A CORAGEM E A RECOMPENSA DAS “ABUELAS DE PLAZA DE MAYO” por clara castilho

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Uma história emocionou o mundo. Uma das avós – Abuelas de Plaza de Mayo – tinha encontrado seu neto!

Recuemos no tempo. Março de 1976, dia 24. Um golpe das forças armadas da Argentina derrubou o governo constitucional, implementando uma ditadura de terror. As pessoas suspeitas de com eles não concordarem, pura e simplesmente “desapareciam”, na conta de 30.000 pessoas de todas as idades e classes sociais submetidas à privação de liberdade e tortura. Centenas de crianças foram raptadas com seus pais ou nascidas em centros de detenção clandestinos, para onde as meninas grávidas foram levadas. Por detrás disto tudo, um plano sistemático de rapto de crianças. A elas chamava o novo regime “despojos de guerra”. E, das duas uma: ou foram registradas como filhos próprios por membros das forças de repressão, ou deixadas em qualquer lugar, vendidas ou abandonadas em instituições como seres sem nome .as avós de mayo

Dessa forma, fizeram-nas desaparecer ao cancelar sua identidade, privando-as de viver com sua família legítima, privando-as de todos os seus direitos e liberdade.

Associação Civil Avós da Praça de Maio é uma organização não-governamental, que tem por objetivo localizar e retornar a suas famílias legítimas todas as crianças desaparecidas, sequestradas pela repressão política, e criar condições para que nunca mais se repita tal terrível violação dos direitos das crianças, exigindo punição aos responsáveis.

Tarefas detectivescas alternaram-se com visitas diárias aos Tribunais de Menores, orfanatos, casas de família, enquanto se investigaram as adoções da época. Também recebiam – e continuam a recebendo denúncias que o povo argentino lhes fazem chegar, como forma de colaborar na tarefa de localizar as crianças.

 Avós da Praça de Maio trabalharam em quatro níveis: denúncias e reclamações às autoridades governamentais, nacionais e internacionais, apresentações perante a justiça, pedidos de assistência dirigida ao povo em geral, e perguntas ou investigações pessoais. Em anos de dramática busca, conseguiram localizar 95 crianças desaparecidas.

Para seu trabalho, a Associação conta com equipes técnicas compostas por profissionais da jurídico, médico, psicológico e genético. A fim de garantir no futuro a validade dos exames de sangue,  implementaram um banco de dados genéticos criado pela Lei Nacional n° 23.511, contendo os mapas genéticos de todas as famílias que têm crianças desaparecidas. As Avós da Praça de Maio receberam o prêmio da UNESCO pelo incentivo à paz.

A presidente desta associação, Estela de Carlotto, acabou de encontrar o seu neto Guido, após 36 anos de procura. É o filho de sua filha Laura, cujo parto aconteceu quando estava presa, no centro clandestino “La Cacha”. Sua filha foi assassinada a  25 de Agosto de 1978.

Hoje, Guido tem 36 anos, está casado, vive em Olavarría e é músico, com colaborações com artistas em todo o país. Um dos seus recentes trabalhos chama-se Para la memoria.

Estela Carlotto tinha afirmado: “Vivo con la esperanza de encontrarlo (encontrar-nos), porque muchos otros nietos han aparecido. Camino disfrutando lo que otras Abuelas abrazan como propio, pensando cuándo me tocará oír un timbre, una voz, la sangre comparada que diga: soy tu nieto Guido. Entonces sonarán en el cielo los clarines de la Victoria y Laura desde allí me sonreirá”.

Pois já chegou esse dia.

Fiquemos com a música de seu neto e com a letra da canção.

 “Con la carroña apiñada, los nudos de otra madera // Apuran chispas hirientes y encienden lumbres de ojeras // Cargando en ancas los hombros se van quedando los años // no se han cerrado las puertas ni las heridas de antaño.

Fantasma viejo y roído, capullo de los rosarios // cuando se postran las sombras detrás del abecedario // si lapidando al poeta se cree matar la memoria // que más le queda a esta tierra que va perdiendo su historia

Camino al sol, que hace la sombra de todo igual // si al estrujar el viento contra un pecho labriego // ya no hay heridas que marquen los brazos de un hombre entero // ni hay canciones que apañen lo que no guarda en el pecho

Es la sutil diferencia de un cromatismo de negros // lo que separa el anverso en la palma del mismo dueño // cual si eso fuera importante en una caligrafía // dejando sentado en blanco cosas que el negro diría…

Surten menguar las ideas pues que se frena la clara // con dos monedas de cobre cubriéndome la mirada, // Cargando en ancas los hombros se van quedando los años // no se han cerrado las puertas ni las heridas de antaño.

Camino al sol, que hace la sombra de todo igual // si al estrujar el viento contra un pecho labriego // ya no hay heridas que marquen los brazos de un hombre entero // ni hay canciones que apañen lo que no guarda en el pecho”.

 

 

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