AMOR SUBLIME E OS “PERIGOS” DA PAIXÃO – 3 – por Rachel Gutiérrez

Conclusão

O papel da imaginação e do desejo vai ser fundamental para Edith Wharton ( 1862 – 1937 ) em seu The age of innocencelivrolivros225Imagem2
(A era da inocência ),
que conquistou o prêmio Pulitzer, em 1921. Trata-se de um romance típico do século XIX, cuja história começa na década de 1870.

Quando, em uma casa de campo, o protagonista Newland Archer, num dos raros encontros em que se acha sozinho com Ellen, a Condessa Olenska, fala sem voltar-se para ela, e ambos estão tomados por forte emoção,…

Por um longo momento ela permaneceu em silêncio; e naquele momento Archer a imaginou, quase a ouviu esgueirando-se por trás dele para jogar os delicados braços em volta de seu pescoço. Enquanto esperava, com o corpo e a alma palpitando pelo que iria acontecer, seus olhos receberam mecanicamente a imagem de um homem vestindo um pesado casaco com a gola de pele levantada, que avançava na direção da entrada da casa. O homem era Julius Beaufort. ( p. 134 )

No caso de Archer e Ellen, tudo se arma contra a vivência da paixão. O desejo está sempre ali, turbulento mas contido pelas circunstâncias adversas. Em outro instante fugaz, porém, no pequeno e requintado salão de Ellen, finalmente…

Ele a tinha em seus braços, seu rosto, como uma flor molhada para seus lábios. E todos os seus vãos temores se desfizeram como fantasmas ao amanhecer. O que o espantava agora era o fato de ter continuado a discutir com ela por cinco minutos, com todo o espaço da sala entre eles, quando teria bastado tocá-la para tornar tudo tão simples. ( p.170 )

Mas o espaço que os separa é bem maior do que o do pequeno salão de Ellen. Mais uma vez, as convenções irão impedir a união dos amantes. Na verdade, a condessa, que se havia separado recentemente de um marido devasso e cruel era prima de May, a jovem que Newland Archer acabara de pedir em casamento. Quase sempre o indivíduo é sacrificado para salvar o eu se supõe ser o interesse coletivo ou não se pode enfrentar a sociedade, são frases que ressoam ao longo do livro. Vinda da Europa, onde vivera até então, Ellen se surpreende ao reencontrar as rígidas regras sociais da Nova York do fim do século. E exclama: Vocês são tão acanhados, e ao mesmo tempo tão públicos!

Há uma luta de antemão perdida em The age of innocence: a das aspirações individuais contra a sibilina e proibitiva autoridade da tribo social. Nega-se ao indivíduo a capacidade de optar, o que provoca uma derrota no próprio coração da vida. Afinal, como é que Archer iria se desvencilhar do compromisso com a noiva para unir-se a uma mulher cujo divórcio nem fora ainda decidido? Para o grupo de elite que conspirava em silêncio, isso era inadmisssível. Simplesmente impensável. E a sutilíssima intriga da alta sociedade acaba por triunfar.

Era a maneira da velha Nova York de tirar a vida sem derramamento de sangue, a maneira das pessoas que temiam mais o escândalo do que a doença, que colocavam a “decência” acima da coragem e consideravam ainda pior do que fazer cenas, provocá-las. ( p.335 )

Afastada a tempestade, há um gosto de cinza na boca de Archer, o gosto do usual, do quotidiano insípido, pois ao invés de ter-se casado com Ellen, por quem seu coração batera com susto e fervor, e graças à qual tivera o primeiro e único vislumbre do que realmente pode ser o amor, casara-se com May por quem, nos melhores momentos, mesmo antes de conhecer Ellen, só havia estado placidamente enamorado. E na monotonia de seu casamento, ele teme tornar-se igual ao sogro, que vive cronometradamente o seu dia, preocupado apenas com as horas das refeições e dos remédios. A própria May parece ter sido atingida pela platitude morna desse casamento, apesar de seus esforços para criar uma atmosfera de perpétua lua de mel, sem conseguir, é claro, a temperatura de uma lua de mel, e sendo sempre totalmente previsível. Archer, então, enfiado na biblioteca, refugiava-se no mundo da arte e da cultura, que sabia ser também o de Ellen…

… ele havia construído dentro de si mesmo uma espécie de santuário, no qual ela reinava sobre seus pensamentos mais secretos e sobre seus desejos. Pouco a pouco isso tornou-se a cena da sua verdadeira vida, de suas únicas atividades racionais; ( p. 263 )

Edith Wharton tem a coragem de apontar como as “únicas atividades racionais” de seu personagem, o espaço secreto do desejo e da paixão. E no fim do romance:

Uma coisa ele sabia que havia perdido: a flor da vida. ( p.347 )

Para Ellen, a renúncia a essa “flor da vida” não foi menos triste. Após o triunfo da conspiração tribal dos nova-iorquinos bem pensantes, a condessa intrusa, a indesejada, volta a viver sozinha na Europa. Em silêncio.

