A Europa depois dos azuis – Eleja-se Jean-Claude Juncker
Stefan Collignon, Social Europe Journal
Europe After The Blues – Elect Jean-Claude Juncker, 27 de Maio de 2014
É feio. É preocupante. É perigoso. Os resultados das eleições com os partidos da extrema-direita a chegarem em primeiro lugar em muitos países europeus é a prova da falência da União Europeia tal como nós a conhecemos. Se a Europa continua assim com o seu intergovernamentalismo que não satisfaz ninguém e impede a mudança política, a União Europeia será desfeita e liquidada no prazo de 10 anos.
Estes resultados eleitorais têm mostrado que os cidadãos europeus não querem ser governados por burocratas irresponsáveis ou pela senhora Merkel e seus poodles obedientes. O povo gritou: ouçam-nos no nosso desespero! Queremos mudança! A questão é agora é a de quem é que vai trazer a mudança?
A força destas eleições europeias foi, não haja dúvida, a de que pela primeira vez a eleição do Parlamento Europeu era realmente muito importante. Os partidos políticos apresentaram os seus candidatos para o cargo do próximo Presidente da Comissão Europeia, que afinal é o mais próximo que temos de um executivo europeu. Isto pode explicar porque é que a participação foi maior desta vez do que o foi há 5 anos atrás. Nada poderia agora constituir uma maior traição do que voltar atrás com a promessa de que o candidato com o apoio da maior maioria se irá tornar o novo Presidente.
Merkel e Cameron puseram repetidamente em questão que o Parlamento Europeu tenha o direito de decidir. No entanto, o Tratado é claro. O artigo 17, ponto 7, diz:
“Tendo em conta as eleições para o Parlamento Europeu e depois de proceder às consultas adequadas, o Conselho Europeu, deliberando por maioria qualificada, propõe ao Parlamento Europeu um candidato ao cargo de Presidente da Comissão. O candidato é eleito pelo Parlamento Europeu por maioria dos membros que o compõem. Caso o candidato não obtenha a maioria dos votos, o Conselho Europeu, deliberando por maioria qualificada, proporá no prazo de um mês um novo candidato, que é eleito pelo Parlamento Europeu de acordo com o mesmo processo.”
Daqui se tira que é o Parlamento que elege o Presidente da Comissão, não o Conselho dos chefes de Estado e dos Governos. Tal como a rainha na Inglaterra propõe à Câmara dos Comuns quem devem eleger como primeiro ministro, assim o Conselho Europeu deve propor ao Parlamento quem deve vir a ser o Presidente da nova Comissão.
Mas quem deve ser o homem (os verdes têm uma mulher como o seu candidato, mas dispõem somente de 59 lugares em 751 isto é 7,9%)? A pergunta é clara. O European Peoples Party (PPE) é o grupo mais forte com 211 assentos (28,1%) e o seu candidato é Jean-Claude Juncker. Os socialistas europeus com Martin Schulz vêm em segundo com 193 lugares. Aqui, estes perderam.
A maioria absoluta é de 376 lugares.
Poder-se-ia discutir que se os socialistas formassem uma aliança com outros partidos, poderiam reivindicar a posição de topo da Comissão, de acordo com o Tratado. Mas isto não funciona. A maioria absoluta são 376 lugares. Uma aliança vermelho-verde controlaria somente 267 lugares e se tomarmos a extrema-esquerda mesmo assim ainda seriam somente 314 lugares. A mesma impossibilidade para formar uma maioria existe na direita democrática. Para uma aliança do PPE e dos liberais faltam 91 lugares para uma maioria, e mesmo se foram adicionados os verdes seriam ainda precisos mais 32 votos. Assim, porque a extrema-direita antieuropeia ocupa 167 assentos (22,2%), as maiorias à esquerda ou à direita são impossíveis neste Parlamento.
Os democratas devem respeitar o veredicto dos povos. Aqui há somente uma possibilidade de estar a respeitar a vontade dos cidadãos. Os socialistas europeus devem declarar imediatamente que apoiarão Jean-Claude Juncker como o próximo Presidente da Comissão. Junto estes dois partidos têm uma maioria absoluta, mas os liberais e os verdes provavelmente irão também votar no candidato da maioria. Devem fazê-lo porque de outra maneira os governos nacionais aproveitarão a oportunidade e começarão já a beliscar pelas nádegas o começo mole da democracia europeia.
Não é bonito. Jean-Claude Juncker é um homem do establishment que não fez campanha para uma grande reforma da União Europeia, mas o seu grupo político obteve a maioria de votos e os democratas devem respeitar aquela votação. Por outro lado, eu não recomendo que este apoio se transforme numa Grosse Koalition, uma aliança formal entre os dois maiores partidos. Os políticos europeus e as suas políticas devem mudar. Os socialistas europeus devem apresentar uma alternativa ao mainstream conservador que nos tem governado desde há décadas. Por este motivo é primordial que os partidos de centro esquerda mantenham fortes pressões para uma Europa diferente, para a igualdade social, para um efectivo bem-estar , para a democracia real . Depois de porem de lado os interesses parciais das nações, os partidos no Parlamento Europeu devem tornar-se os defensores dos bens comuns de que todos os cidadãos europeus devem partilhar.
Do que a Europa agora precisa não é mais dos governos nacionais a atrapalharem a Europa. Já basta de Merkel, de Sarkozy, de Hollande, de Berlusconi, de Samaras, de Cameron e de Orban. Deixem os europeus governar os europeus. Isto é democracia, isto é liberdade e igualdade. Esta é via que a Europa deve a partir de agora tomar [para transformar o seu presente e construir o seu futuro].
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Stefan Collignon, Europe After The Blues – Elect Jean-Claude Juncker