CONTOS & CRÓNICAS – “Aldrabices, Truques & Piruetas, SARL”. – por Joaquim Palminha Silva

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Com muita dificuldade posso parar a “onda de fel que me sai do coração”!

O «Tribunal de Contas» avançou com uma “sugestão” (amanhã será uma ordem?) dirigida ao Serviço Nacional de Saúde…- Os médicos de família devem regular o tempo de atendimento para uns rigorosos 15 minutos por paciente, independentemente do doente e da doença!

A origem desta sugestão? – Evitar a contratação de mais médicos para o serviço de assistência à família, nos Centros de Saúde!

Isto não é ditado por uma vaga de estupidez, como levianamente pensam os cronistas e críticos dos jornais. Após sucessivos malogros da “gestão capitalista” da sociedade portuguesa, supostamente democrática para umas coisas e efectivamente autoritária para outras, o desespero do grupo governamental interessado na continuação da exploração dos reformados e dos trabalhadores em geral, acaba de iniciar uma descarada perseguição de poupanças, assim, à custa dos enfermos. Enfim, os predadores de colarinho branco passaram a actuar como desapiedados chefes de quadrilheiros do tempo do Zé do Telhado e João Brandão (meados do séc. XIX)!

Esta intervenção do «Tribunal de Contas» numa “área” que lhe é estranha, tem servido para provocar as gargalhadas dos inconscientes. Todavia, esta pirueta demonstrativa do raciocínio obliterado, não deve servir para diversão da multidão de patetas do costume, no género «Hoje há palhaços!», porque isto de andar a poupar dinheiro à custa de quem sofre, além de demonstrar uma grande imoralidade, uma imensa desumanidade, aproxima mentalmente este pessoal governamental da preconizada eutanásia dos nazis!

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Como foi que aconteceu? A avaliar como tudo se passou deve ter existido «um espírito santo de orelha» a sussurrar ao ouvido do Sr. Dr. Henrique Granadeiro (presidente da administração da PT) umas confidências “atempadas” para que, semanas antes da crise atingir o seu ponto de saturação crítica, “precipitando” a acção do Banco de Portugal (que soube representar, com muita qualidade cénica, o papel da personagem surpresa!), a PT conseguisse levantar os seus depósitos no BES, avaliados em 128 milhões de euros!

Certamente o mesmo «espírito santo de orelha» deve ter soprado umas “coisas” ao ouvido do Sr. Prof. Manuel Pinho, ex-ministro do anterior governo socialista, docente universitário e vice-presidente da “holding” BES-África… Porquê? – Ora, ora, porque nas primeiras semanas de Julho (2014) este cavalheiro negociava com o grupo económico a sua reforma antecipada, avaliando a imprensa diária a sua compensação na ordem dos 3,5 milhões de euros…

Com carinhosos abraços de camaradagem entre si, esta “classe” de gente que está no comando dos negócios e da governação do País, do cimo da sua sobranceria, atira às mãos cheias o seu infinito desprezo à cara do povo trabalhador, dos desempregados e dos reformados!

No seu tempo (início do séc. XX), o Czar Nicolau II da Rússia não conseguiu fazer “melhor”, em matéria de desprezo pela empobrecida população do seu império… Mas nós sabemos como tudo isso acabou, em 1917!

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Foi necessário esperar que passassem quarenta anos após o 25 de Abril de 1974, para que um dos partidos do governo (PSD), através da sua vice-presidente do grupo parlamentar (Teresa Leal Coelho), começa-se a redigir um diploma para colocar o Ministério Público a provar o enriquecimento ilícito de políticos e não só… Admitindo que o enriquecimento do capitalista com a apropriação da mais-valia produzida pelo trabalhador é “negócio” lícito (na actual sociedade, democrática ou não) …

Escusamos de escrever quantas modificações e devoluções tem sofrido a redacção do diploma… A vida do projecto de diploma sobre enriquecimento ilícito é tal que se fosse um transporte marítimo, limitava-se a meter umas quantas polegadas de água por dia… até ir de vez ao fundo!

Quarenta anos para tentar condenarem (completamente?) o tráfego entre a política e o enriquecimento ou dito ao contrário, entre o enriquecimento e a política… Rasgam-se sob os nossos pés as fendas do abismo, em que se tornou este regime “democrático”!

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Que se pode concluir destas manifestações burlescas do Poder e destes truques dos círculos financeiros? – 1) Não têm a mínima preocupação no que respeita ao acatamento formal das regras institucionais que, aliás, eles mesmos determinaram, Poder político e círculos financeiros; 2) Depois de “domesticarem” forças policiais e militares, com umas promoções e uns aumentos pontuais, descansados portanto com os seus “guarda-costas”, manifestam um descarado desprezo pelas organizações sindicais e pelos partidos de esquerda (excluo o PS, na medida em que não sei se ainda é de esquerda), não tendo por tais instituições qualquer consideração democrática, o mínimo respeito; 3) Fazem o que muito bem querem, quando querem e como querem, alterando regras, refazendo regulamentos, desfazendo formalidades, tudo a seu favor, ignorando assim qualquer impedimento.

Enfim, esta gente que só o medo das organizações laborais e dos efectivos partidos de esquerda poderia fazer reflectir e sossegar, perdeu todo o respeito pelos cidadãos… De resto, quando os cidadãos sofrem tudo isto, por parte desta gente corrompida, sem se revoltarem com seriedade revolucionária, perdem o respeito por si próprios e, não se fazendo respeitar, não metem medo a ninguém!

 

 

 

 

 

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