevista bem instrutiva que, na concisão do bom entrevistador, oferece algumas ideias de grande interesse. Em primeiro lugar Marco Buti é um graduado de Florença, na Itália, com o grau de mestre por Oxford, professor visitante em diversas universidades na Europa e que desde 1987 trabalha na Comissão Europeia onde se tornou Director-geral adjunto em 2006. Se quisermos uma foto do funcionário que “tecnicamente” gere a política económica europeia, é a dele, mas a sua visão” política” parece-me emblemática.
No entanto, não é alemão, mas um dos muitos italianos, espanhóis, Portugueses, finlandeses, franceses e alemães também, que se formaram em passeio pelo mundo, que constituem a nova classe dirigente europeia (tecno, se não mesmo global). Auto-define-se de «keynesiano» (embora «razoável») enquanto aderente ao Consensus dos Novos Keynesianos que parece ter pouco a ver com Keynes.
Basta pensar como exprime a sua sensibilidade social e política, com toda a ousadia de quem não tem dúvidas: a Itália a médio prazo (5-10 anos?) não pode esperar poder assumir qualquer política económica que lhe permita reduzir o desemprego estrutural abaixo de 10%.
Obviamente, Buti sabe que 10% é uma média em que o nosso Sul atinge os 20%, não muito longe da taxa de Espanha (e dos problemas que foram colocados à Comissão pelos seus métodos de cálculo).
Mas acima de tudo, sabe também que aos 3 milhões de desempregados se somam ainda um certo número de precários, de inactivos, de desencorajados, de Neet que, em geral, não são muito menos do que 7 milhões alemão que, no entanto, mesmo de 450 euros de ajuda por mês. E, apesar disso, parece que se trata de um problema (talvez esquecendo que, para Keynes, isto era ‘o’ problema).
Mas acima de tudo, sabemos que os 3 milhões de desempregados são um número estrutural de precários, inactivos, desencorajados de procurar trabalhar e de Neet que, globalmente, não são muito menos do que 7 milhões de alemães sem disporem, no entanto, dos 450 euros de ajuda por mês. E, apesar disso, não lhe parece que se trata de um problema (talvez esquecendo que, para Keynes, isto era ‘o’ problema).
Para um razoável grupo de dirigentes políticos (não só italianos mas também Europeus, que em geral não são muito melhores) esta situação deveria ser um pesadelo. Não se fuja então a nenhuma questão fundamental.
Quando o nosso primeiro-ministro, disse programaticamente “primeiro que tudo está o trabalho” será que está a pensar em soluções diferentes das dos altos dirigentes da União Europeia? Será que ele se mantém em continuar a não querer avançar – como defende Buti – nenhuma contestação sobre a metodologia e sobre a política económica tão ‘recessiva’ ?
Acredita que o problema do emprego será inteiramente resolvido pelo lado da oferta, ou seja, embora não tenha criado um posto de trabalho a mais, “a estrada é aquela… ou seja, são as reformas do mercado de trabalho” (Buti, Comissão Europeia, dixit)?
Pensa que as políticas de aumento da produtividade e as de redução dos custos do trabalho, mesmo que necessárias para o crescimento da produção, são as únicas capazes de resolver a médio e longo prazo o problema do crescimento do emprego (em suma – durante 2/3 anos-ninguém se atreve a esperar por algo mais do que a contenção de perdas de emprego)? Mas acima de tudo, acredita que, através destas políticas se pode travar a degradação/precariedade das relações sociais? Penso que estas são questões urgentes e decisivas; o semestre italiano pode ser uma oportunidade para nos esclarecer se a visão renziana da sociedade italiana do futuro se diferencia, como e quanto, da visão que têm os nossos tecnocratas europeus.
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