BISCATES – O Médio Oriente: porque choram os crocodilos? – por Carlos de Matos Gomes

biscates

O Médio Oriente é um vale de lágrimas para os crocodilos. Choram em Gaza, choram no Iraque, na Síria, no Líbano… choram pela destruição do berço da nossa civilização entre os rios Tigres e Eufrates, pela destruição da Palestina – pela faixa de Gaza, local da luta mitológica de Sansão.  Choram os crocodilos pelas mortes de comunidades de cristãos, de zoroastras, de muçulmanos de várias extracções, choram por persas e turcos, por egípcios e semitas, por árabes e berberes, choram pela bárbara decapitação de um jornalista inglês.

Os crocodilos vertem as suas lágrimas no Médio Oriente. As nossas lágrimas, a começar pelas minhas a acabar nasdo simpático e bondoso papa Francisco dos católicos romanos, incluindo as do inefável Durão Barroso, comissário de uma união de faquistas de rua com passadores de moeda falsa, são sentidas, mas falsas. Todos choramos as mortes de crianças, mulheres e homens de todas as crenças e sem nenhuma em Gaza, no Iraque, aqui e ali, mas todos nos alimentamos dessas mortes. Esses homens e mulheres e Gaza e no Iraque, na Siria e no Líbano morrem por nós, nós choramos por eles, mas pagamos a quem os mata.

Todos sabemos que a sua morte é o nosso alimento. Sem a sua morte o mundo em que vivemos não existia. As suas mortes fazem parte da nossa estratégia de sobrevivência. O que que está a acontecer no Médio Oriente pode ser lido nos céus de Washington com toda a clareza e é daí que nos vem o modelo de vida que temos, coisas tão fundamentais como o sistema de pagamentos, as moedas, os sistemas de comunicações e até o facto de não sermos (para já) invadidos pelas populações do magrebe. Vivendo na Europa, por devoção ou por não conseguirmos ser outra coisa, depois de duas grandes guerras somos americanos. O nosso exército é o americano, logo somos americanos, o nosso médio oriente é o médio oriente queos americanos estão a desenhar. Se o desenham bem ou mal é um assunto que podemos discutir, mas não podemos altera.

A situação do Médio Oriente lê-se nos céus de Wasington porque os EUA são a principal potência – de facto a única superpotência – com interesses vitais no Médio Oriente. Estão a lidar com uma situação que criaram e estão confortáveis nesse papel. Podiam estar melhor, mas a actual distribuição de pedras no tabuleiro serve-lhes perfeitamente. Dominam. É o que lhes interessa.

A Rússia não necessita do petróleo da região, só ali tem interesses secundários ali (saída do Mar Negro, repúblicas islâmicas) e está empenhada na sua zona de interesse vital – as fronteiras a Oeste (Ucrânia).

A China, por seu lado, está orientada para zonas secundários onde não tenha de competir directamente com os EUA e a Rússia – a África. Em conclusão, o Médio Oriente é o tabuleiro privativo dos EUA. Os europeus não perceberam que seria do seu interesse ter a Rússia como aliada. Ou perceberam e não a podem estabelecer, porque essa aliança é contrária aos interesses dos americanos.

Como jogam os EUA as suas pedras no tabuleiro do médio oriente? Com torres e cavalos, como fazem os que têm torres e cavalos, claro. Torres:  Israel, Turquia, Arábia Saudita. Cavalos (os desestabilizadores): Os insurgentes do Iraque (O Exército do Levante), da Siria, o Hamas… e obtiveram um novo aliado: o Irão (uma torre problemática, mas conveniente).

Não há um islamismo radical e um islamismo moderado. Há um islamismo subsidiado e patrocinado para ser terrorista, assim como houve um cristianismos subsidiado e patrocinado para ser terrorista no tempo das cruzadas, como houve e há um judaísmo subsidiado e patrocinado para ser terrorista. O problema não é o islamismo, o cristianismo ou o juadísm, o problema é quem tem interesse em aproveitar as crenças religiosas para fazer dos seus fiéis terroristas segundo um ponto de vista e heróis e mártires segundo os próprios.

No final desta manobra de torres e cavalos agora a cargo da administração de Obama o que vai restar da estratégia dos EUA? 4 potências regionais subcontratadas: Israel, Turquia, Arábia Saudita e Irão.

Resultado, depois de muitas lágrimas: O Irão e a Turquia ficarão com os despojos do Iraque e da Síria. A Arabia Saudita ficará com o que tem e mais a autorização de islamização para África e Paquistão. Israel ficará com toda a antiga Palestina, mais os montes Sinai e o Líbano.

Feita a partilha, o Exército do Levante, o mais recente dos desestabilizadores lançados no tabuleiro desaparecerá do mapa dos media ocidentais, como a Alquaeda já desapareceu. O dito califa de Bagade, Abu Bakr (parece), na realidade um bonifrate criado pela CIA e a Mossad  desaparecerá como o Bin Laden  e nunca mais se falará dele, como já não se fala das armas atómicas do Irão, até há uns meses um perigo para a humanidade. Todos deixaram ou deixarão de ser.

Podemos, pois, chorar muitas lágrimas, mas a Turquia vai ser um Estado de mão de ferro aliado dos EUA e nunca mais falará na adesão à União Europeia, a não ser quando os EUA quiseram marcar o seu território, o que acontecerá sempre que algum europeu pensar em veleidades de grande espaço com importância mundial. A Turquia ficará com o Curdistão iraquiano e mais uns restos, o Irão ficará nas mãos dos clérigos persas com o resto do Iraque, Israel ficará com a totalidade da Palestina, talvez com um estado fantoche na Cisjordânia como os bantustões da áfrica do Sul. A Arábia Saudita e o seu peão Qatar continuarão a financiar grupos que desestabilizarão as regiões que interessem em África e na Ásia.

Surgirá dentro em pouco um outro mundo numa região onde as mudanças são constantes. Morrem muitos inocentes? Morrem e morrerão. Mas queriam que morressem quem? Os culpados? Isso seria o fim da história.

Todos gostamos muito de chorar de bons sentimentos pelos inocentes, mas não há radicalismos religiosos em nome de outro deus que não seja o dinheiro. Não é a fé em Deus que alimenta o radicalismo religioso, é o dinheiro. Não há radicalismo religioso sem financeiros por detrás. Nas cruzadas cristãs da Idade Média, como na Jihad actual, como nas invasões do exército de Israel (Tzahal) é o dinheiro que faz o terrorista religioso.

Podia não ser assim? Podia, mas era necessário que o presidente dos Estados Unidos não fosse eleito pelo dinheiro dos que, para o terem, têm de impor alguém que jogue o seu jogo – o complexo militar industrial identificado por Eisenhower  no seu discurso de despedida de presidente dos EUA. Era necessário que o presidente da Rússia não fosse escolhido entre os oligarcas que que querem explorar as suas riquezas em proveito próprio e terem clientela para os seus produtos – o gás. Era necessário que a Europa se assumisse como um ator com interesses próprios, com uma força própria e não um mero conjunto de mordomos e lacaios. Era necessário que os povos deixassem de chorar lágrimas de crocodilo e se vissem ao espelho como são, matilhas de predadores…

Leave a Reply