DOM ROBERTO E POLICHINELO NO MUSEU DA MARIONETA por Clara Castilho

Só alguns se lembrarão de assistir aos Dom Robertos. Agora têm a oportunidade de os rever e de ver outras personagens do mesmo género. No Museu da Marioneta, a exposição ROTAS DE POLICHINELO, com entrada gratuita, pode ser vista até 28 Setembro. Consultado o site do Museu, obtivemos as seguintes informações.

ROTAS DE POLICHINELO é uma grande exposição de marionetas europeias, a enorme família de marionetas do teatro popular europeu, onde se inscreve o nosso famoso Dom Roberto.

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Com esta exposição, o Museu da Marioneta vai dar a conhecer os Polichinelos de algumas das principais cidades europeias, esses grandes pequenos heróis tradicionais, alguns dos quais quase desaparecidos. Esta grande família tradicional de pequenos heróis nasceu em Nápoles, durante o Renascimento, e enraizou-se profundamente, constituindo-se como um património vasto de personagens e de histórias, mas também das tradições e crenças dos seus povos das suas cidades.

Apresentada agora pelo Museu da Marioneta, a exposição tem por base o trabalho de pesquisa realizado por Toni Rumbau e foi organizada e inicialmente apresentada no TOPIC (Centro Internacional de Marionetas de Tolosa), numa mostra para a qual o Museu já colaborou através da cedência de marionetas populares portuguesas.

Vejamos a história do Polichinelo:

 “A Europa possui uma personagem muito curiosa: o enérgico, irreverente e popular Pulcinella, a máscara napolitana que, ao mover-se e expandir-se de cidade em cidade ao longo dos séculos, gerou uma família de irmãos e parentes intimamente relacionados entre si.

Desde então, a generalidade dos Polichinelos, embora concebidos em locais e momentos diferentes, manteve as suas características e identidade ao longo dos séculos.

PULCINELLA é o ponto de partida. Nascido em Nápoles, durante o Renascimento, e descendente directo da COMMEDIA DELL’ARTE (forma de teatro popular improvisado), Pulcinella percorre a Europa e em cada cidade sofre transformações: ali cresce-lhe o nariz, mais além tornam-no rico ou mísero, feliz ou desgraçado; alguns colocam-lhe um chapéu, outros tiram-lho; deixam-lhe crescer a barba ou o bigode; exaltam-lhe a ira, a gula ou a lascívia e todos o fazem falar com a língua da sua cidade.

Ao chegar ao mundo Otomano (os territórios do que foi o antigo Império Turco), uma figura de apenas duas dimensões substitui-o: Karagöz, o herói do teatro de sombras turco, fala a linguagem do povo e o seu espírito irreverente é descendente de Pulcinella.

Na EUROPA DO POLICHINELO, a maioria das cidades tem uma marioneta que as representa: Nápoles tem Pulcinella, Paris tem Polichinelle; Londres tem Punch; Lyon tem o Guignol; Moscovo, Petrushka; Barcelona, Títella; Madrid, Don Cristóbal; Lisboa, o Dom Roberto.

Esta família de pequenos heróis europeus enraizou-se profundamente nos tecidos das cidades, constituindo-se como um património vasto de personagens e de histórias, mas também das pequenas tradições e crenças dos seus povos: pequenos mitos que constituem as suas almas populares e humildes e que falam de alguns dos seus traços mais peculiares, recônditos e escondidos.

Em PORTUGAL, o espírito polichinelesco encarna naquela curiosa personagem que parece ter surgido no século XIX – o D. Roberto –, cuja origem se costuma associar ao nome do empresário de teatro Roberto Xavier de Matos; mas também se diz que poderá dever-se a uma famosa comédia de cordel intitulada Roberto do Diabo.

Seja como for, em Portugal chamam-se Robertos aos fantoches de luva e Roberto é também o protagonista da maioria das suas histórias.

O que distingue o último DOM ROBERTO conhecido das outras personagens da tradição europeia?

João Paulo Seara Cardoso (1950-2010), grande marionetista do Porto que recuperou a tradição através do último dos grandes mestres (António Dias), resume a diferença entre o Teatro de D. Roberto e os seus familiares europeus à sua extrema simplicidade. A sua guarita (tenda/cenário) é a mais simples das que se conhecem na Europa: um cubo coberto de tecido onde se esconde o manipulador, sem nenhum fundo, telas ou cenários fixos. O público pode normalmente situar-se à sua volta”.

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