OS ARTISTAS COMPROMETEM-SE? EXEMPLOS NA FUNDAÇÃO GULBENKIAN por clara castilho

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Vale a pena ir até à Av. de Berna, até dia 7 de Setembro. Se forem ao domingo, não pagam bilhete. A exposição está Integrada no programa Futuro Próximo da Fundação Gulbenkian. Chama-se, precisamente  “Artistas Comprometidos? Talvez”. Reúne 21 artistas contemporâneos: brasileiros, mexicanos, argentinos, colombianos, guatemaltecos, mas também da África do Sul, Moçambique, Marrocos, Portugal, França e Áustria. A mostra apresenta mais de duas dezenas de obras, algumas delas inéditas: fotografia, escultura, instalação, pintura, desenho, filmes e vídeo. São obras recentes, relacionadas com o mundo contemporâneo. Algumas delas impressionantes, como um murro no estômago.

Próximo Futuro é um Programa de Cultura Contemporânea dedicado em particular, mas não exclusivamente, à investigação e criação na Europa, em África, na América Latina e Caraíbas. Tem objectivos muito próprios: reflectir sobre o que é hoje a contemporaneidade e como ela se expressa e actua na representação da produção artística e cultural; contribuir para a redefinição das identidades, dos novos fluxos, quer de mercado, quer de pessoas, e das novas centralidades, em particular da importância definitiva que as cidades nesta época de transnacionalidade adquirem.

 Celestino Mudaulane

António Pinto Ribeiro, o seu curador, O seu curador disse ao Público “Nas conversas com os artistas, houve sempre um debate em torno do papel interventivo, quer da obra, quer do artista como cidadão. Que implicações surgem na produção contemporânea e na relação dessa produção com os cidadãos? As obras e actividades dos artistas desta exposição não são militantes ou panfletárias, mas partem de um programa individual, pessoal”.

[…]“Não houve colaboração entre eles, mas existiu um processo de debate interno”, nota Pinto Ribeiro. “Houve conversas, leram-se textos, houve reflexão. Verificou-se um processo de partilha, com propostas e contra-propostas, trocas de imagens”.

Começamos a exposição com uma citação de Brecht (in “Aos que vierem depois de nós”), que nos acompanha durante a visita, remoendo como uma vozinha bem lá no fundo:

“Ah, nós que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.”

A visita é longa, tem que se parar, ler o folheto, pensar na possível mensagem, escutar que cada obra faz em nós. Nem todas nos tocam.

Somos acompanhados por um ruído que, por vezes, se torna quase insuportável, e que percebemos serem os gritos de porcos, no vídeo de Berna Reale, do Brasil, em que nos fala de diversas formas de violência.

Os grandes murais de Celestino Mudaulane, Moçambique, e de Conrad Bates, África do Sul e Damian Flores, México,  impõem-se com todo o seu vigor.

Com outro vídeo, de Bouchra Khalili,  Marrocos, em que “encena” uma conversa entre Che Guevara e Al Khattabi, sentimos a angústia da nossa v ida actual e a vontade de ficar o tempo necessário para copiar certas frases.

O filme de Simon Gush, África do Sul fala-nos da vida dos trabalhadores e do descanso da cidade ao domingo.

Voltamos atrás e ficamos colados à escultura de Wim Botha, da África do Sul, que nos faz recuperar o fôlego e sair um pouco mais aliviados.

Sim, os artistas comprometem-se.

 

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