EDITORIAL – O nome das coisas

 

logo editorialDe longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água …

(in O nome das coisas)

Publicado em 1977, este livro de Sophia de Mello Breyner Andresen, reflectia, talvez mais do que qualquer outra das obras da autora, a esperança de que a palavra ganhasse corpo e se erguesse como muralha de dignidade da espécie que a inventou. A força da palavra contra a condição animal – a convicção de que as coisas só existem depois de lhes darmos um nome. Sem as palavras os homens mais não seriam do que um ramo dos primatas, tal como os outros, ignorando a sua humanidade, não existindo…

 

Alguém disse que Sophia não gostaria de se saber no Panteão Nacional. Não sabemos se gostaria ou não – do que não gostaria por certo seria de que a arrumassem como pensamento incómodo e que silenciassem o sentido profundo da sua poesia, remetendo-a para as alturas etéreas de um monte Parnaso de onde não nos cheguem os seus versos e com eles a memória de uma dignidade que aos poucos se vai diluindo em “pragmatismo”, “assertividade”, “sentido da oportunidade”, em palavras, sim, mas em palavras que negam a palavra – pois são provenientes do “demagogo” e do “seu capitalismo das palavras” que, com fúria e raiva, Sophia denunciou, “pois é preciso saber que a palavra é sagrada / Que de longe muito longe um povo a trouxe / E nela pôs sua alma confiada”

Na cerimónia de trasladação dos restos mortais de Sophia para o Panteão, lá estavam todos, solenes, hieráticos, como se estivessem em sintonia com quem, com fúria e raiva, os acusou de se promoverem à sombra da palavra e da palavra fazerem poder e jogo. De transformarem a palavra em moeda.

De acordo com dados do Tribunal Constitucional, os donativos entregues por Ricardo Salgado e por outros administradores do BES para a campanha do Presidente da República ultrapassaram os 152 mil euros. A família Espírito Santo foi a grande financiadora da campanha de Cavaco Silva  nas presidenciais de 2006 – os donativos entregues por Ricardo Salgado e por vários administradores do BES ultrapassaram os 152 mil euros. A verba máxima permitida por lei foi doada só por Ricardo Salgado.

Com fúria e raiva, a palavra corrupção emerge dura como o nome que se pode dar a esta coisa que paira acima das consciências – a moeda – que coloca os poetas nos panteões, colaboradores da PIDE em cadeiras presidenciais e ladrões com residência fixa em hotéis de luxo. Tudo arrumado – só para a dignidade não há lugar,

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