CARTA DE SÃO PAULO – Livros e política: Editoras de esquerda no Brasil hoje – por Flamarion Maués


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Livro e política

 “Em nosso imaginário coletivo, o livro é um dos suportes naturais das culturas políticas”, afirma a historiadora francesa Marie-Cécile Bouju em seu livro Lire en comuniste: Les maisons d’édition du Parti communiste français, 1920-1968 (Rennes: Press Universitaires de Rennes, 2010,p. 11). Isso se deve ao fato de que a edição de livros sempre foi uma das mais importantes formas de divulgação e de debate de ideias, seja na época anterior à invenção de Gutenberg – quando os livros eram ainda manuscritos –, seja depois do surgimento da impressão com tipos móveis.

Logo, a imprensa e os livros sempre foram um veículo fundamental para a disseminação das ideias políticas, contribuindo decisivamente para a circulação das diversas opiniões e, por meio do debate e das trocas que essa circulação proporciona, permitiram o aprofundamento das ideologias e das propostas políticas delas decorrentes.

Tratarei aqui de um pequeno pedaço dessa grande teia de ideias, a saber, das editoras políticas de esquerda no Brasil neste século, no eixo São Paulo–Rio de Janeiro. Tentarei apresentar um breve panorama das editoras vinculadas a ideias de esquerda que mais se destacaram na difusão de obras políticas no país nesse período. Certamente haverá lacunas, mas creio que será possível termos uma visão geral do campo editorial no Brasil no que diz respeito às editoras com vinculações políticas de esquerda.

Destaquemos, todavia, que esse panorama estará longe de esgotar o tema, uma vez que a edição de obras políticas não se restringe às editoras ligadas a grupos políticos, mas também é feita por editoras de caráter comercial, ou seja, editoras que publicam títulos variados, inclusive algumas obras políticas – como é o caso, atualmente, de editoras como Geração, Vozes, Cortez, Jorge Zahar e Unesp.

Editando ideias

Nos últimos 15 anos, algumas editoras políticas de esquerda vêm se destacando no panorama brasileiro. Talvez a mais importante entre elas seja a Boitempo Editorial, de São Paulo, fundada em 1995 e dirigida por Ivana Jinkings. Ligada a intelectuais de esquerda, publica com apurado cuidado editorial autores como Boaventura de Sousa Santos, David Harvey, Edward Said, Emir Sader, Francisco de Oliveira, François Chesnais, Giorgio Agamben, György Lukács, Immanuel Wallerstein, István Mészáros, Maria Rita Kehl, Michael Löwy, Mike Davis, Paulo Arantes, Perry Anderson, Ricardo Antunes, Tariq Ali e Slavoj Žižek. Possui um amplo catálogo com temas ligados aos debates ideológicos e políticos mais atuais. Vêm editando a obra de Marx e Engels em novas traduções feitas diretamente do alemão e edições comentadas. Hoje seu catálogo chega a cerca de 300 títulos. Além disso, edita a revista semestral Margem Esquerda, de estudos marxistas (http://www.boitempoeditorial.com.br/).

A Boitempo tem ainda promovido cursos sobre a obra de Marx e Engels, além de patrocinar a vinda ao Brasil de alguns de seus autores estrangeiros mais destacados para palestras e eventos.

Outra editora que se destaca é a Expressão Popular, de São Paulo, criada por iniciativa do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), inicialmente visando produzir material para a formação política de militantes e simpatizantes, mas que sempre se caracterizou por ter um alcance mais amplo. Fundada em 1999, é coordenada por Carlos Belé e dirigida por um conselho editorial (http://expressaopopular.com.br/).

Tem reeditado obras que estavam esgotadas, como Combate nas trevas, de Jacob Gorender (em coedição com a Fundação Perseu Abramo), A crise do movimento comunista, de Fernando Claudín, História militar do Brasil, de Nelson Werneck Sodré, O estruturalismo e a miséria da razão, de Carlos Nelson Coutinho, e Sete ensaios de interpretação da realidade peruana, de José Carlos Mariátegui. Entre seus autores estão Enrique Dussel, Florestan Fernandes, Leandro Konder, Celso Frederico, Ademar Bogo, Atílio Boron, João Pedro Stédile, Marx, Engels, Lenin, Mao Tsé-Tung, Rosa Luxemburgo e Plekhanov.

A Expressão Popular se caracteriza também por cobrar preços abaixo do mercado por seus livros. Isso é possível pelo fato de a editora não visar o lucro e contar com o trabalho voluntário militante. Tem hoje mais de 300 títulos publicados.

Entre os partidos de esquerda, três possuem editoras ativas: Partido dos Trabalhadores (PT), Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado) PSTU. As três se caracterizam por publicar não só obras voltadas para os seus militantes, mas também para o público em geral.

