JULIO CORTÁZAR  E  O HUMOR. Por João Machado

1914 - 1984
1914 – 1984

A primeira vez que ouvi falar do Julio Cortázar foi à volta de 1970. Julgo que foi quando vi Blow-up, o filme do Antonioni.  Fiquei fascinado. Não me perguntem porquê. A verdade é que quando fico fascinado, não sei explicar as razões do fascínio. Mas parece que é assim mesmo; se eu percebesse, já não era fascínio. E parece que há muita gente assim. Mas voltando ao que estava a dizer, percebi que o Michelangelo não tinha inventado a história, andei à procura de onde a teria ido buscar, e então  ouvi falar do Cortázar. Já lá vai tanto tempo… Pela mesma altura vi um livro numa montra, já não sei onde, La Vuelta ao Día en Ochenta Mundos. Sou fã do tocayo, perdão, do Verne, desde miúdo, e achei o título interessante, e vi que o autor era (e continua a ser, claro) o Cortázar. Comprei o livro. De vez em quando leio-o e releio-o. Para trás e para a frente. O problema é que me esqueço do que li. Releio, e encontro um sublinhado, e fico a pensar porque o teria feito, e a duvidar se fui que o fiz. Quarenta e tal anos depois, digo o seguinte: ele (o Julio Cortázar) é tremendo. Tem de se ler muito, ter muitas referências, para o conseguir acompanhar. Chega a meter Cervantes, Jerome K. Jerome, Juan Filloy, Sterne, Shakespeare e Max Ernst, em meia dúzia de linhas, para nos demonstrar que o humor ou é all pervading (ele escreve em inglês, porque se calhar não arranjou um bom equivalente em castelhano. A melhor tradução será totalmente impregnante, julgo eu) ou não é humor. Como exemplo de resultado do humor fechado numa jaula o Julio Cortázar refere o Three Men in a Boat, à solta será o D. Quixote, o Tristram Shandy, e se quiserem ler mais vão á página 58 do Volume I, da edição da Siglo XXI de España Editores, S. A., Madrid, 1973. Já agora continuem a ler e vão até ao capítulo De outra máquina célibe, em o Julio nos apresenta os planos de uma máquina, a RAYUEL-O_MATIC, especialmente concebida por Juan Esteban Fassio, um cidadão de Buenos Aires, para se ler Rayuela, a sua obra maior para muita gente, e julgo que também para o próprio Julio Cortázar. Digam lá se não é um fartote de rir. O livro é difícil de se ler, lá isso é. Agora, com a RAYUEL-O_MATIC, seria um sucesso, claro. O preço da máquina seria incluído no do livro?

Aliás, Rayuela foi publicada em 1963. La Vuelta al Día en Ochenta Mundos teve a primeira edição em 1967. A sua leitura diz-nos que a segunda vem na esteira da primeira. E na introdução que fez a esta (Cátedra – Letras Hispânicas, 19ª edição, Madrid, 2007), o editor Andrés Amorós, precisamente num capítulo que intitula “All pervading” (pág. 34), assinala que muitos críticos sublinham o seu conteúdo transcendente, metafísico; mas descuidam o humor, e assim escapa-lhes o essencial. Amorós refere que Cortázar lhe escreveu uma vez dizendo o seguinte: sem o humor o livro seria provavelmente insuportável, como é o caso de muitas novelas latino-americanas, que parecem naufragar sozinhas, no meio de uma seriedade que as vai amachucando e destruindo, isto sem falar do pobre passageiro que ali vai embarcado. E mais adiante afirma que o sentido de humor é uma coisa muito séria e um ingrediente capital de toda a boa literatura.

Não é despropositado assinalar que Cortázar, anteriormente a Rayuela, já tinha alcançado um amadurecimento notável no processo narrativo, nomeadamente como contista. Serão exemplos Casa Tomada (1946, talvez inspirado em A Queda da Casa Usher, sendo de ter em conta que era grande admirador de Edgar Allan Poe, cuja obra traduziu para castelhano, com grande mérito), Bestiario (1951) e os contos incluídos no volume Las Armas Secretas (1959), como Las Babas del Diablo (Blow up), El Perseguidor e outros. Amorós informa-nos que ele considerava El Perseguidor, inspirado na vida de Charlie Parker, como chave na sua carreira. Disse que quando escreveu esse conto renunciou a inventar e procurou colocar-se no seu terreno pessoal, observando-se a si próprio e aos outros. Sentia que até escrever esse conto tinha olhado muito pouco para o género humano. A partir daí, todos os seus personagens serão perseguidores, personagens que procuram alguma coisa que dê sentido à vida neste mundo. É o salto em frente que leva a Rayuela, num pano de fundo em que o fantástico e o real se dão as mãos, e se desafia o leitor a embrenhar-se nos labirintos da história e a aceitar os desafios que se lhe propõe, abandonando a atitude passiva clássica.

1 Comment

Leave a Reply