PRAÇA DA REVOLTA – PALESTINA – A hora de agir – 5 – por Carlos Loures

Eugène Delacroix - La Liberté guidant le peuple

Das três religiões de Abraão, a mais desfasada do ritmo comportamental e das pulsões sociais da «aldeia global», é o islamismo. O contraste entre a realidade do mundo actual e os princípios religiosos que a cleresia islâmica impõe, configura um choque de civilizações ao colocar no mesmo plano temporal, mentalidades, comportamentos, avanços tecnológicos e científicos, absolutamente incompatíveis com os ditames teológicos do Islão. Pasma-se ao verificar como há um milénio a sociedade islâmica era tolerante e aberta, em contraste com a sociedade cristã da Baixa Idade Média, dominada por princípios religiosos severos. Os muçulmanos foram tomados pelo ardor consumista que mina as sociedades ocidentais, têm de obedecer aos princípios da Sharia, que extrai do Corão a fonte da jurisprudência islâmica. Essa contradição, tentando compatibilizar telemóveis com excisão genital, torna o islamismo moralmente vulnerável. A cupidez dos dirigentes políticos, na sua maioria ávidos por dólares e rendidos às maravilhas da «civilização», ao pretender acertar o passo com o fanatismo cego da cleresia, abre portas à corrupção e à tirania.

Claro que do lado ocidental a contradição não é menor – censura e ridiculariza os aspectos retrógrados da sociedade islâmica, mas quer o petróleo que se produz em muitos desses países – vai ao ponto de os invadir e bombardear para derrubar ditaduras e impor a democracia, mas não faz a única coisa que teria eficácia – não ter relações comerciais nem de qualquer outra espécie com estados que não obedeçam à carta dos Direitos Humanos aprovada em 1948 na Assembleia Geral da ONU.

Nestes dias em que o genocídio praticado pelas forças de intervenção do Estado de Israel na Faixa de Gaza, atinge uma expressão de crime internacional que deveria levar à forca os militares e políticos de Telavive, circulam anedotas sobre os muçulmanos, como se as contradições islâmicas justificassem o assassínio de civis inocentes, nomeadamente de centenas de crianças. Para os sionistas, quem não é judeu é anti-semita. Dicotomia que não existe fora das suas cabeças. Ridicularizam o fundamentalismo islâmico e são igualmente motivo de troça. Aliás, aos olhos de um ateu, todas as três religiões provocam o riso – as saias, dos cardeais vaticanos e a promiscuidade com máfias, a avareza de jacós, samuéis e saras, abdulahs que condenam a sociedade ocidental, mas adoram carros topo de gama…

Sem dúvida que a ocupação da Palestina por judeus, em nome de uma religião que os donos no território não professam, foi uma violência inaudita. Porém, não é sempre assim que os territórios são invadidos e ocupados? Os árabes vindos da Ásia e ocupando o Magrebe ou os exército de Tarik invadindo o Al Andalus, que razões tinham para além da sua cobiça e sede de conquista? E não há em algumas cabeças muçulmanas o projecto de voltar ao Al-Andalus? – então, o que é crime na Palestina, deixaria de o ser no Algarve ou na Andaluzia?

Oito milhões de judeus e dois milhões de palestinianos vivem agora ali. Foi um erro, mas um erro não se corrige cometendo outro – o de expulsar, perseguir, matar… . O caminho para a paz, passa por uma nova maneira de judeus e árabes se encararem mutuamente – simplesmente como pessoas. Eduardo Galeano pergunta – “como podem os palestinianos ser anti-semitas se são semitas?” As diferenças étnicas não existem. e as diferenças religiosas, entre dois sistemas teológicos com a mesma origem deviam poder ser ultrapassadas

Na Palestina enfrentam-se dois monstros – o fundamentalismo islâmico e o espírito nazi dos sionistas, ambos manipulados pela prepotência norte-americana. De ambos os lados, se erguem vozes pela paz e pelo entendimento – Há quem pense mesmo que chegou a hora de agir. É pouco, é uma luz trémula ao fundo de um túnel  que parece interminável?  A inteligência, temos esperança, acabará por triunfar sobre a morte.

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