EXPOSIÇÃO FOTOGRÁFICA DE FILIPE FLORA REIS – NA LER DEVAGAR

A Exposição fotográfica Script está na Livraria Ler Devagar. Começou a 16 de Agosto e irá até 3 de Setembro. É de autoria de Filipe Flora Reis que fará visitas guiadas:

Dias 27 e 29 entre as 21h e22h; dia 30 das 18.30 às 19h30 e dia 31 das 16 às 17h.

 A exposição é apresentada por Patrícia Nunes, da seguinte forma:

filipe reis

“O AMOR É UMA FACA

A série de fotografias de Filipe Flora Reis intitulada Script# convida-nos para uma sessão de BDSM. Chegamos munidos da habitual curiosidade voyeurista, como se o sexo dos outros pudesse conter um segredo desconhecido que o torna diferente e mais interessante que o nosso. E recordamos as palavras de Michel Foucault na sua magnífica História da Sexualidade: “Diz-se muitas vezes que não fomos capazes de imaginar prazeres novos. Inventámos pelo menos um prazer diferente: prazer na verdade do prazer, prazer em sabê-la, em expô-la, em descobri-la, no fascínio por vê-la, em dizê-la, em cativar e capturar os outros por ela, em confiá-la em segredo, em detectá-la pela astúcia; prazer específico no discurso verdadeiro sobre o prazer”. É precisamente neste tópico que o olhar fotográfico do autor nos surpreende.
Um olhar frio, clínico, aparentemente sem misericórdia. Filipe Flora Reis não nos dá imagens estereotipadas de poses agressivas, corpos supliciados e látex, semelhantes às que qualquer leigo terá na sua mente quando pensa em rituais de bondage e dominação sexual. Ele coloca-nos na ombreira de um local que tanto pode ser cenário de um crime como de outra coisa. Um local que nos parece vedado, onde nem a visão alcança a clareza. Os plásticos estão cuidadosamente dispostos. Uma vela alumia a mesa onde os instrumentos se alinham com matemática rectidão, apenas para sublinhar a escuridão do redor. Raras vezes vemos os corpos envolvidos. Apenas um relance fugidio de carnes tensas de expectativa, contidas por cordas.

Aqui o nosso prazer de ver nunca se esclarece: estamos na ombreira daquilo com que é mais difícil estabelecer um acordo: o nosso próprio desejo. O essencial permanece invisível, intocável, fora de campo, numa relação emocional tensa com a frieza dos chicotes. Em Noite e Nevoeiro, Alain Resnais filmou o holocausto, anos depois do mesmo, conseguindo mostrar toda a desumanidade do acontecimento através dos carris da linha de comboio de Auschwitz, por exemplo. Filipe Reis faz o mesmo com esta cena BSM, expondo o humano e a sua ânsia por um toque intímo, sem mostrar os seus corpos. Saímos desta exposição com a nossa curiosidade satisfeita. O sexo dos outros é afinal igual ao nosso, todos almejando uma intimidade genuína por meios travessos e perversos, se quisermos recorrer aos adjectivos clínicos. É que se quisermos aproximar-nos do nosso desejo, teremos de admitir que o que esperamos do outro é que ele nos penetre bem fundo, com a perícia cortante de uma faca, para além de todas as máscaras e artimanhas com que nos fomos velando. E que essa faca revele que o nosso segredo é o desejo de uma comunhão das carnes, muito próxima do canibalismo. Esta é, portanto, uma exposição para veteranos sentimentais. Saímos de lá mais sós. Mais próximos do nosso desejo.”

Livraria Ler Devagar

LXFactory
Rua Rodrigues Faria, 103, 1300-501 Lisboa

 

 

 

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