Muitos anos mais tarde, já viúvo e tendo a oportunidade de revê-la, em Paris, Archer prefere ficar sentado no banco da praça, diante do prédio onde ela mora.

É mais real para mim aqui do que se eu subisse, ele se ouve dizer de repente: e o temor de que a última sombra da realidade pudesse desaparecer o fez criar raízes em seu banco enquanto os minutos se sucediam. ( p.362 )

* * *

Ao tornarem o amor impossível, os artistas criadores não estariam desejando perpetuar o desejo? Fazendo do desejo o grande protagonista das histórias de amor, não estariam eternizando esse sentimento? É o não realizado que dura para sempre. O realizado corre o risco fatal de deteriorar-se ou de morrer, como tudo. E só a arte tem o poder de vencer a morte. Portanto, a arte imobiliza o momento do desejo para imortalizá-lo, pois o confronto com a satisfação ou com a realidade já pode indicar o começo do declínio, do tédio, do desgaste enfim. O que é perene é o desejo de amar. Though lovers be lost/ Love shall not/ And death shall have no dominion (Ainda que os amantes se percam/ O amor persistirá/ E a morte não terá nenhum domínio) disse Dylan Thomas.

Só a arte salva o amor da morte do amor, como salva da morte a própria vida. Eis a essência do eudemonismo estético. E não há arte sem paixão. Paixão é criatividade: sem paixão não há poema, quadro, catedral, literatura, filosofia ou transformação social. Em Nietzsche é o que martela e fragmenta, exigindo a transmutação de todos os valores; em Marx, é o que subverte, denunciando a injustiça das estruturas econômicas e sociais; em Freud, é o que revela o inconsciente; e no moderno feminismo, é o que desprivatiza o privado para revelar e denunciar a desigualdade entre os sexos. E é da paixão amorosa que trata a literatura, especialmente a romântica. Ora, a paixão é a irrupção do novo, do diferente em nós, é uma invasão que nos afoga e completa, que sufoca mas preenche, aniquila mas satisfaz, envolve, pressiona, aprisiona e esmaga, mas também liberta e ilumina, leva ao êxtase. E enlouquece. Porque é expansão infinita, visão do absoluto. Se desequilibra e revoluciona é porque vivifica, renova e recria. Em estado de paixão, estamos no terreno do dionisíaco por excelência e, em termos nietzscheanos, o que a arte faz é dar forma ou aparência apolínea, é dar objetividade ou configurar a subjetividade ardente de Dioníso.

Das três personagens femininas mencionadas aqui, a Cathy de Emily Brontë, sendo a mais trágica, é a que transcende a própria morte e faz do objeto de sua paixão, Heathcliff, o “penhasco ermo”, um pórtico para o infinito.

Essa paixão sem a qual o mundo é insípido, paixão que alimenta e fecunda, e sem a qual perde-se “a flor da vida”, possui as características do que para Kant é o sublime, pois, em termos kantianos, o sublime é noturno, tempestuoso, misterioso. Ora, o amor é solar, a paixão, noturna. O amor pode ser belo, mas é a paixão que é sublime. Um sublime que inclui o assombro: vislumbre do infinito, do eterno, do absoluto.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

AUSTEN, Jane. Sense and sensibility. London: Penguin Classics, Penguin Books, 1986.

Sense and Sensibility – em Portugal Sensibilidade e Bom-senso; no Brasil, Razão e Sensibilidade ou Razão e Sentimento

BRONTË, Emily. Wuthering heights. New York-London: Bantam Books, 1981

.Wuthering Heights, em Portugal O Monte dos Vendavais, no Brasil O Morro dos Ventos uivantes

WHARTON, Edith. The age of innocence. New York-Oxford: Collier Books, Maxwell Macmillan International, 1986.

The age of innocence Em Portugal A Idade da Inocência; no Brasil A era da inocência .

 

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