CONTO & CONTOS – “O desaparecimento da Sombra!” – por Joaquim Palminha Silva

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Quando um dia vi a minha Sombra como um ser próprio, reparei que ao sentir o meu olhar sobre si, ela começou a sussurrar opiniões estranhas. Mais envelhecida que eu próprio, dava sinais de ter perdido a razão.

Primeiro, disse-me que se achava fora de mim, depois começou a dizer que ganhara vida própria, para existir com a sua velhice e o seu orgulho imaculado, não precisando de mim para nada! Que a sua razão de existir não era compatível com a minha forma de viver, e que perdera toda a alegria e entusiasmo de ser apenas, e só, a minha Sombra, quando na origem lhe haviam distribuído a minha figura.

A certa altura, a Sombra levantou a voz e começou a apontar-me o dedo indicador: «Onde ficou o meu eu, em todas as barafundas que armaste durante grande parte da tua vida?”; “De que me serve andar a seguir-te silenciosa, discreta, sem me meter na tua estúpida existência?”; “Tu nunca tiveste o mínimo respeito por mim! Sempre fizeste tudo o que te apeteceu, sem perguntares se seria ou não conveniente! Deixaste-me ao abandono, sem conseguir encontrar uma saída para fora da tua vizinhança. Saída digna da minha situação de Sombra!”; “Mas onde estou, onde estou, Deus meu?”; “Quem sou?”; “Qual é a figura de parva que ando a fazer, sendo a tua Sombra?”; “Qual é o meu papel de Sombra, no meio de todos os protagonismos que tentas imprimir na sociedade, nos conhecidos, etc?. Já não digo na família, porque não tens ninguém, bem como no teu mesquinho trabalho de contabilista de supermercado?”; “Não terei direito a encontrar-me?”; “Terei de ser sempre a projecção encardida da tua detestável figura?”; “Estou condenada a ser a tua Sombra?».

As Sombras não se perdem como os gatos de estimação… Mas a verdade é que dias depois, verifiquei que não só a minha Sombra perdera a razão, como eu a perdera a ela! Como não acreditava na sinceridade das minhas promessas de emenda, desapareceu de todo! Fosse eu por onde fosse, a sós ou em fileira humana na rua, nas casas ou nos saldos do supermercado; fosse qual fosse o enredo quotidiano; fosse debaixo da roda do sol ou sob as luzes nocturnas, o resultado prático era sempre o mesmo: – A Sombra não havia meio de aparecer!

Gerou-se então um estranho e extravagante silêncio, tal máscara de cetim transparente, em torno da minha figura, sob o sol do dia ou sob as grandes lâmpadas tranquilas… Quando tinha de passar diante de um espelho, virava o rosto para o lado, de forma a olhar de soslaio, a ver se descortinava a minha Sombra, mas nada! A minha Sombra havia desaparecido (para sempre?).

Desde essa altura, nunca mais tive coragem para me deslocar com descontracção… Imaginava sempre o que me aconteceria se alguém notasse que sou um homem sem Sombra! Todas as pessoas que desfrutam deste atributo natural, poderiam julgar-me uma modalidade de palhaçada impossível e, na melhor das hipóteses, no lugar outrora ocupado pela Sombra, as mulheres e as crianças haveriam de rir por trás de mim, quando não na minha própria cara.

Que fazer? – Pensei em fugir, em mudar de cidade, de país, de emprego, de roupa, de tudo…

Passei dias de sofrimento, sempre a evitar as pessoas, com medo que alguém viesse a notar a ausência da minha Sombra…e me julgasse membro de alguma seita terrorista, cuja Sombra, escondida na clandestinidade de uma cave, fabricava bombas-relógio para me entregar.

Lembrei-me de me aconselhar discretamente com quem mais saberia sobre a figura humana e a sua Sombra. À saída das reuniões, fui consultar políticos decaídos, sombras de um passado não muito distante, mas estes só sabiam coisas de “marketing” partidário; depois de assistir aos sermões da Quaresma, indaguei junto dos sacerdotes católicos o que poderia ser perguntado, mas só obtive evasivas; fui às Universidades na esperança que as sumidades académicas, consultadas com humildade e discretamente, me esclarecessem sobre o desaparecimento da minha Sombra, mas apenas cumprimentei personalidades enfatuadas, cheias de pressa, sem tempo para ouvirem o meu relato; fui à polícia municipal… O Estado não é acaso responsável por todos os cidadãos, pela integridade física das suas pessoas e bens?! Quem não morreu torna a encontrar-se… A polícia municipal ouviu-me, tirou-me fotografias e fez uma ficha com a minha história. Após isto, mandou-me para casa entregando-me a direcção de um médico psiquiatra. Enfim, apontou-me o médico dos doidos!

Regressei a casa desesperado, perguntando-me: onde estará a minha Sombra? Que hei-de fazer para a encontrar? Foi nessa altura que me ocorreu mandar imprimir um anúncio num jornal diário, com a exacta descrição da minha Sombra. A ideia pareceu-me boa, dado que, entretanto, compreendi que não poderia viver sem a minha Sombra. Tentei explicar como era a minha Sombra, isto é, como ela a si própria se havia definido e como, zangada comigo, desaparecera… O empregado da secção de anúncios do jornal escutou tudo, e fez-me pagar umas exageradas centenas de euros pela impressão do anúncio.

No dia seguinte, ao ler a primeira página do jornal, compreendi quanto fora vítima de malogro. A toda a largura da folha, depois de uns títulos sobre a má gestão política do País, uma guerra regional em África e um sismo no hemisfério sul, aparecia a minha história completamente deturpada. Aí se contava que um cavalheiro (eu!), psiquicamente desequilibrado, pretendia que a sua Sombra havia desertado, deixando de trabalhar para a sua figura e, talvez plagiando “Peter Pan”, desaparecera da circulação sem deixar rasto. Fazendo humor à minha custa, os tipos do jornal sugeriam que a fosse procurar nos “objectos perdidos” das estações de caminho-de-ferro, nas casas de penhores ou bengaleiros dos teatros, cinemas e hospitais centrais.

Senti um calafrio percorrer-me a espinha… Mas pouco depois, não tive mais tempo para nada: – Em plena rua, senti-me agarrado por três ou quatro homens de bata branca que diziam: “É este! É ele!”.

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Assim, gritando, vestiram-me uma “camisa de forças”, conduziram-me a  Hospital cujo nome não fixei, onde tentaram que alguém se interessasse por mim. Porém, eu não tenho família, nem amigos, ninguém. Inicialmente desconfiados, não tiveram mais remédio do que concluir que não havia ninguém com interesse pela minha pessoa, com ou sem Sombra! Enfim, não havia quem paga-se a conta do Hospital! A administração do Hospital, indignada, aborrecida por se ter deixado enganar pela notícia especulativa do jornal, acabou por me dar “alta” deixando-me livre.

Nunca mais soube coisa alguma da minha Sombra e, diga-se, pouco me importa… Já que não consigo integrar-me na corrente do Universo, amalgamei-me com a pesada névoa da minha amargura, e mergulhei nos confins solitários da alma humana. A partir daqui podem olhar-me com curiosidade, por não haver dentro da minha existência nada de interessante… Todos os dias devolvo o baralho de cartas da vida, sem o ter aberto… Só Deus sabe quanto espero o fim dos meus dias com ansiedade… Não tenho ninguém e, no meio da minha desgraça, pior que Job, nem a própria Sombra me consola a solidão. Enfim, sou verdadeiramente um nada! Como dizem hoje, um ocidental homem-lixo!

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