Cá estou eu novamente a maçá-lo. E tenho que lhe pedir muitas desculpas pela interrupção súbita da última carta, motivada pela chamada da minha mãe para o almoço. Espero que não tenha levado a mal. Sabe, ando muito preocupado com ela. Normalmenteprocuro fazer-lhe todas as vontades, nunca a faço esperar e evito enervá-la o mais que possível. E então agora, depois daquela cena em Cascais, estou ainda mais preocupado. Tenho receio de que me esteja a esconder qualquer coisa. Deixe-me contar-lhe o que se passou lá em Cascais, a seguir ao encontro tão inesperadocom aquele senhor idoso, muito curvado, que ia a sair de casa,quando regressávamos para a estação do combóio.
Como lhe disse, a Heloísa ficou branca como a cal, depois de quase ter chocado com o homem. Até lhe contei que a abracei num impulso, coisa que raras vezes acontece. Acredite que tive receio que caísse ali, desamparada.Ela pediu entretanto para pararmos num café, e nós assim fizemos. A Henriqueta tomou-lhe o braço e, mesmo a arrastar-se, foi assim com ela até chegarmos a uma esplanada pequena, numa esquina, já a uma certa distância do local do encontro com o tal senhor. Sentámo-nos. A Maria Antónia olhava à volta com um ar um tanto preocupado. Entretanto fixei o nome da rua onde tivemos o incidente: Rua do Espírito Arcanjo. Apesar de tão preocupado, ainda pensei com os meus botões quem seria o Espírito Arcanjo? Algum político?
Mandámos vir cafés para todos. Mesmo a Henriqueta, que normalmente bebe carioca, desta vez pediu um café. Estivemos calados algum tempo. De repente, a minha mãe começo a dizer apressadamente:
– Já estou melhor… é que apanheicá um susto! O homem ia-me dando cá um encontrão… Tive sorte. Ia parar ao meio da rua
A Henriqueta sorriu com um ar compreensivo. A Maria Antónia ficou na mesma. O criado trouxe as bicas. Atrevi-me a perguntar:
– Já o tinhas visto antes?
A Heloísa deitou-me um olhar indignado. Soergueu-se ligeiramente na cadeira, mas a seguir parou, pareceu-me que respirava fundo, e respondeu:
– Não. Nunca o tinha visto em parte nenhuma. Tenho a certeza.
Deu um ar muito convencido à resposta. De repente, assaltou-me um vontade terrível de lhe perguntar até que idade ela tinha vivido em Cascais, mas não me atrevi. Senti-me angustiado. Um pouco como no tempo em que namorava a Natália. Entretanto, tomámos os nossos cafés, muito devagar. Agora, até a Maria Antónia estava com um ar sério. A Henriqueta olhava em frente, fixamente.
Algum tempo depois, não sei bem dizer se muito ou pouco, retomámos o regresso à estação. Viemos muito calados até ao Cais do Sodré. Só então a Maria Antónia arrebitou, olhou em volta e declarou:
– Até que fim que chegámos a Lisboa!
As duas amigas sorriram e não disseram nada. Voltámos a pé para casa. Eu deixei-me ficar para trás, a carregar a bagagem. Elas pararam constantemente a ver montras.
De noite, custou-me a adormecer. Imagine que até tive pena de que a Maria Antónia não me tivesse feito um novo convite. Naquela noite vinha-me mesmo a calhar. Pensava na minha mãe constantemente. Quem seria o homem com que ela quasetinha chocado?É que, quanto mais recordo a cena lá em Cascais, mais tenho a certeza de que já o conhecia, tal a intensidade do olhar que trocaram, que agora me vinha claramente à memória. E ele tinha corado violentamente, e seguido em frente, sem sequer esboçar uma justificação por tanta pressa, que podia tê-lo feito derrubar brutalmente uma pessoa.De repente, assaltou-me uma dúvida. Ele teria alguma coisa a ver com o meu pai?
Acabei por me convencer que começava a divagar. O meu pai fugiu de Portugal, para não ir à tropa, ainda antes do 25 de Abril, e nunca mais deu notícias. Pelo menos foi o que me contaram, ainda era eu pequeno. É escusado estar eu a sonhar com fantasmas, acabei por me convencer. Não acha, meu caro amigo? Felizmente, que naquela noite consegui adormecer profundamente. Só que agora estou aqui a tentar arrumar ideias, com o seu apoio. Deixe-me colocar-lhe uma questão: acha que pergunte à minha mãe se aquele homem era o meu pai?