O PT mantém a Editora Fundação Perseu Abramo, criada em 1997 e coordenada por Rogério Chaves. Entre os autores publicados estão Antonio Candido, Marilena Chaui, Celso Furtado, Lélia Abramo, Maria da Conceição Tavares, Milton Santos, Walnice Nogueira Galvão, Aloysio Biondi, Paul Singer, Sérgio Buarque de Holanda, Venício de Lima. Recentemente promoveu a reedição de obras como Pau de arara: a violência militar no Brasil, de Bernardo Kucinski e Ítalo Tronca, O escravismo colonial, de Jacob Gorender, e Poemas do povo da noite, de Pedro Tierra. A Editora Fundação Perseu Abramo disponibilizou mais de 40 obras de seu catálogo para download gratuito (http://novo.fpabramo.org.br/). Tem cerca de 200 obras em seu catálogo.

A editora Página 13, ligada à corrente interna do PT denominada Articulação de Esquerda, começou recentemente a editar livros. O editor é Valter Pomar, e alguns de seus títulos podem ser baixados gratuitamente em: http://www.pagina13.org.br/biblioteca/editora-pg13/.

O PCdoB tem desde 1979 a Editora Anita Garibaldi – que completa 35 anos em outubro próximo –, atualmente coordenada por Zandra Baptista. Publicou obras de Astrojildo Pereira, Clovis Moura, Domenico Losurdo, João Amazonas, Altamiro Borges, Haroldo Lima, Octavio Brandão, José Carlos Ruy, Dario Canale e Che Guevara, além de obras de Marx e Engels, entre outros autores. Recentemente editou O livro negro da ditadura militar, obra lançada originalmente de modo clandestino em 1972 pela Ação Popular denunciando as violências e as torturas praticadas no Brasil naqueles anos. Desde 1981 edita a revista bimestral Princípios (http://www.anitagaribaldi.com.br/).

A Editora Sundermann foi fundada em 2003 pelo PSTU. Seu nome é uma homenagem ao casal de militantes José Luís e Rosa Sundermann, assassinado em 1994. Enfatiza a republicação de obras de autores marxistas como Engels, Lenin, Trotsky e do dirigente trotskista argentino Nahuel Moreno. Outros autores da editora são Pierre Broué, Ernest Mandel, José Maria de Almeida, Edmundo Fernandes Dias, Valério Arcary, Carlos Bauer, George Novack, Alicia Sagra e José Welmowicki. Publica a revista Marxismo Vivo, da Liga Internacional do Trabalhadores Quarta Internacional (LIT-QI) (http://www.editorasundermann.com.br/).

O Instituto Caio Prado Jr., próximo ao PCB, mantém também uma editora, dirigida por Milton Pinheiro, que tem publicado livros e a revista Novos Temas (http://institutocaioprado.org.br/icp/).

Outras editoras

Há ainda algumas outras editoras que se destacam pelas publicações de caráter político. A Revan, do Rio de Janeiro, já tem mais de 30 anos de atividade, período em que publicou mais de mil títulos sob a direção de Renato Guimarães. Entre seus autores destaca-se Oscar Niemeyer. Também do Rio, a editora Achiamé foi criada em 1978 por Robson Achiamé e se dedica primordialmente à edição de obras relacionadas ao pensamento anarquista.

A paulista Xamã, de Expedito Correia, completou 20 anos, período em que publicou mais de 200 títulos, a grande maioria vinculada ao pensamento de esquerda. A carioca Contraponto, de César Benjamin, com quase duas décadas de vida, publica, além de obras políticas, obras de caráter acadêmico e científico. A Plena Editorial, de São Paulo, dirigida por Ary Normanha e Ivan Seixas, vem se destacando por obras sobre a memória e a história dos últimos 50 anos do Brasil, em particular da resistência à ditadura. A paulista Publisher, de Renato Rovai, editou durante mais de dez anos a revista Fórum (atualmente em edição eletrônica: http://www.revistaforum.com.br/) e publica livros ligados ao pensamento progressista.

Há ainda algumas pequenas editoras, com atuação nem sempre constante, que se caracterizam pela publicação de obras políticas de esquerda: Centauro, Centelha Cultural, Dobra Editorial, Edições Iskra, Olho D’Água, Radical Livros, Selo Negro e Tinta Negra.

Certamente há algumas lacunas neste levantamento, mas acredito que temos aqui um breve registro das mais importantes editoras políticas de esquerda em atuação no Brasil atualmente no eixo São Paulo–Rio de Janeiro.

Todas essas editoras, que se caracterizam pela edição política, ou seja, a edição diretamente vinculada ao engajamento político, desempenham um papel importante na disseminação e no debate de ideias que podem ajudar a entender melhor o Brasil e o mundo de hoje, apresentando perspectivas diferenciadas em relação à mídia empresarial e tocando em temas muitas vezes desprezados ou escondidos por ela. Contribuem, dessa forma, para ampliar o debate e trazer novos olhares e possibilidades para a luta política e ideológica.

One comment

  1. boices fazem publicação de livro com temas esquerda?

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